Pensar formas de ser e de agir com os cuidados de educar, brincar com crianças da classe menos favorecida, procurando compreender: quais são os sentidos de infância atribuídos pelas professoras–gestoras? É a proposta deste capítulo. Conjectura-se que esses sentidos poderão está atrelados a concepções advindas dos referenciais oficiais do Ministério da Educação – MEC, sobre Educação Infantil, e ressignificadas no cotidiano de trabalho. O objetivo é vislumbrar a possibilidade de estabelecer relações entre os sentidos de docência infantil, tratando-a como um cenário dentro dessas referências e das condições objetivas do trabalho no CMEI do bairro Guarapes. Busca-se compreender como essas concepções se traduziam no trabalho diário realizado junto às crianças e famílias atendidas e como interferiam na definição da cultura profissional atual. Para tanto, a argumentação feita tem, como ponto de partida, seus modos de pensar permeados por seus próprios afetos, por imagens sociais, por desejos e medos (ELIAS, 1998). Assume-se a concepção de docência infantil, a partir das inferências das interlocutoras, como o conjunto de processos de práticas históricas e socioculturais destinado às crianças e aos que circunscrevem, em cada espaço e tempo, as condições objetivas mediante as quais as crianças têm oportunidades de aprender e se desenvolver enquanto pessoas/sujeitos sociais.
Conforme comentado anteriormente, a análise procurou articular as informações registradas durante as entrevistas, nas falas das quatro gestoras. Primeiramente, tecem-se alguns comentários acerca dos documentos oficias, e, em seguida, nos trechos das falas das entrevistadas.
A Constituição de 1988 reconheceu como direito da criança pequena o acesso à educação em creches e pré-escolas. Essa lei coloca a criança no lugar de sujeito de direitos em vez de tratá-la, como ocorria nas leis anteriores a esta, como objeto de tutela. No que se refere às diretrizes para uma política de docência infantil explicitadas nos documentos do MEC,
fundamentam-se em alguns pressupostos, entre os quais se destacam: ( 1 ) a Educação infantil é a primeira etapa da Educação Básica, destina-se às crianças de zero a seis anos e é oferecida em creches e pré-escolas, e, (2), em razão das particularidades dessa etapa de desenvolvimento, a Educação Infantil deve cumprir duas funções complementares e indissociáveis: cuidar e educar, complementando os cuidados e a Educação realizados na família. (MEC/SEF/DPE/COEDI, 1994). O tema “educar e cuidar” vem gerando muita polêmica na área de Educação Infantil (KRAMER, 2005). A LDB de 1996 trouxe um fato novo ao colocar a Educação Infantil (creche e pré- escola) como a primeira etapa da educação básica, começa a ficar visível, nos documentos posteriores a ênfase na integração do cuidar e educar.
O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, criado em 1998, pelo Ministério da Educação (MEC), e os Referenciais Curriculares: Educação Infantil pela SME do Município de Natal- 2007, criado à luz do primeiro, propõe a indissociabilidade entre o educar, cuidar e brincar implica promover uma ação pedagógica respaldada em uma visão integrada acerca do desenvolvimento infantil, respeitando as peculiaridades das crianças de 0 a 6 anos idade e oportunizando situações de aprendizagem significativa e prazerosa, sem hierarquizar os profissionais ou a instituição que atuam com as crianças pequenas.
De acordo com o referencial, educar significa:
“(...) propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito e confiança, e o acesso, a educação poderá́ auxiliar o desenvolvimento das capacidades de apropriação e conhecimento das potencialidades corporais, afetivas, emocionais, estéticas, na perspectiva de contribuir para a formação de crianças felizes e saudáveis.” (RCN/I, 1998, p.23)
Já́ o cuidar é definido como:
“(...) parte integrante da educação, embora exigir conhecimentos, habilidades e instrumentos que extrapolam a dimensão pedagógica, ou seja, cuidar de uma criança em um contexto educativo demanda integração de vários campos de conhecimentos e a cooperação de profissionais de diferentes áreas.” (RCN/I, 1998, p.24)
O desenvolvimento integral depende tanto dos cuidados relacionais, que envolvem a dimensão afetiva e dos cuidados com os aspectos biológicos do corpo, como a qualidade da alimentação e dos cuidados com a saúde, quanto da forma como esses cuidados são
oferecidos e das oportunidades de acesso a conhecimentos variados. “Para cuidar é preciso antes de tudo estar comprometido com o outro, com sua singularidade, ser solidário com suas necessidades, confiando em suas capacidades. Disso depende a construção de um vínculo entre quem cuida e quem é cuidado”(RCN/I, 1998, p.24-25).
Se a Educação Infantil fundamenta-se no binômio educar/cuidar, a formação de seus profissionais deve também pautar-se nele. A conjugação dessas atividades, bem como o preparo para exercê-las, precisa, necessariamente, despir-se de uma visão hierarquizada das atividades de educar e cuidar, uma vez que ambas partilham de igual importância no cotidiano da Educação Infantil (KRAMER, 2005, p. 68).
Esses princípios ficaram evidenciados na fala da gestora
Benta , diante do fato de que a importância educativa passou a ser reconhecida por lei, ela fala: “o professor na educação infantil se sente desvalorizados ao fazer “coisas” relacionadas ao cuidar. O ato de cuidar aparece relacionado a uma tarefa menor” cuidar, depois educar aparece como mais importante”. A fala da entrevistada reproduz e se ajusta às orientações legais, mas, ao mesmo tempo, evidencia contradições, presentes na prática, da cisão entre cuidar e educar e brincar. No fundo, ela parece não acreditar na possibilidade de integração entre essas dimensões, demonstrando que não está convencida da importância e da necessidade dessa integração.
Benta, por exemplo, explica que nem sempre tem como argumentar com suas professoras, elas não têm esse entendimento de que o ato de educar está integrado ao de cuidar: “elas as vezes falam, eu não estou aqui para limpar crianças eu estou para ensinar, não para cuidar” e reforça, “então cabe a elas levar as crianças para o banheiro, colocar a criança pra escovar dentes, lavar as mãos, dentre outras tarefas do dia a dia”. Essas dimensões são vistas de forma polarizada e dicotomizada, ou seja, cuidar relaciona-se às necessidades de higiene, alimentação e cuidados com o corpo e educar refere-se ao trabalho pedagógico que deve ser realizado no CMEI, tendo como referência a boa conduta nos ensinamentos do ensino fundamental. Como pode-se observar nas falas em seguida:
Nastácia, que também é educadora e coordenadora, explica que, para assumir uma coordenação na educação infantil, tem que gostar de criança assim também como o professor. “gostar e educar essa criança, aquela que sabe brincar, que tem curiosidade e sentimentos”. Ainda explica: “porque tem muita gente que acha que criança não tem sentimentos, do mesmo jeito que o adulto chega chateado na escola a criança também chega as vezes não quer
participar... Então a gente tem que ter essa consciência de educar para uma boa aprendizagem”.
Contudo, o que pode ser percebido é que, no próprio cotidiano das gestoras, existe a preocupação em discutir a prática do educar com ênfase na indissociabilidade, conforme proposto no próprio PPP da unidade escolar, referendado no Referencial Curricular Nacional e Municipal para a Educação Infantil–RCNEI. A necessidade de se reconhecer essa articulação corresponde à importância de se considerar essa temática um componente dos estudos da formação continuada no CMEI.
Por meio das falas, foi possível perceber que a dicotomia entre as atividades do cuidar e educar é uma característica marcante na unidade escolar em que a pesquisa foi realizada e que, por sua vez, essa dicotomia contribui para que as gestoras e as professoras se tornem dois grupos distintos dentro do CMEI ao realizarem tarefas especializadas com base em saberes oriundos da formação acadêmica de um lado, e, de outro, os saberes originados da experiência de ser mãe, mulher e “ cuidadora” de crianças desde muito cedo. São esses saberes de mulheres dona de casa e mãe que têm intimidado os saberes da formação acadêmica. Tal argumento pode ser exemplificado a partir do seguinte fato: quando as professoras, por algum motivo, seja por causa de greve ou qualquer problema relacionado à saúde resolvem não comparecer para trabalhar, o CMEI, mesmo assim, recebe todas as crianças, e as educadoras/auxiliares são responsáveis por desenvolver as atividades previstas nas rotinas, garantindo o atendimento das crianças. No entanto, se, por atraso de salário ou qualquer outro motivo, as educadoras/auxiliares resolvem paralisar suas atividades, o CMEI de imediato, suspende, parcialmente ou totalmente suas atividades, pois as professoras, às vezes se recusam a realizar funções que são desenvolvidas pelas educadoras/auxiliares.