CHAPTER 3: RESULTS
3.3 RESULTS FOR SiH CONTACT LENS WEARERS
Outros artistas que entrevistamos, como o DuVa, o 1mpar, o Alexandre Rangel e o Tomaz Klotzel, são ou foram VJs e, conforme já dissemos inicialmente, manifestaram insatis- fação com alguma faceta dessa atividade. Gostaríamos de nos deter mais detalhadamente so- bre seus discursos na medida em que podem nos relatar impressões sobre o que estavam pro- curando e as expectativas que tinham para os trabalhos que realizariam foram da pista. Mas antes de recorrer a eles vamos fazer uma apresentação preliminar de algumas questões que gostaríamos de esclarecer.
Essa insatisfação a que nos referimos não diz respeito a gostar ou não gostar de ser VJ. O artista pode gostar da prática do Vjing e simultaneamente realizar projetos de natureza diversa. Essa postura é relativamente comum e o fato da pessoa não migrar totalmente para o campo da arte pode ser entendida pelo prazer que a atividade proporciona e pelas exigências do mercado profissional que demandam a multifuncionalidade. Nesse sentido o próprio uni- verso do Vjing obriga os artistas a procurarem fontes de rendas extras: o cachê de um VJ é de quatro a dez vezes menor do que o de um DJ55. Alguns deles, com espírito de empreendedo-
55 Talvez com a disseminação do A/V (audiovisualizers), em que o VJ passa a produzir também música para a
rismo, criam empresas que oferecem variados serviços audiovisuais incluindo megainstala- ções e aluguel de equipamentos, como a Visual Farm, que realizou uma infinidade de projetos em 2010 e terminou o ano vendendo serviços para municipalidades:
Este ano a Visualfarm está apresentando espetáculos natalinos em nada menos que 15 cidades. Mais uma vez estamos participando em São Paulo do projeto Natal Ilu- minado. A novidade é que o projeto, que antes era realizado somente na capital, per- corre também o interior de São Paulo e está acontecendo em outras 14 cidades e conta com a participação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis e do Coral da Gente, formados só por crianças. Outro espetáculo natalino que estamos apresentando ocor- re em Recife, no bairro do Recife antigo, na região central da cidade. É um espetácu-
lo em cortina d‘água e tem inspiração na estética muito própria dos cordéis de Per-
nambuco56. (VISUALFARM, 2010)
Uma atuação com essa escala de abrangência é excepcional. Mas a proposta em si, de vender serviços de arte e tecnologia, dissemina-se cada vez mais. Em uma rápida busca da
expressão ―servicos de VJ‖57 no dispositivo Google, percebemos o quanto a atividade se ex- pandiu no ramo do entretenimento popular. Pela ordem de aparição, na primeira página de respostas do mecanismo de busca encontramos: Nadia Festas em Moriaé (MG); Moriá Even- tos e Produções com sede em Cachoerinha (RS) e filiais em outras 4 cidades do país; um ser- viços de informações dava acesso a um labirinto de páginas que terminava em Diana Féo –
Locação (SP); Eventu‘s Realizações; Toca do Morcego (um clube noturno em Morro de São
Paulo) e uma empresa em Limeira (SP) com os serviços oferecidos no site de anúncios gratui- tos Quebarato!58, do qual transcrevemos o seguinte texto disposto abaixo de uma fotografia de projetores e refletores.
Machado Eventos, locação de data show, telão, som, notebook, computadores, fil- magem, informática, compra e venda de novos e usados, serviços de VJ, manuten- ção de projetores, datashow, micro, impressora, monitor, cópia de vídeo para DVD, compra e venda de usados, atendemos Limeira e região. (LOCAÇOES [...], 2008)
Em todas as situações empresariais acima, com muita clareza, fica demonstrada a su- balternidade que a função do VJ tem nos empreendimentos. O equipamento não é um acessó- rio que apoia a pessoa: é exatamente o contrário, a mercadoria ―serviços de VJ‖ acompanha o aluguel de tecnologia e ambientes. Poderíamos pensar que mesmo assim a oferta está gerando espaço em nichos menos exigentes para profissionais da imagem e da música. Devemos ob- servar que a disponibilização de pacotes de imagens prontas para serem ―tocadas‖ pelo VJ já
56 Cf. THE FARM. Disponível em: <http://www.visualfarm.com.br/blog/?p=334>. Acesso em: 10/05/2011 57
Cf. VJ SERVICES. Disponível em: <http://tinyurl.com/6wt4ww7>. Acesso em: 28/10/2011
58 Cf. QUEBARATO! Disponível em: <http://www.quebarato.com.br/locacoes-de-datashow-e-
está consolidada na Internet. Basta procurar por VJ footage em algum mecanismo de busca e usar o cartão de crédito. Qualquer pessoa que se dedique algumas semanas a softwares especí- ficos para Vjing e compre uma dessas coleções de vídeos estará pronta para animar uma casa noturna. Segundo o VJ Marcelo Lopes, no entanto, quem adota tal prática não é bem visto no seu meio. ―Se eu quisesse só trabalhar com aquilo e fazer uma performance maneiríssima só com aquilo eu poderia só trabalhar com coisas prontas, mas não só os VJs já reconhecem isso, mas a própria personalidade envergonha a pessoa. Ele é um mau VJ”.( LOPES M., 2010).
Evidentemente, isso provoca uma necessidade de diferenciação por parte dos profis- sionais dedicados e criativos. Marcelo, por exemplo, se orgulha de ter um trabalho de coleta
de personagens de desenhos animados, desde ―Tele Tubbies a South Park” (LOPES M. , 2010), e realizar um trabalho de mixagem com cuidados pictóricos e musicais que os fazem dançar no mesmo ritmo ditado pelo DJ, a ponto de quem está na pista começa a imitar uma ou outra coreografia projetada: ―Isso não é arte?‖, complementa ele59. Orgulha-se também pelo fato de as pessoas já reconhecerem aquela performance como uma coisa dele, donde se des- prende como demandas desse artista para si mesmo a necessidade de desempenhar seu papel de VJ com competência artística e obter em consequência o reconhecimento da autoria.
Segundo Alexandre Rangel, para os VJs o dinheiro chega a ser secundário dado que não se paga bem, mas se paga alguma coisa e isso para Marcelo Lopes é fundamental: ele privilegia a profissionalização e o exercício de atividades remuneradas. A narrativa do Coleti- vo Moleculagem sobre sua própria trajetória como VJs e mais tarde tomando novos rumos é extremamente rica e interessante. Na página Sobre Nós60, do seu site, podemos ler a descrição de uma das etapas da vida do grupo:
59 Nicholas Borriaud (2009) não só concordaria como diria que o trabalho do VJ é também um tipo de curadoria. 60 Cf. MOLECULAGEM. Disponível em: <http://www.moleculagem.com>. Acesso em: 12/09/2011
A Moleculagem se reuniu pela primeira vez em 2005, como um coletivo de videoar- tistas que tinham em comum a formação profissional em pós-produção de cinema e publicidade, e também produção musical. Seu objetivo: desenvolver o trabalho de VJs, mas com um importante diferencial em relação ao que normalmente se associa a essa atividade: todas as imagens presentes em seus sets seriam criações originais e exclusivas – ao invés de simples reaproveitamento de imagens produzidas por ou- tros, como é prática comum neste meio. (MOLECULAGEM, 2010)
O texto contrapõe frontalmente um set (outra vez a presença do equipamento como elemento de uma mercadoria oferecida na forma de serviços) com imagens com duas caracte- rísticas que permitiriam, reutilizando suas palavras, destacar o trabalho do grupo do resto da produção local: originalidade e exclusividade. Mesmo entendendo que a valoração econômica e a cultural são dinâmicas relativamente autônomas61, percebe-se que originalidade é um con- ceito abrangente e complexo que dialoga simultaneamente com as esferas da arte e do merca- do. Da forma exposta, refere-se à singularidade, à marca autoral, à novidade, características que esteticamente são empunhadas como marcas de distinção. Bourdieu ensina o funciona- mento do recurso dentro de um campo cultural específico:
Vale dizer, quanto mais o campo estiver em condições de funcionar como o campo de uma competição por legitimidade cultural, tanto mais a produção pode e deve orientar-se para a busca das 'distinções culturalmente pertinentes' em um determina- do estágio de um dado campo, isto é, busca dos temas, técnicas e estilos que são do- tados de 'valor' na economia específica do campo por serem capazes de fazer existir culturalmente os grupos que produzem, vale dizer, de conferir-lhes um 'valor' pro- priamente cultural atribuindo-lhes marcas de distinção (uma especialidade, uma ma- neira, um estilo) reconhecidas pelo campo como culturalmente pertinentes e, portan- to, suscetíveis de serem percebidas e reconhecidas enquanto tais, em função das ta- xinomias culturais disponíveis em um determinado estágio de um determinado cam- po. (BOURDIEU, 2009, p. 109)
Por outro lado, ―exclusividade‖ vai numa lógica contrária à prevalecente na ―época da reprodução técnica‖ e parece se comunicar com a ideia de propriedade autoral e a conse-
quente vantagem que isso pode vir a dar na competição por atenção e público. Neste caso, além de ser um posicionamento estético é um posicionamento mercadológico. Além do reco- nhecimento dos pares, da autossatisfação, do diálogo com espectadores, impõe-se a competi- ção no mercado dos VJs. No caso do Moleculagem, o coletivo afirma-se dando destaque à rejeição de um dos procedimentos da arte na atualidade que é o trabalho a partir de apropria- ções, que tem como antecedente a criação apoiada em ready-mades de Duchamp. A prática do grupo parece contradizer o discurso de Nicholas Borriaud, o curador entusiasta pela prática do DJing:
61―Estes [os bens simbólicos] constituem realidades com dupla face – mercadoria e significações –, cujo valor
propriamente cultural e cujo valor mercantil subsistem relativamente independentes, mesmo nos casos em que a sanção econômica reafirma a consagração cultural‖ (BOURDIEU, 2009, p. 102).
Assim, as noções de originalidade (estar na origem de...) e mesmo de criação (fazer a partir do nada) esfumam-se nessa nova paisagem cultural, marcada pelas figuras gêmeas do DJ e do programador, cujas tarefas consistem em selecionar objetos cul- turais e inseri-los em contextos definidos. (BORRIAUD, 2009, p. 8)
Mas observamos no discurso dos VJs movimentos em sentido contrário, de reafirma- ção do valor da originalidade e exclusividade. Tal qual em outros campos da arte a impressão no meio é que o reconhecimento dessas características e da qualidade do trabalho vai fazer os artistas serem convidados para trabalhos importantes e dessa forma emergir a consagração e valorização dos seus serviços.