O Cântico dos Cânticos, um dos ápices da poesia amorosa na produção do antigo Médio-Oriente (Sandoz, 1998, p. 159), é o texto que mais se traduziu e interpretou ao longo da história. Trata-se de um poema, um dos mais curtos livros da Bíblia, que “celebra um casal, o amado e a amada, que se juntam e se perdem, buscam-se e se re-encontram” (id.).
À parte o fato de compor o cânone bíblico—e a Bíblia é sabidamente o livro mais traduzido ao longo dos tempos—, o Cântico dos Cânticos “mais do que qualquer outro [livro] da Bíblia, tentou poetas, tradutores e comentadores de toda índole, desafiados, e não ofende dizer, pelo escândalo de sua presença entre os livros sagrados.” (Cavalcanti, 2005, p. 13, n. 1).
Elliott (1998, p. 893) nota nesse sentido que “nenhum dos grandes temas bíblicos é mencionado no Cântico: nada de eleição, aliança, profecia, salvação e a Lei”. Ao contrário, outro tipo de motivos, os amorosos,
repetem-se em variações inúmeras: presença e ausência, busca e encontro, desejo e mútua possessão, a voz de quem se ama, o sono e o despertar, o comer e beber, e o caráter único do ente amado. Esses motivos são desenvolvidos através de imagens vibrantes que apelam para os cinco sentidos: visão (Ct 4, 1), audição (Ct 2, 8), paladar (Ct 4, 11), olfato (id.) e tato (Ct 1, 2). (id., 894).
Assim, a busca da solução para essa contradição do “profano no sagrado” é uma constante no enfoque de todos os estudiosos do Cântico dos Cânticos. Embora no Cântico “não se encontre nada, na menor medida que seja, de pornográfico ou
10 Veja-se, por exemplo, os casos de “blood, sweat and tears” e “E=mc2”. Alguns discursos “sagrados”
se tornam signos—ou bandas de rock. Note-se, aliás, no que respeita a informação histórica versus narrativa de uma vivência, que as exatas palavras de Churchill no “Blood, Sweat and Tears Speech” de 13/05/1940 são “I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat” (Churchill, 2003, p. 206). Vide Cap. 1, n.11, p. 37 acima e Cap. 5, n. 4, p. 124 adiante.
obsceno, [pois] nele tudo é delicadeza e suavidade [...], é forçoso que se busque a explicação de como um poema de amor tão franco e desinibido veio a ser incluído entre os livros sagrados da Bíblia.” (Schonfield 1959, pp. vii, 11). Ou, de forma mais especificamente voltada para aspectos de doutrina, como é possível “se admitir que um tal conjunto, onde o nome de Deus é citado apenas uma vez11 (Ct 8, 6) e onde
é tão exaltada a atração recíproca entre homem e mulher, seja uma palavra divina dirigida ao homem?” (Sandoz, 1998, pp. 159-160).
Seja doutrinária ou histórica a preocupação na busca de uma explicação para a canonicidade do Cântico, ela se agudiza se tomarmos em conta a observação de Cavalcanti ao fim de uma extensa consideração de várias traduções e das interpretações mais recentes que levam em conta os progressos da ciência histórica, da arqueologia e da filologia das línguas semíticas: o Cântico dos Cânticos é um poema erótico, escrito sem qualquer intenção alegórica ou ética (Cavalcanti, 2005, p. 222. Vide a mesma conclusão em Sandoz, 1998, p. 161).
A alegoria parece ter sido ao longo dos tempos a mais freqüente interpretação na busca de uma solução para o paradoxo que se via na canonicidade do Cântico12.
Canonicidade, note-se, não contestada tanto pela tradição judaica—tal como se constituiu nas origens do rabinato após a destruição do Segundo Templo (a partir de 70 d. C.)—, quanto pela tradição cristã desde Hipólito (séc. 3) e Orígenes (185?-254?). A interpretação de Orígenes é
rigorosamente alegórica, [se]m afastar-se da interpretação eclesiológica de Hipólito. [...] Hipólito havia, por assim dizer, cristianizado a interpretação alegórica rabínica que via no Cântico a alegoria nupcial das bodas de Deus com o povo eleito. Na interpretação de Hipólito, trata o Cântico das núpcias de Cristo com a Igreja. Para Orígenes, a relação nupcial é individual de Deus com cada alma. (Cavalcanti, 2005, p. 51).
11 A rigor, explicitamente, não é citado nenhuma vez. Embora para Elliott (1998, p. 893) em Ct 8,6
haja uma citação explícita do nome de Deus, do que vai mais adiante em seu texto (p. 906) vê-se que o que há é, na melhor das hipóteses, uma “referência quase explícita”. E mesmo o similar ponto de vista de Sandoz (que é o de Rosenzweig) de que há uma clara referência a Deus no “amor que é forte como a morte” de Ct. 8, 6, não é compartilhado por muitos comentadores modernos citados por Cavalcanti. Na tradução de Schonfield, inclusive, o “amor” é substituído nesse versículo—de forma inusitada—por “paixão” (na qual, ao que tudo indica, Schonfield não vê uma referência a Deus). Por outro lado, Elliott—para quem Ct 8, 6 é uma “summa” do Cântico (Elliot, 1998, p. 905)—informa que o refrão “pelas gazelas e corças do campo” (em 2,7; 3, 5 e 8, 4) é, em hebraico, uma circunlocução para dois nomes divinos: “YHWH Sabaoth” e “El Shadai”. Em todo caso, nada ou quase nada há de Deus, e muito de desinibição.
12 Outras interpretações que, cada uma a seu modo, contribuem para a compreensão do Cântico e
para o entendimento de seu background e/ou de suas origens no folklore do antigo Oriente Médio, são, dentre outras, as “teorias”: dramática (pouco aceita hoje em dia, pois não havia no antigo Israel uma tradição dramática como ocorria na Grécia), do “poema nupcial”, do “poema de amor”, do “culto de fertilidade” (que permite reconhecer contribuições de ritos de fertilidade sírios, palestinos e os de Ishtar, ritos esses que podem remontar ao séc. 8 a. C., ou, mais provavelmente, ao séc. 4 a. C.). Vide Schonfield, 1959, pp. 31, 33, 40, 50-53. A “realidade” do que é o Cântico, escapa, é claro, a explicações tão “racionais” e estruturadas.
Note-se, de resto que essas são interpretações que se servem da aproximação que Paulo já fizera em Efésios (id., p. 28, ss.), entre o amor de Cristo por sua Igreja e o amor do marido por sua esposa.
O quanto esse esforço alegórico-conciliatório pode se afastar do que hoje é reconhecido como sendo a efetiva natureza da obra, é exemplificado pela recomendação de São Jerônimo (c.347 - 419), tradutor da Vulgata, à mãe de uma adolescente: “Nunca deixe que ela contemple a própria nudez. Ela não deve ler o Cântico dos Cânticos antes de ter lido Crônicas e Reis, caso contrário pode ser que deixe de notar o fato de que o livro [i.e. o Cântico] se refere tão somente ao amor espiritual13.” (Schonfield,
1959, p. 12).
Quanto à tradição rabínica, deve-se notar que o aspecto “canônico”, isto é o fato de o Cântico tratar-se da “palavra de Deus”, ademais de nunca ter sido contestado, já desde “pelo menos os quatro séculos anteriores [ao início da era rabínica], ou seja a partir do século III antes da era cristã, o Cântico era consuetudinariamente aceito como fazendo parte dos livros sagrados” (Cavalcanti, 2005, p.37).
É famosa a observação do Rabino Aquiva (m. 132 d. C.) de que “aquele que para seu divertimento, canta o Cântico como se canção profana fora, não terá lugar no mundo que há de vir” (Schonfield, 1959, p. 16; Elliott, 1998, p. 897), e especialmente a de que “todas a épocas não valem o dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel, porque se todos os livros do Ketuvim14 são sagrados, o Cântico dos Cânticos é o
Sagrado dos Sagrados”. (Cavalcanti, 2005, p. 39; Schonfield, 1959, p. 16; Elliott, 1998, p. 893 )15. Como veremos mais adiante, Rosenzweig virá igualmente, em A Estrela da
Redenção, a defender uma extrema valoração do Cântico dos Cânticos.
O importante a ser notado aqui é o quanto essa milenar busca conciliatória, do “sagrado” com algo que se encara claramente como não-sagrado ou profano, se
13 Seja como for a evidência se impôs ao longo dos séculos: “João Paulo II refere-se ao Cântico como um
poema que trata da ‘linguagem do corpo’ [algo que é significativo para o que aqui nos interessa]. Toda uma ‘teologia do corpo’ vem sendo elaborada por pensadores católicos contemporâneos.” (Cavalcanti, 2005, p. 234).
14 Ketuvim, ou “Livros Sagrados” é uma das três partes da Bíblia hebraica, parte que inclui além do
Cântico, e dentre outros livros, os Salmos, Jó, Provébios, Eclesiastes e Crônicas. As outras duas partes são a Torah (Pentateuco) e os Neviim (Profetas).
15 A preocupação do nascente rabinato não era quanto a—para ele incontestável— sacra condição do
texto enquanto “palavra de Deus”. Tratava-se, no caso, de uma preocupação quanto à condição de pureza daquele que manipulasse o texto, algo que é bem típico do legalismo que o rabinato herdara de suas origens farisaicas. Embora não contivesse o Tetragrama (a palavra YHWH), mesmo assim decidiu- se—após uma discussão que durou séculos—que o Cântico (bem como o Eclesiástico que também não contem o Tetragrama) exigiria uma posterior ablução das mãos daquele que o manipulasse. Ou seja, assim como a Torah e os demais textos que contêm o Tetragrama, o Cântico “tornava as mãos impuras”, i.e., era, nesse sentido, sagrado. (Cavalcanti, 2005, p. 38; Schonfield, 1959, p. 16). É de se notar já aqui, portanto, uma certa polissemia no conceito de “sagrado” (no caso, ser “palavra de Deus” e/ou “requerer ablução das mãos”) que nem sempre é devidamente levada em conta.
encaixa no espírito do rational turn. Há que encontrar a “lógica”, a “causa”, de o Cântico ter sido—e ainda hoje ser—considerado um texto sagrado.
A solução de Sandoz (1998) é nesse sentido de especial interesse por se tratar de um texto atual, que incorpora todos os desenvolvimentos mais recentes das diversas áreas de investigação cabíveis. A questão, tal como Sandoz a coloca, é justamente a de entender como e por que o Cântico veio a incorporar o cânon. Ademais, tem importância o fato de que a resposta de Sandoz considera a dicotomia “transcendência
versus imanência”, que está presente, ainda que nem sempre de forma tão explícita, em todas as análises “racionais” (ou “tradicionais”) da questão do sagrado.
Mais ainda, será possível discernir na discussão de Sandoz o aspecto do “sagrado como algo que é dito no tempo certo” que propusemos na seção anterior. Examinemos então a argumentação—bastante válida, diga-se de passagem—de Sandoz (1998, p. 162):
1) Ao longo de sua existência pré-literária16—a redação definitiva é de meados
do séc. 3 a.C.17—, o Cântico estaria ligado a grandes momentos da instituição
doméstica, ou seja, do matrimônio, cuja importância e força se prendiam nessa época não aos ritos religiosos, mas ao valor acordado à própria instituição em si.
2) O matrimônio era tomado como algo pertencente à ordem da Criação, como uma realidade boa, querida por Deus (na linha de Gen 2: “E Deus viu que [o que havia sido criado] era bom”).
3) Não havia, conseqüentemente, motivo para fazer-se intervir nessa seara o Deus transcendente da fé judaica, no momento mesmo em que um esforço, único em todo o antigo Médio-Oriente, era feito para que se evitasse que qualquer conteúdo mítico pudesse ser ligado a essa instituição (i.e., ao matrimônio judaico). Dessa forma se escapava da divinização hierogâmica dos cultos de fertilidade das populações circunvizinhas.
4) Onde hoje se lê meramente o mútuo elogio entre os amantes e a busca recíproca de um pelo outro, a instituição via, através do elogio e da busca, a troca de amor (terreno e inter-humano) e de fidelidade (terrena e inter-humana) sobre os quais se fundamentava a própria instituição (terrena e inter-humana) do matrimônio judaico de então.
5) Pode-se inclusive reconhecer influências dessa instituição matrimonial e do
folklore que a acompanhava em textos cuja canonicidade é anterior à do Cântico. Influências que, de resto, seria de se esperar que ocorressem, e que explicam as
16 “Existência pré-literária” refere-se ao período em que o material do Cântico, bem como o material
que foi mais tarde recolhido nos Salmos, era ao que tudo indica entoado fora do ritual do Templo (Sandoz, 1998, p. 161).
17 Conforme Sandoz, 1998, p. 162 e Elliott, 1998, p. 895. Para Schonfield, o Cântico foi composto
aproximações entre o Cântico e, p. ex., alguns textos proféticos e a alegoria de Oséas. Esse tipo de influências indiretas constituem uma explicação muito mais aceitável do que a busca de influências literárias diretas entre o Cântico e esses vários textos, que, se existirem, são muito mais difíceis de se estabelecer. 6) Não seria de se estranhar que, como ocorrido com as tradições sapienciais18, essas
tradições do folklore matrimonial passassem a ser recolhidas—i.e, registradas por escrito—a partir do momento em que se começou a sentir que corriam o risco de serem perdidas, dadas as modificações na instituição do matrimônio. Nesse sentido, Elliott nota que a época em que o Cântico tomou sua forma final
foi um período de restauração, de grandes esperanças e amargas realidades. O divórcio, largamente difundido, ameaçava o matrimônio (Mal 2, 13-16), e assim sendo tratava-se de um período em que o Cântico dos Cânticos era necessário como uma lembrança de “como as coisas eram no princípio”. (Elliott, 1998, p. 895).
7) No momento em que o uso habitual—matrimonial e “não-sagrado”—do material recolhido no Cântico se perde definitivamente e o texto tradicional precisa ser revestido de um novo sentido, as influências que a antiga instituição matrimonial deixara em outros textos religiosos (item 5 acima) retornam (ou ricocheteiam), para favorecer que se dê ao Cântico o valor de leitura religiosa.
Dois pontos a serem especialmente notados na argumentação acima, à luz de nossa discussão anterior sobre o “sagrado”:
a) o Cântico torna-se “sagrado”—no sentido “não-sacralizado” que demos ao termo na seção anterior, o de constituir-se numa “enunciação que é proferida no tempo certo”—no momento de sua composição por um autor (ou autora) de gênio, que recolhe o (e/ou se inspira no) folklore (Schonfield, 1958, p. 75; Cavalcanti, 2005, p. 25; Elliott, 1998, p. 895). É a partir desse dia, que para o Rabino Akiva “vale mais do que todas as épocas”, que um texto sagrado é dado a Israel. Texto sagrado na medida em que é recebido como algo que é “dito no tempo certo” por quem o lerá ao longo dos próximos três séculos (e, de certo modo, até hoje), sem qualquer preocupação quanto ao texto constituir ou não uma “palavra de Deus ao homem”.
b) É interessante a dicotomia que aparece no ítem 3 acima, da “transcendência divina
versus a imanência do mundo”. Imanência que é, no caso, a de uma instituição
humana e mundana como o matrimônio, que não quer—em dada altura—se ver invadida por essa transcendência. E não o quer por motivos absolutamente mundanos: evitar a influência cultural (e sócio-política) de povos circunvizinhos, que
18 O Eclesiastes, inclusive, parece ter sido composto em data posterior à composição do Cântico
é vista como nefasta. Mas com isso, note-se, o Deus transcendente se vê também protegido dos deuses míticos alheios. A dicotomia imanência/transcendência—que para tantos é o fulcro do “paradoxo” do Cântico—começa a se dissolver, mesmo neste estágio “rational turn” da presente discussão.
Estágio que, aliás, já se estendeu o suficiente. So let us now turn, or return,
to the linguistic.