Acto Puro e Consciência
A perspectivação do ser como um objecto universal é motivada pela aparente desmesura entre a aparente grandeza do ser, visto como objec- tivo, e a aparente pequenez ou insuficiência ou incapacidade do sujeito. Mas esta desmesura é motivada pela falta de intuição da dimensão da própria consciência, na sua relação com esse suposto objecto, supos- tamente independente, dimensão esta que é a delimitação e definição mesma do próprio campo da objectividade quer em acto quer possí- vel. É o campo da consciência que acolhe a presença, na presença e como presença, do objecto possível, em acto. Sem este acolhimento, nunca haveria objecto algum em acto. Um objecto independente da consciência é algo que carece inteiramente de sentido. Ora, há uma outra maneira de ver a questão da universalidade do objecto, tomando esta apenas como o universo possível dos possíveis objectos, possíveis de adveniência à presença da consciência, ao pensamento. Neste caso, estar-se-ia tratando do pensável e, como pensável, extravasaria infini- tamente a interioridade do pensamento em acto. Isto é verdade, só que isso que ultrapassa em acto infinitamente o pensamento não é objecto algum, – este dá-se no pensamento –, mas o próprio acto em si, na sua totalidade infinita, aquilo a que Lavelle chama acto puro:
“L’acte par lequel je pense, et qui par conséquent fonde l’unité de ma conscience, est indépendant du contenu même que je lui donne et
vida, que se renova em cada um dos nossos pensamentos e em cada uma das nossas acções, através de muitas dificuldades, de obstáculos e de perigos.).
qui fait de moi un individu particulier : il faut sans doute que ce soit moi qui l’accomplisse, mais cet accomplissement qui le fait mien ne change pas sa nature et ne l’épuise pas.”156
O acto puro é o manancial de que todos os actos de ser humanos participam, o que garante a absoluta continuidade do ser:
“Je vois, je sais et j’éprouve, comme Descartes à l’égard de l’infini, que, dans la mesure même où mon attention devient plus pure et mon amour-propre plus silencieux, l’acte même qui me fonde, en m’obligeant à fonder moi-même ma propre réalité, fonde aussi l’univers dans lequel il me permet de m’inscrire, et qui constitue lui-même son visage varia- ble à travers tous les jeux alternés de la participation.”157
A participação cria o ser próprio de cada acto de ser humano bem como o ser do restante da presença, chame-se-lhe o que se chamar: mundo, realidade, alteridade, objectividade, etc. É o mesmo acto de participação que cria o eu e o mundo que me acompanha, porque eu e o mundo que me acompanha não somos realidades distintas de um mundo objectivo, para além do sentido que me constitui, mas o exacto sentido que me constitui. Eu e o mundo somos dois modos diferen- tes de uma mesma realidade, melhor, actualidade espiritual, que em mim se revela como um possível acto total, com o qual nunca coinci- direi, mas que sempre me convoca.158 As iniciativas da resposta a essa
156D.A., p. 86 (O acto por meio do qual penso e que, por consequência, funda a
unidade da minha consciência é independente do próprio conteúdo que lhe dou e que faz de mim um indivíduo particular: é necessário, sem dúvida, que seja eu quem o realize, mas esta realização, que o faz meu, não muda a sua natureza e não o esgota.).
157D.A., p. 88-89 (Vejo, sei e experimento, como Descartes relativamente ao in-
finito, que, na própria medida em que a minha atenção se torna mais pura e o meu amor-próprio mais silencioso, o mesmo acto que me funda, obrigando-me a fundar para mim mesmo a minha própria realidade, funda também o universo, no qual me permite inscrever e que constitui, ele próprio, o seu rosto variável através de todos os jogos alternados da participação.).
158C.S., p. 291: “Comme le corps est placé dans l’espace, l’âme est placée dans
l’esprit pur. Et comme le mouvement du corps nous découvre sans cesse de nouveaux lieux, le désir de l’âme nous révèle sans cesse de nouvelles pensées. Mais ce n’est pas le regard qui produit le paysage, ni l’attention qui engendre la vérité. Seulement
convocação constituem a participação, o sentido em acto de mim e do mundo, mundo que me habita e não o contrário. A participação de cada homem é a criação de todo o ser, não num sentido de domínio, como se se dissesse que o acto de participação de cada acto de ser humano fosse capaz de deter, de apreender ou de dominar o todo do acto, o que requereria um acto infinito, mas no sentido de que, em cada acto de ser humano, o acto se presentifica como um todo e exactamente um todo inabarcável: todo presente, – ou seria o nada –, mas presente de um modo em que cada acto de participação, participando de algo infinito em acto, o faz de um modo que, do seu ponto de vista finito, é finito. A possibilidade é infinita, mas o acto de realização, de actualização dessa possibilidade é finito, mas é-o num horizonte e numa matriz de infinitude.
Este o único mistério merecedor do nome, e equivalente ao do ha- ver ser: porque é que, havendo um acto qualquer, – e este acto qualquer é sempre o nosso acto, não dispomos de qualquer outro –, esse acto não é infinito? Porque é que cada um de nós não é infinito em acto? Esta in- tuição, que é uma tensão profundíssima, marca o sentido e o horizonte
il y a entre le regard et la lumière matérielle, entre l’âme et la lumière spirituelle une convenance si parfaite et un commerce si subtil, que l’âme et le regard finissent par ne plus se croire distincts du principe qui les éclaire. Il suffit d’un peut d’obscurité au dedans ou au dehors pour les rappeler à l’humilité.
C’est notre limitation et la résistance de la matière qui font de la vie de l’âme un combat, comme de la vie du corps. Mais la victoire de l’esprit se termine en con- templation : alors l’âme jouit de son repos, qui est la pointe extrême de son activité.” (Assim como o corpo está posto no espaço, a alma está posta no espírito puro. E assim como o movimento do corpo nos revela sem cessar novos lugares, o desejo da alma revela-nos sem cessar novos pensamentos. Mas não é o olhar que produz a paisagem nem a atenção que engendra a verdade. Só que há entre o olhar e a luz material, entre a alma e a luz espiritual uma concordância tão perfeita e um comércio tão subtil, que a alma e o olhar acabam por não acreditar que são distintos do princí- pio que os ilumina. Basta um pouco de obscuridade no interior ou no exterior para os rechamar à humildade. É a nossa limitação e a resistência da matéria que fazem da vida da alma um combate, assim como da vida do corpo. Mas a vitória do espírito termina em contemplação: então, a alma goza o seu repouso, que é a ponta extrema da sua actividade.).
da angústia, coincide com a própria angústia e é o sinal e a fonte de toda a tentativa de transcendência, de preferência infinita, do homem. Aqui nasceu e nasce, a todo o momento, a religião bem como todas as outras marcas de grandeza propriamente humana do homem: marcas que reenviam sempre para um desejo de infinitude, que se confunde com o próprio motor ontológico do homem. Assim, também o sentido profundo da saudade: nunca de um passado histórico ou de uma qual- quer plenitude havida, mas da perfeição nunca havida e nunca a haver, enquanto o acto de ser do homem não atingir aquela simplicidade e pu- reza, de que Lavelle fala, em que já nada se opõe a uma presença pura, em que a participação passou a ser comunhão com o acto puro:
“L’acte ne peut s’exercer que dans le présent : et il est lui-même un acte de présence à l’égard de ce que Dieu nos demande.
En lui, le temps et l’éternité se trouvent réconciliés. E l’on ad- mire d’entendre recommander par le saint,159 avec un sentiment si vif
de la réalité psychologique, non seulement une exacte adaptation de l’attention et de la volonté aux circonstances dans lesquelles nous som- mes placés, mais encore cette rapidité dans tous les mouvements de l’esprit e du corps, cette sancta velocitas qui nous permet de ne ja- mais être en retard ou en avance sur ce qui nous est demandé, de ne jamais laisser s’introduire en nous un répit où l’amour-propre puisse s’insinuer, et d’être toujours de pair avec les exigences qui nous sont apportées. Si nous suivons fidèlement le cours du temps sans vouloir le retenir pour en disposer à notre profit par le désir ou par le rêve, nous accompagnerons, dans l’éternité même de Dieu, le regard qu’il jette sur notre vie temporelle en nous montrant qu’il ne cesse de l’éclairer et de la soutenir.”160
159Trata-se de São Francisco de Assis.
160Q.S., pp. 73-74 (O acto não pode exercer-se senão no presente: e ele próprio
é um acto de presença relativamente àquilo que Deus nos exige. Nele, o tempo e a eternidade encontram-se reconciliados. E admiramo-nos ao ouvir o santo recomen- dar, com um sentimento tão vivo da realidade psicológica, não apenas uma exacta adaptação da atenção e da vontade às circunstâncias nas quais nos encontramos, mas ainda esta rapidez em todos os movimentos do espírito e do corpo, esta sancta velo-
O acto puro ultrapassa o pensamento, não porque concorra com ele num mesmo nível, estando à sua frente, mas porque está num outro nível, ao qual o pensamento não tem acesso directo, porque não há um pensamento independente do acto que o pense, porque o pensamento é o acto de transformar o acto puro em ser, e, quando o transforma, já não tem que com ele se relacionar, como se de algo de separado se tratasse, já é esse mesmo relacionamento, já é ser em acto, acto de ser, produto do acto desdobrando-se, mas já não acto na sua pureza.
É por esta razão que o pensamento e a consciência, que é seu acto e de que é produto em acto, está para o acto como a curva que se apro- xima infinitamente de uma assímptota: por mais que se aproxime, por mais que se desenvolva e progrida, nunca atingirá o limite para o qual, apesar de tudo e como sua essência criadora, se encaminha. É por esta mesma razão que a ciência positivista nunca cumprirá o fáustico desíg- nio de que vive: quando muito poderá obter uma teoria do ser, isto é uma teoria de si mesma, uma teoria da consciência que é a sua, nunca obterá uma teoria do acto, esse motor imóvel, não separado, que cons- titui a energia, a energeia profunda que ergue todo e cada um dos actos de ser, actos de ser que a consciência constitui como ser e a ciência vê como objectos de possível útil manipulação.
Ora, esta constante ultrapassagem e como que auto-transcendência da consciência é algo que pode apenas verificar-se no seio da sua inte- rioridade, dado que todo o horizonte possível da consciência é, ainda e sempre, um horizonte de consciência possível, a fim de ser um hori- zonte de consciência presente, em acto. Trata-se da actualização, indi- vidualmente operada e concretizada, de uma infinita possibilidade de
citasque nos permite nunca estarmos atrasados ou adiantados relativamente ao que nos é pedido, nunca deixar introduzir-se em nós uma demora em que o amor-próprio se possa insinuar, estar sempre a par com as exigências que nos são trazidas. Se se- guirmos fielmente o curso do tempo, sem querer retê-lo para dele dispor em nosso benefício por meio do desejo ou do sonho, acompanharemos, na mesma eternidade de Deus, o olhar que ele deita sobre a nossa vida temporal, mostrando-nos que não cessa de a iluminar e de a sustentar.).
pensamento, possibilidade esta que sustenta esse horizonte possível e permite a actividade da consciência, actividade que é virtualmente in- finita, dado que em si mesma nada obsta ao seu prosseguimento, mas que nunca esgotará aquela infinitude do pensável, que é virtual, apenas se entendida a partir da acção finita em acto da consciência, mas que é, em si mesma, infinita em acto. E é-o porque é a tradução matricial, oferecida à participação, do acto puro. O pensável é o acto puro, visto a partir de um acto de pensamento finito, que tem como horizonte, para si virtual, esse mesmo acto puro, dado como participável, isto é, dado num acto matricial de co-laboração, de co-criação com o acto de ser humano, visto como consciência auto-poiética e auto-criadora, num processo de co-criação contínua, em que o acto de ser humano, pela consciência, se cria e, ao criar-se, cria consigo o mundo, num processo que é individualizante e cosmicizante.
Não poder pôr o acto, a não ser através do acto pelo qual me ponho a mim mesmo,161 é a afirmação que melhor resume esta participação
co-criadora, que une em um mesmo acto o acto de ser do homem e o acto de ser do restante, de um restante cujo aparecimento e sentido são solidários e unitários mesmo. O acto do homem é o que dá sentido ao acto total, que, no e com o homem, se revela. O que é quase infan- tilmente óbvio: que sentido haveria, humanamente referenciável, sem o homem? A questão não é absurda, remete necessariamente para a incontornabilidade da presença humana como foco de significação de
161D.A., p. 39: “Je ne puis donc poser l’Être que par l’acte même par lequel je
me pose moi-même. Il est remarquable que chaque moi, en se posant, pose nécessai- rement la possibilité pour tous les autres de se poser eux-mêmes par la participation d’une “puissance infinie de se poser”, ce qui suffit à montrer que le foyer de l’Être est partout, c’est-à-dire qu’il n’y a qu’un foyer qui transporte partout non seulement sa lumière, mais sa propre nature de foyer.” (Não posso, pois, pôr o Ser senão por meio do próprio acto por que me ponho a mim mesmo. É notável que cada eu, pondo-se, ponha necessariamente a possibilidade para todos os outros de se porem a eles pró- prios, por meio da participação de uma “potência infinita de se pôr”, o que basta para mostrar que o foco do Ser está por toda a parte, quer dizer, que não há senão um foco, que transporta por toda a parte não apenas a sua luz, mas a sua própria natureza de foco.).
tudo.
O homem mais não é do que o seu sentido. E é no seio total deste mesmo sentido que todo o possível da referência emerge. Talvez seja necessária uma intuição, não infantil, mas muito próxima de uma pu- reza intelectual total, como a de Lavelle, para se perceber esta funda- mental evidência de que não há presença alguma, humanamente refe- renciável, sem a presença do homem. A evidência de que aquilo que se pensa ser a vasta ontologia ambiente e anterior, em que o homem emerge, mais não é do que um elemento de uma outra ontologia mais antiga e mais profunda e que é a ontologia própria de cada presença humana, não em um sentido solipsista ou particular, mas num sentido que faz entroncar a ontologia de cada acto de ser humano em um ní- vel metafísico, em que todos os actos de ser humanos bebem a possi- bilidade da sua actualização, como co-presentes co-participações cuja mútua presença é metafisicamente fundada.
Deixe-se bem marcado que este processo não reduz o real a um mero produto de uma consciência, no sentido de uma qualquer redução da realidade a um qualquer sonho insubstante, – porque os sonhos, so- nhos, também têm substância, o problema parece não estar nos sonhos e na sua substancialidade, mas em certos sonhadores –, mas a assunção do que tem de ser assumido, por incómodo que seja, e que é que sem a consciência não há relato seja do que for, o que é o mesmo que dizer que não há seja o que for, pois não faz sentido falar seja do que for fora da consciência que disso se tem. E não há excepções, pois estas são já coisas de consciência. Para nós, é: ou a consciência ou o nada. E, como se tem visto ao longo deste trabalho, temos a consciência, somos a consciência, logo, não podemos ter o nada, ser o nada. E trabalha-se a partir do que temos, não a partir do que dizemos não ter, que já temos, por dele termos falado.
Se o pensamento em acto, seja em que nível de consciência for, é o ser em acto, a totalidade do ser apresenta-se não como esse ser em acto, que é necessariamente finito, mas como a possibilidade do ser, que é uma virtualidade para a consciência e representa, ao mesmo tempo,
quer a sua finitude em acto quer a sua infinitude virtual, representando o horizonte virtual do ser quer a distância, infinita, da consciência ao seu objecto final quer a sua vocação, também infinita, para esse objecto final.
Quer o horizonte quer a vocação que o abre quer o impulso que essa vocação imprime são infinitos, o que confere à consciência uma dimensão que ultrapassa aquilo que é o seu horizonte temporal e nos faz perceber a dimensão corporal não só como uma dimensão de in- serção neste horizonte, a sua dimensão apropriada para produzir esta consciência, neste acto, com este tempo e estas dimensões, mas como isso que está marcado para interromper, no tempo e com o tempo, o acto deste tipo de consciência, mas não a consciência em si mesma: essa não depende do corpo, porque o seu horizonte não depende ape- nas do corpo. O corpo é o facilitador ou o veículo, se se quiser, de um determinado tipo de experiência consciente, mas de um entre infinitos possíveis.
O pensável preenche,162 pois, o intervalo que separa o pensamento
absoluto e infinito do nosso acto de pensamento finito, mas infinitizá- vel, isto é, a que nada se opõe, a não ser a infinitude do horizonte e a finitude dos meios, mas que poderia prosseguir infinitamente se infi- nitamente a presença como a conhecemos e experimentamos se man- tivesse. Aqui reside, aliás, o desejo profundo de perenificação, pois, de algum modo, percebemos que podemos prosseguir infinitamente ou poderíamos, se o nosso ser total coincidisse com aquilo de que semanti- camente somos capazes: do ponto de vista do sentido, sentimo-nos ca- pazes de prosseguir sem fim. Isto que no nosso acto é o lugar da emer- gência do ser sente-se capaz dessa emergência sem termo.163 Apenas
162I.O., p. 13: “[. . . ] le pensable remplit l’intervalle qui sépare la pensée absolue
de la pensée exercée par nous.” ([. . . ] o pensável preenche o intervalo que separa o pensamento absoluto do pensamento exercido por nós.).
163C.S., p. 272: “La conscience est toujours dans la joie si elle consente à jouir
de l’éternité qui la traverse. En s’attachant à des avantages particuliers, dont la mort nous dépouille d’un seule coup, elle en devient solidaire ; c’est donc elle-même qui se donne la mort. En restant indifférente à leur égard, elle nous donne déjà la possession
a morte é obstáculo à continuação desta presença em que estamos.164
Mas a mesma morte não pode ser uma aniquilação do acto em que ocorre pois seria introduzir absolutamente o nada que tudo aniquila- ria.165
de ce pur mouvement spirituel qui doit subir l’épreuve du temps pour devenir nôtre et dont la mort ne laisse subsister que l’essence désencombrée.” (A consciência está sempre na alegria se consente em gozar da eternidade que a atravessa. Prendendo-se a vantagens particulares, de que a morte nos despoja de um só golpe, torna-se-lhes solidária; é, então, ela que dá a morte a si própria. Permanecendo indiferente a seu respeito, dá-nos já a posse deste puro movimento espiritual que deve sofrer a provação do tempo, a fim de se tornar nosso e de que a morte não deixe subsistir senão a livre essência.).
164C.S., p. 273: “Ainsi, en brisant notre avenir, la mort nous apprend à donner
au présent une valeur plénière et absolue.” (Deste modo, quebrando o nosso futuro, a morte ensina-nos a dar ao presente um valor plenário e absoluto.). É esta a arquetípica intuição socrática e platónica que implica o famoso “aprender a morrer”, retomada