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A “Ilha de S. Tiago é a deste nome a capital até o presente, e o tem sido para desgraças sua e das outras, porque como o seu clima é péssimo e doentio, os Governadores-gerais, Ouvidores que para ali vão pouco adiantam ou nada promovem a bem daquelas Ilhas”359. Este retrato foi traçado por volta de 1804, pelo então Tenente-coronel, capitão-mor da ilha de Boavista, Aniceto António Ferreira, um dos vários autores que responsabilizaram a ilha de Santiago pela decadência de toda a Capitania/Província. A situação agrava-se por ser (e manter) a ilha de Santiago como Capital de Cabo Verde, pois era o centro das decisões, e seria, assim, também, o centro dos problemas que afectavam toda a Capitania/Província. Consideravam-na como uma das ilhas com o clima mais “doentio” para os europeus. Era (e é) considerada a ilha “mais africana”, não só pela tese de que já era habitada pelos Wolof aquando à chegada dos portugueses/europeus e a que manteve a relação mais profunda e duradoura com a costa fronteira, como também a própria natureza era aproximada do continente africano, principalmente o seu clima.

A maior de todas e considerada no início da ocupação portuguesa/europeia como a mais propícia para o estabelecimento dos europeus, ponto de apoio à navegação e entreposto comercial, Santiago foi assim a primeira ilha do arquipélago a ser povoada. Nela se estabeleceu o centro das decisões político-administrativas (administração, justiça, eclesiástica e militar) e tornando-se o principal ponto económico e social de Cabo Verde e dos territórios adjacentes. Segundo Lopes de Lima, Santiago era “tão principal, que tem sido sempre denominada por excellecia a Ilha de Cabo

Verde (sic) nas praticas communs dos habitantes de toda a Provincia”360. Era a capital da Capitania/Província e do Bispado. Segundo o Anónimo, em 1784, por ter mais povo cristão e mais

358 Vide AHU, Cabo Verde, Papéis Avulsos, cx. 59, doc. 22, 5 de Julho de 1810. 359 Aniceto António Ferreira, “Memória dos artigos e produções […]”, op. cit., p. 61.

360 J. J. Lopes de Lima, Ensaio sobre a Statistica das ilhas de Cabo Verde […], op. cit., parte II, p. 3. De facto esta

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abundante361. Segundo Pusich, foi eleita capital por ser a maior de todas e possuir a terra mais fértil e mais abundante do mundo caso não lhe faltasse chuva362.

A Ribeira Grande de Santiago tinha, até 1770, a residência oficial dos agentes administrativos, governadores, ouvidores, bispos e mais autoridades administrativa. Depois dessa altura as residências oficiais passaram para a vila da Praia, excepto dos Bispos e seus ministros que passaram a ter a residência oficial na ilha de S. Nicolau. O que não significa que permanessem sempre nesta ilha.

A transferência para a vila da Praia não parece ter melhorado muito a situação administrativa nem da ilha de Santiago e nem do arquipélago em geral, pois Santiago continuava a ser responsabilizada pelo seu clima. Assim sendo, de forma a contornar este mal, os principais agentes administrativos das ilhas, durante os finais do século XVIII e toda a primeira metade do século XIX, suplicavam e propuseram constantemente a transferência da capital para as outras ilhas “mais saudáveis”. Sabe-se que este problema sobre a transferência da capital de Santiago para as outras ilhas permaneceu até aos nossos dias. Ainda hoje esta questão não está totalmente resolvida363.

O principal argumento com que justificavam essa transferência para uma das outras ilhas, no período em estudo, era o clima. Era quase consensual entre os autores que o clima da ilha de Santiago era muito quente e pouco saudável, principalmente para os europeus. Ali “no tempo das chuvas reinam as mesmas doenças da costa da Guiné”. Não havendo boticas nem médicos nas ilhas, as doenças eram infalíveis para os recém-chegados, e muitas vezes fatais. Muitos deles recorriam aos remédios feitos por “algum preto da terra, como pratico dela [de curar aquelas doenças]”364. As doenças provocadas pelo mau clima denominavam-se de “carneiradas”, também conhecida como “doença da terra”. Estas fizeram com que a ilha de Santiago fosse vista como: o “matadouro dos europeus”; “habitação somente própria dos criminosos”365; “tumba dos europeus”366; ou ainda,

361 Vide Notícia corográfica e cronológica do bispado de Cabo Verde […], op. cit., p. 17. 362 Cf. António Pusich, “Memória ou descripção físico-politica […]”, op. cit., p. 624.

363 Por exemplo o Mindelo de São Vicente foi fundado como alternativa à Praia de Santiago, mas posicionaram-se

frente-a-frente até aos dias de hoje, com vantagem da Praia que continua a ser a capital. Mindelo é considerado informalmente, por muitos, como a Capital Cultural de Cabo Verde, e formalmente, da Lusofonia, desde 2003. A situação de Mindelo e Praia é a que normalmente acontece com qualquer capital de um país e a sua segunda maior cidade; veja-se o exemplo das cidades de Lisboa e Porto.

364 Cf. António Pusich, “Memória ou descripção físico-politica […]”, op. cit., p. 625. Sobre as “doenças da terra” e

forma de as curar no período em estudo veja-se Manuel Roiz Lucas de Senna, op. cit., pp. 79-91; Maria João Soares, Maria Manuel Torrão, Ervas e Curandeiras. Remédios e Boticários. Formas de curar nas Ilhas de Cabo Verde (Século

XVIII e início do século XIX), Workshop Plantas Medicinais e Fitoterapêuticas nos Trópicos, IICT /CCCM, 29, 30 e 31 de Outubro de 2008.

365 Vide António Pusich, “Memória de algumas providências […]”, op. cit., p. 136. 366 Idem, “Ensaio físico e político […]”, op. cit., p. 629.

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segundo Lopes de Lima, a ilha merecia título de “mortífera”367. Os Santiaguenses eram os que levavam vantagens, pois eram imunes ao mau clima, até mesmo ao da costa, o que não se verificava com os habitantes da costa em Santiago368.

Por estes motivos, a ilha de Santiago foi considerada capital da sua própria desgraça e da das outras ilhas e territórios a ela adjacentes. A capital não acertava nas decisões que tomava, principalmente na administração e era também a causa das poucas prosperidades das ilhas porque “os homens de habilidade” repugnavam os ofícios no arquipélago pelo facto de a capital se manter na ilha de Santiago369, até os próprios religiosos, homens de bem, que deviam fazer sacrifícios para o bem do próximo. Por isso, em 1818, António Pusich verificava que todos os europeus que se achavam na ilha de Santiago estavam forçados pela “obrigação do ofício”370.

Nestas condições, os poucos agentes administrativos que vinham para as ilhas eram dos piores que podiam ser. Além de “poucos e maus”, passavam quase todo o tempo doente, o que prejudicava o sector administrativo, com graves consequências para a ilha de Santiago e suas dependências. Dizia Lopes de Lima, em 1844, que era convicção geral e unânime a desvantagem que resultava para o serviço público ter a sede das autoridades governativas numa ilha “tão doentia” e mesmo “mortífera” durante a terça parte do ano371. No tempo-das-águas, governadores, ouvidores e a maior parte de outros “funcionários públicos” “fugiam” para as outras ilhas, consoante as preferências de cada um, com razão, segundo António Pusich, “com incommodo proprio, e grande quebra, e desarranjo no andamento dos negocios publicos”372. Durante esta saída, estes funcionários dispersos por diferentes ilhas, pouco podiam fazer para a prosperidade das mesmas.

Além do clima, segundos alguns autores, outros motivos justificavam a transferência da ilha Santiago. Segundo António Pusich, a ilha continuava a ser preferida pelo Estado por ser a “primeira a ser descoberta e povoada”. No entanto, era umas das “piores em vários outros aspectos”, não tendo outro valor se não o da antiguidade, o mesmo estabelecimento que constituíra “a principal para não dizer a única causa do atrazamento destas ilhas em todos os pontos do interesse público”373. A ilha com os edifícios todos arruinados foi um dos motivos que levou os bispos a fixarem a residência na ilha de São Nicolau porque, além de a ilha ser mais saudável para eles, o

367 Cf. J. J. Lopes de Lima, Ensaio sobre a Statistica das ilhas de Cabo Verde […], op. cit., parte I, p. 9. 368 Idem, ibidem.

369 Vide António Pusich, “Esboço sobre a forma de Governo Administrativo das ilhas [...]”, op. cit., p. 141. 370 Cf. Idem, “Memória de algumas providências […]”, op. cit., p. 136.

371 Cf. J. J. Lopes de Lima, Ensaio sobre a Statistica das ilhas de Cabo Verde […], op. cit., parte I, p. 4. 372 Cf. idem, ibidem.

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palácio que tinham na Ribeira Grande estava todo arruinado374. Na vila da Praia os poucos edifícios que estavam também em ruína. Nem os próprios governadores tinham a casa própria para morar. Em 1841, segundo Chelmicki e Varnhagen:

“o Governo nada possue na ilha de Santiago, que o ligue a este ponto, o Governador não tem ali caza para habitar, é obrigado a alugar uma […] a tropa não tem quartel, nem os officiaes […] são obrigados igualmente a alugar cazas; as Secretarias necessárias existem em barracas indignas; não ha hospital para a tropa […]; a alfandega é uma cazinha […], não ha fortificações, nem desembarcadouro capaz;”375.

Por isso, no dizer de Pusich, não teria muito custo na transferência da capital376, porque não havendo edifícios na ilha de Santiago, era preciso fazer tudo de novo, e em vez de voltar a construir na mesma ilha, construía-se numa outra ilha mais saudável e ainda com a vantagem de possuir a mão-de-obra era mais barata377. Um outro motivo pelo qual António Pusich justificava a transferência era o facto de as terras de Santiago, assim como as do Fogo, estarem “em poucas mãos” e, por isso, pouco cultivadas378. Chelmicki e Varnhagen acrescentam a “apatia e a maldade dos habitantes” da vila da Praia que se opunham ao progresso da prosperidade da colónia379. Portanto, era a pouca produção acrescida de entraves humanos no desempenho das suas funções da capital. A insegurança também era uma das motivações do desejo de mudança, pois, segundo alguns autores, a ilha de Santiago estava tanto desprotegida dos estrangeiros como dos naturais, sujeita aos ataques ou revoltas, protagonizada pelos estrangeiros e naturais, respectivamente. Mas pergunta-se: a quem interessava a transferência? Os benefícios eram para o Estado ou para alguns privados, ou para ambos?

No dia 1 de Julho de 1803, Bispo, Governador, e Desembargador Ouvidor Geral, todos nomeados para as ilhas de Cabo Verde suplicavam, em nome da “causa pública”, que fosse transferida a capital para a ilha de S. Nicolau, justificando que todas ilhas eram “decidida, e notoriam.te pouco sadias, ainda he m.to menos a Ilha de S. Thiago, que serve de Capital; por isso que todas as pessoas, que vaõ de fóra, Logo mortalm.te adoessem, e ainda que alguma por fortuna

374Cf. Idem, “Memória ou descripção físico-politica […]”, op. cit., pp. 624-625. 375 J. C. C. de Chelmicki e F. A. de Varnhagen, op. cit., Tomo I, p. 27.

376 Para uma abordagem mais profunda e sitemática da transferência da Capital para a Vila da Praia, veja-se António

Leão Correia e Silva, “Praia: a lenta emergência de uma capital”, Cultura/Kultura: Revista de Investigação Cultural e

de Pensamento, nº 2 (Julho 1998), dir. Ondina Ferreira, Praia, Ministério da Cultura, 1998, pp. 188-201. Para as outras ilhas, nomedamente S. Vicente, João Estêvão, “Peuplement et Phénomènes […]” op. cit., pp. 49 e ss.

377 Cf. António Pusich, “Memória de algumas providências […]”, op. cit., p. 137. 378 Idem, “Memória ou descripção físico-politica […]”, op. cit., p. 625.

379 Cf. J. C. C. de Chelmicki e F. A. de Varnhagen, op. cit., Tomo I, p. 27. Para um período anterior, cfr Maria João

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escape, sempre fica infesada, e incapaz de prosseguir no exercicio do seu respectivo menisterio”380. Porém, a Secretaria, no ofício de 20 de Outubro de 1803, respondeu negativamente o pedido, negando tanto a transferência do governo, como a da Sé de Cabo Verde para a ilha de S. Nicolau, permitindo somente a residência do Bispo na dita ilha381. Neste período, todas (quase) as autoridades administrativas do arquipélago estavam decididamente a favor da transferência, para uma única ilha.

Aos olhos dos autores como Pusich, Aniceto António Ferreira, Chelmicki e Varnhagen e Lopes de Lima, a transferência da capital para uma das outras ilhas era mais do que necessária, pois, sem a tal as ilhas nunca chegariam ao seu auge. Porque mesmo que o desejo dos funcionários enviados para as ilhas era o “de promover os interesses do Estado, e dos povos” que lhes eram confiados ao estabelecerem-se em Santiago o resultado seria pelo contrário. Isto só se alterava se a capital fosse “estabelecida em uma das Ilhas sadias e de benigno” clima, o que eram todas à excepção de Santiago e Maio382, “aonde todos os europeus gozam sempre tão boa saúde como os indígenas”383. Os ouvidores deixariam de ser ambulantes, os governadores e ministros e outros funcionários juntariam as suas forças numa só ilha em prol do arquipélago e das suas dependências. Com a mudança até poderia melhorar a imagem que se tinha das ilhas de Cabo Verde em geral384.

Segundo estas representações, à partida, vê-se que a capital poderia ser transferida para qualquer ilha do arquipélago, isto é, que saísse da ilha de Santiago, em alguns casos excepto para Maio, que era vista como de clima doentio igual ao daquela. Mas quais eram as ilhas alternativas para estes autores?

Desde 1803 os interesses de António Pusich já estavam voltados para a ilha de S. Nicolau, onde residiu durante o período em que foi Intendente da Marinha (1801-1811), e onde os bispos da diocese acertadamente já mantinham a residência. Consideravam que além de mais saudável do que ilha de Santiago, aquela localizava-se no centro das outras ilhas e facilitava a comunicação com as mesmas do mesmo arquipélago385. Ainda em 1810, na “Memória ou descripção físico-politica” e repetida em 1818, na “Memória de algumas providências”, Pusich dizia que “enquanto o Cabido existir na ilha da S. Thiago (de cujo clima mortífero todos fogem) (sic) e não for estabelecido em São Nicolau aonde residem os Bispos, […] nunca o número dos Capitulares será completo nem por

380 Vide AHU, Cabo Verde, cx 54, doc 51, 1 de Julho de 1803. 381 Vide AHU, Cabo Verde, cx 54, doc 55, 20 de Outubro de 1803.

382 Vide Aniceto António Ferreira, “Memória dos artigos e produções […]”, op. cit., p. 61. 383 Cf. António Pusich, “Memória de algumas providências […]”, op. cit., pp. 136-137. 384 Idem, ibidem.

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metade”, e como consequência, esta corporação nunca seria muito útil para a Real Fazenda386. Dizia o Anónimo, em 1784, que na ilha de S. Nicolau não se padecia de doenças da terra387.

Se numa primeira fase António Pusich tinha interesse em transferir a capital para a ilha de São Nicolau, a Aniceto António Ferreira, em 1813, “a Ilha que se deveria designar para capital era a do Fogo, porque além de ser uma das mais abundante é fortificada, e pondo-lhe mais alguma artilharia desta de S. Tiago ficaria muito mais defensável do que ela pela situação local […]”, além disso, esta facilitava a comunicação com as outras ilhas do arquipélago388. Recorda-se que nesta altura, Aniceto António Ferreira era capitão-mor da ilha de Boavista havia 16 anos e 35 residente no arquipélago. Segundo este capitão-mor, estabelecida a capital na ilha do Fogo, conheceria a sua grande utilidade que teria para o bem do Estado, das ilhas e dos habitantes de todas as ilhas, porque em razão do benigno clima não ficavam os europeus sujeitos à doença do país, como na ilha de Santiago e Maio e, por isso, se podia “conjecturar o quanto não operaria um governo de génio, e de sentimento patriótico”. Aniceto António Ferreira elegeu a vila da ilha de Fogo como a melhor para a qual deveria ser transferida a capital, transferência sem a qual, “pouco podem influir as autoridades superiores para o melhoramento” 389 do arquipélago de Cabo Verde.

A partir de 1820, a ilha de São Vicente apareceu como preferência para formar uma nova capital, desta feita, criada de raiz com todos os meios necessários. A ideia foi lançada por Pusich, apesar de continuar a sugerir a ilha de S. Nicolau como uma alternativa, e pela primeira vez também a do Fogo, mas deu principal destaque à ilha de São Vicente. O projecto São Vicente como a nova capital das ilhas de Cabo Verde e territórios adjacentes foi retomado e fortemente defendido pelo governador Joaquim Pereira Marinho nos anos do seu governo (1835-1836 e 1837-1839) e por Chelmicki e Varnhagen, na Corografia Cabo-Verdiana, de 1841. Por esta altura S. Vicente era ainda pouco povoada mas, segundo Pusich, precisava “reflectir” entre outras coisas, sobre as vantagens do seu “vasto e seguro porto” que possuía390 – um “magnífico Porto-Grande” segundo Chelmicki e Varnhagen391. Contudo, o porto era o único meio que atraía estes autores para a ilha, pois não possuía nem homens, nem edifícios que os motivava para o tal projecto. Estava (quase) tudo por fazer.

386 Cfr Idem, “Memória ou descripção físico-politica […]”, op. cit., pp. 622 e 23; Idem, “Memória de algumas

providências…”, p. 134.

387 Vide Notícia corográfica e cronológica do bispado de Cabo Verde […], op. cit., p. 36. 388 Cf. Aniceto António Ferreira, “Memória dos artigos e produções […]”, op. cit., pp. 61-62. 389 Idem, ibidem, p. 62.

390 Vide António Pusich, “Esboço sobre a forma de Governo Administrativo das ilhas [...]”, op. cit., pp. 139 e 141. 391 Cf. J. C. C. de Chelmicki e F. A. de Varnhagen, op. cit., Tomo I, p. 23.

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A 5 de Novembro de 1835, numa representação ao então Ministro do Ultramar, António José Maria Campêlo, o governador Joaquim Pereira Marinho, diz que “a ilha de São Vicente pela sua configuraçaõ pelos seus dois grandes portos, e outros dezesmbarques que tem he huma das melhores Ilhas […] he a maior aonde se pode fazer hum centro de Cevilizaçaõ, para dali se espalhar para as outras Ilhas, aonde se devem apensar todos os estabelecimentos de industruir, de commercio, e de navegaçaõ. Todos os estabelecimentos que se devem formar em S. Theago, seraõ logo na sua Origem destruidos pella morte”392. A ideia da transferência da capital para S. Vicente foi lançada por Pusich, mas foi o governador Pereira Marinho quem lhe deu maior desenvolvimento, continuado pelo Governador-geral João Fontes Pereira de Melo. Segundo o decreto de 11 de Julho de 1838, o projecto visava acelerar o povoamento da ilha de S. Vicente, fundando assim a povoação de Mindelo e implementar toda a máquina administrativa necessária para servir de capital393. A fundação da Povoação de Mindelo era criada, à partida, como uma cidade, para ser uma verdadeira substituta da Praia, desde a administração até mesmo do ponto de vista civilizacional. A sua situação geográfica mais a norte era alteada por Chelmicki e Varnhagen, alegando que “poderia acudir sempre a qualquer outra ilha, com maior celeridade”394. A ilha de Santiago foi até chamada de “ex-capital” por Chelmicki e Varnhagen395, mas pelo que se pode apurar, oficialmente, a capital administrativa de Cabo Verde nunca chegou a sair da ilha de Santiago.

Por volta de 1806 o ex-Feitor dizia que das 11 ilhas do arquipélago de Cabo Verde valia a pena o Estado não abandonar a ilha de Santiago porque “se fosse uma outra nação seria uma descoberta América”. O autor não achava nenhuma diferença, excepto nos anos das suas carneiradas, entre as produções desta ilha e do Brasil onde estivera e em nada esta tinha melhor a não ser o clima396.

A mudança da capital para a ilha de S. Vicente gerou várias polémicas, traduzidas em

Memórias, Notas, Apologias397. Inclusive o projecto apresentado por Pusich, trabalhado pelo Governador Pereira Marinho e seguido de perto por Chelmicki foi rejeitado e criticado por Lopes de

392 Vide AHU_ SEMU, Cabo Verde, Papéis Avulsos, cx.53, doc Nº 6 5 de Novembro de 1835

393 Cf. J. J. Lopes de Lima, Ensaio sobre a Statistica das ilhas de Cabo Verde […], op. cit., parte I, p. 4. 394 Vide J. C. C. de Chelmicki e F. A. de Varnhagen, op. cit., Tomo II, p. 137.

395 Idem, ibidem, p. 131.

396 Cfr. José António Pinto, op. cit., p. 198.

397 Por exemplo os confrontos entre António e João Pusich vs Manuel António Martins. Cfr Manuel António Martins,

Memória demonstrativa sobre a necessidade de novas providencias para a provincia de Cabo-Verde, Lisboa, Typ. Patriotica, 1822 e António/João António Pusich, Notas criticas sobre os mais importantes artigos da lei de 20 de Julho

de 1822 condemnados pelo senhor Manoel Antonio Martins, em huma memoria, que apresentou ao Soberano Congresso, Lisboa, Imp. da Viúva Neves e Filhos, 1822.

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Lima em 1844. A ilha carecia de um dos principais bens para a sobrevivência humana – a água potável para beber – falta que provocou o principal entrave das várias tentativas do povoamento da