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Properties of asphalt pavements in relation to blistering

Na seção anterior buscamos compreender melhor essa visão de mundo em que a palavra e a fala (speech) antecedem o pensamento, e têm precedência sobre ele, ao contrário da visão corrente em que a linguagem é mero instrumento para a expressão de um pensamento—que é tanto mais válido quanto mais racionalmente elaborado—e que, pensamento, a antecede, linguagem.

Como vimos, essas “palavras que eram capazes de produzir eventos” no dizer de Foucault (1997), traziam muitas vezes consigo um sentido de “sagrado”, como no caso do davar do Deus de Israel. O que se tem nessas situações é o evento da

enunciação que, mais do que a “palavra” em si, adquire uma dimensão—“sagrada”, no

caso do davar—que produz eventos significantes: desde uma “simples” comemoração

4 Por exemplo, com Wharburton, Vico, Hamann e Herder (Milbank, 1997a). Vide, Cap. 1, sec. 1, p.

21.

5 E nesse início do séc. XX o que há além de Bakhtin, e se ficarmos apenas da tradição alemã, é quase

que um “círculo de Rosenzweig”, que inclui Rosenstock-Huessy, Martin Buber e Ferdinand Ebner. Vide, Cap. 1, sec 1, p. 21.

no tempo litúrgico, até o cumprimento de uma profecia intensamente aguardada no tempo da história.

“Acontecimento”, “tempo” e “enunciação” são, portanto, conceitos que estão imbricados ao conceito usual de “palavra”, de forma a compor um conceito mais complexo, o de “palavra que produz eventos”.

E mais que “tempo”, “tempo certo”. Há o tempo certo6 para que a palavra—

“sagrada” como o davar para Israel, ou mesmo a palavra “não sagrada”—seja enunciada (e/ou ouvida) de forma a que seja capaz de suscitar resposta7 e “produzir eventos”.

Essa, aliás, é uma das características do speech thinking que Rosenzweig ressalta de forma especial, num trecho de “O Novo Pensamento” em que cita Goethe (em

O Divã Leste-Oeste, citação que aqui mantemos na tradução inglesa, levemente

modificada):

[A compreensão saudável] pode esperar, segue vivendo, não padece de uma “idée fixe”, o conselho (advice) [lhe] chega quando chega o tempo [certo]. Neste segredo está toda a sabedoria da nova filosofia [i.e., do speech thinking]. Ela ensina a falar com Goethe, ‘da compreensão no tempo certo’—

‘Why is the truth so woefully

Removed? To depths of secret banned? None understands in the right time! If we But understood at the right time, how bland The truth would be, how fair to see!

How near and ready to our hand’! (Rosenzweig, 2000a, p. 123).

Esse aspecto do speech thinking—que se aplica, note-se, tanto ao diálogo divino-humano quanto ao diálogo inter-humano8—sugere uma forma para que esse

6 Note-se que o “tempo certo” é um conceito também reconhecido na Análise do Discurso de

Foucault e Pêcheux. Um exemplo, tirado da história do Brasil (Laclau, 2000, pp. 82-83), é o de Antonio Conselheiro enunciando num “tempo certo” que a “A República é o Anticristo” e com isso finalmente desencadeando uma revolta campesina que, em vão, tentara induzir durante décadas de pregações (intempestivamente enunciadas) pelo sertão afora. Veja-se Balocco, 2006, pp. 89-90, para uma interpretação desse evento a partir do princípio básico que caracteriza a formação discursiva de

Foucault, qual seja, o da “regularidade na dispersão”. Um outro exemplo, agora na história da ciência, que é clássico para a AD e também é aplicável aqui, é o da teoria da Relatividade, que só pôde ser reconhecida e tornar-se a cultuada Teoria da Relatividade porque Einstein a enunciou como tal, i.e., como uma teoria da relatividade, no “tempo certo” para a recepção de uma teoria da relatividade. (Diferentemente dos enfoques de Lorentz e Poincaré—paralelos e simultâneos ao dele, cujos resultados lhe são tão próximos, mas tão diferentes quanto a sua significação). (Paty, 1993, pp. 30-31).

7 Como visto no capítulo anterior, a “responsividade”—o ser capaz de suscitar resposta—é, tanto para

Rosenzweig como para Bakhtin, uma marca fundamental do enunciado. Naquele capítulo, a noção de responsividade e o ferramental conceitual de Bakhtin nos serviram para que se “dessacralizasse a revelação”. Aqui, como veremos mais adiante nesta seção e na próxima, o “tempo certo” nos servirá para que se “dessacralize” o “sentido do sagrado”.

8 Sobre o descompasso “diálogo divino-humano versus diálogo inter-humano” na obra de Rosenzweig,

“sentido do sagrado” possa ser trazido para uma compreensão possível em nossos dias. Tornemos a Stahmer:

Embora, ao que parece, não mais se respeite [nos dias atuais] as formas fixas tradicionais da palavra sagrada [sacred speech] que [em outros tempos] sentia- se que traziam um sentido de santidade para certos [momentos] do tempo e [lugares] do espaço, isso não significa que o homem [...] moderno não mais considere certos padrões e tons de discurso [speech patterns and tones] como sagrados e sacramentais. Quem se envolve com hermenêutica adquire uma aguda consciência de que os indivíduos, em todas as épocas, atribuem uma especial significação para determinados padrões estilísticos de discurso, específicos [de cada época]. (Stahmer, 1968, p. 7).

E mais adiante (p. 58) Stahmer usa uma frase em que Rosenzweig ressoa: “O discurso sacramental é o discurso pronunciado no tempo certo” [Sacramental speech

is speech uttered at the right time].

Richard Rorty, representante da terceira vertente do linguistic turn no séc. XX, a de tradição anglo-americana, tem um trecho—onde o “sagrado” é um interessante

non-dit— no qual, igualmente, fica ressaltada a importância de um tempo certo para

que se digam “coisas novas”, ou para que, nos termos de Rorty, “novas metáforas se tornem literais”:

Não é provável que as metáforas de Freud pudessem ter sido agarradas, utilizadas e tornadas literais em qualquer época anterior. Mas inversamente, não é provável que sem as metáforas de Freud tivéssemos sido capazes de assimilar as de Nietzsche, as de James, as de Wittgenstein ou as de Heidegger tão facilmente como o fizemos, ou que tivéssemos lido Proust com a satisfação que o fizemos. (Rorty, 1994, pp. 66-67).

Rorty a seguir alerta contra a tentação de se ver nisso o desenrolar de uma linear e teleológica “marcha do espírito do mundo em direção a uma autoconsciência mais clara”, e credita esse tipo de fenômeno ao “poder que a linguagem tem de tornar possíveis coisas novas e diferentes.” (id. p. 67).

É a partir disso tudo que propomos uma espécie de generalização que amplie o campo semântico do termo (técnico9) “sagrado”. Uma extensão que abarque além das

“formas fixas tradicionais” das fórmulas religiosas—que hoje “não mais se respeita”—, também as formas “profanas”, ou seja, a totalidade dos discursos cotidianos, a gama completa do que Bakhtin denomina “tipos de enunciados” ou “gêneros do discurso” (Bakhtin, 2003c, pp. 261-262 e Cap. 3, pp. 79-80, acima).

O “tempo certo” na enunciação é o que resgata essa sensação de sagrado de que certos (tantos!) discursos se revestem nos dias de hoje. É o que permite que

9 Aqui se discute a acepção de “sagrado” enquanto termo técnico (filosófico/teológico), já que na

linguagem cotidiana o emprego metafórico do termo é, obviamente, corriqueiro. De certa forma, o ponto da argumentação acima é demonstrar que esse emprego, na realidade, é muitas vezes não- metafórico.

se compreenda hoje em dia o que vinha ser esse “sentido do sagrado” de outros tempos.

E o que é mais importante. Com isso se estende para todo e qualquer tipo

de discurso10, sob qualquer condição temporal, a possibilidade de que venha a ser

percebido por alguém como “sagrado”, nesse sentido ampliado do termo. Fica dessa

forma dessacralizado—para uso nestes tempos—o sagrado.

Mas para que se entenda o que de fato está em jogo nessa “dessacralização do sagrado” que estamos propondo, e com isso compreender—um pouco mais—como opera o linguistic turn que estamos examinando, convém que consideremos o caso real de um movimento que, há mais de dois milênios, se deu no sentido inverso: o da sacralização de um discurso poético profano.