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2. Komiteens generelle merknader

2.8 Resultatområde 3 Pensjon

Um espelho recortado entre montes parcialmente submersos é a ima- gem da lagoa imensa que define a paisagem e surpreende o percurso do caminho – desvio da estrada entre Reguengos de Monsaraz e a vila de Moura – rumo à Aldeia da Estrela.

Após o encerramento das comportas da barragem de Alqueva, o vasto alagamento da terra arável veio afectar de forma considerável a Estrela, aldeia hoje situada nas margens dessa lagoa com uma superfície de 250 km2e um perímetro de 1100 km que a subida do nível das águas

originou. Ao contrário da antiga aldeia da Luz, a Estrela escapou à sub- mersão, apesar de os estrelenses terem igualmente testemunhado o ala- gamento total do seu cemitério e, portanto, todo o doloroso processo de transladação dos corpos dos seus antepassados para uma nova infra- -estrutura às portas do povoado.

Por não ter sido alagada a aldeia, nunca se lhe colocou a alternativa de reconstrução fora das margens da lagoa de Alqueva. Contudo, a si- tuação de proximidade com a água constitui um aspecto claramente per- turbador para as populações desta região do interior alentejano, tal como o demonstra a própria preferência dos habitantes da Luz pela construção de uma nova aldeia face à hipótese inicial de construção de diques, que permitiriam manter a velha aldeia no mesmo local. São, aliás, os próprios luzenses a lamentar a situação da Estrela, hoje quase totalmente cercada pela água da lagoa (Saraiva 2003).

No percurso do único acesso que permite a entrada na Aldeia da Es- trela insinua-se mais profundamente essa extensa e radical transformação do espaço e da paisagem que, desde logo, suscita interrogações. Que fu- turo fica reservado à população da Aldeia da Estrela se o monte cercado de terra arável que viu nascer o povoado deu lugar a uma pequena pe- 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 41

nínsula nas margens da lagoa de Alqueva? Que significado atribuem os habitantes desta aldeia à água que apagou o campo da paisagem? Que relações identitárias estabelecem com um espaço de tal forma alterado? São interrogações tanto mais plausíveis quanto a esta transformação da Aldeia da Estrela

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Figura 13 – Estrada nas cercanias da Aldeia da Estrela, 2004

Figura 14 – Vista da aldeia sobre a lagoa de Alqueva. Aldeia da Estrela, 2004 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 42

paisagem acresce o conhecido declínio da sociedade camponesa e, por- tanto, a perda progressiva de controlo da comunidade local sobre a sua própria economia, ambos sintomas dos problemas socioeconómicos de uma região – votada, como tantas outras, ao isolamento e ao abandono dos campos – em que a própria Estrela se insere.

Os problemas sociais e económicos que, nas últimas décadas, têm afec- tado particularmente as zonas rurais mais isoladas não podem, na verdade, ser dissociados dos processos de produção e reconfiguração do espaço que caracterizam a dinâmica das sociedades capitalistas contemporâneas (Harvey 2001). Se a reestruturação geográfica da actividade económica é hoje um factor determinante da globalização,1ainda num passado recente

era o próprio funcionamento das economias nacionais decisivo nos pro- cessos migratórios, concentrando indústrias e serviços nos grandes centros urbanos, transformando a agricultura no sentido da mecanização e da monocultura com objectivos de mercado e, em suma, originando a de- pendência económica das populações do campo. Dessa dependência são suficientemente elucidativos o declínio da agricultura tradicional e o as- salariamento agrícola, bem como as diversas estratégias de pluriactividade Inquérito sociológico à população da Estrela

1Sobretudo as nações dos países ocidentais são crescentemente confrontadas com a

ameaça do desmantelamento e da deslocalização dos seus tecidos industriais para países que proporcionam mais baixos custos de produção.

Figura 15 – Preparando uma queimada. Aldeia da Estrela, 2004 01 Aldeia da Estrela Parte I.qxp_Layout 1 05/03/15 10:30 Page 43

das famílias no campo e o êxodo rural (Sobral 1999a; Wall 1998; Almeida 1998 [1993]; Almeida 1999 [1986]; Pinto 1985). A este cenário de depen- dência económica à qual as condições de vida na Estrela não são, eviden- temente, alheias – tal como demonstra o progressivo despovoamento da aldeia – acresce hoje o desafio resultante do alagamento da terra arável. Importa sublinhar que, para o povoado, esta foi a consequência inevitável do fecho das comportas daquela que é a maior barragem da Europa. A construção da barragem de Alqueva constitui uma componente central numa obra de vasta envergadura – o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva – que, para além da produção de energia hidroeléctrica e do regular abastecimento de água às populações, conta entre os seus princi- pais objectivos, precisamente, o combate ao despovoamento desta região rural recuada através da dinamização dos diversos sectores de actividade, entre os quais se destaca o turismo.

Ora, o Plano de Pormenor da Aldeia da Estrela veio enquadrar-se nos objectivos de valorização dos recursos e redução das implicações sociais e económicas dessa súbita proximidade da água decorrente do fecho das comportas da barragem. À execução do plano colocou-se o desafio de orientar o desenvolvimento urbanístico futuro desta aldeia hoje cercada por uma mega-albufeira, desafio esse ao qual não é obviamente alheia uma responsabilidade social, ou não tivesse a concretização desta proposta implicações seja nas condições e modos de vida dos habitantes da Estrela, seja na própria revitalização da comunidade aldeã. Tendo presente essa responsabilidade social, considerou-se de importância decisiva acrescentar a sociologia à diversidade de especialidades vulgarmente implicadas na execução de um plano de pormenor (arquitectura, engenharia, paisa- gismo, desenho urbano). Um inquérito sociológico à população da Estrela foi então elaborado com o principal objectivo de fazer o levantamento das condições e modos de vida dos habitantes, levantamento esse funda- mental ao enquadramento e à compreensão das suas atitudes e expectati- vas face à recente transformação do cenário que circunda a aldeia. Pre- tendia-se assim que as soluções delineadas viessem ao encontro das diversas necessidades impostas pelo enchimento da barragem de Alqueva a esta população, contribuindo particularmente para atenuar as tensões a que os processos de (re)apropriação do espaço aldeão estão sujeitos.

A informação relevante foi captada através de um inquérito por ques- tionário aplicado aos habitantes da Estrela. Foram inquiridos 24 homens e 34 mulheres, perfazendo um total de 58 indivíduos. A par da aplicação do questionário, os inquiridos foram também solicitados para uma en- trevista, que teve por objectivo o esclarecimento e o aprofundamento de Aldeia da Estrela

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algumas questões dificilmente captáveis através da exclusiva aplicação do questionário. A duração das entrevistas foi, contudo, muito variável, entre 30 e 120 minutos. Por outro lado, foram decisivas as reuniões in- formais com informantes privilegiados, sobretudo para captar alguns as- pectos da história da aldeia e dos percursos dos seus habitantes. O pe- ríodo de recolha de dados decorreu entre Outubro e Dezembro de 2004. Embora o nosso objectivo fosse, à partida, aplicar os questionários à to- talidade da população presente, o inquérito a todos os habitantes tor- nou-se impraticável em virtude, quer da inacessibilidade da população emigrada e apenas temporariamente residente na Estrela, quer da recusa dos demais em responder ao inquérito. A amostra reunida contempla, ainda assim, mais de metade da população.2A grande maioria dos in-

quiridos é casada, contando-se somente nove pessoas solteiras, duas di- vorciadas e uma viúva. Mesmo que nem sempre tenha sido possível en- trevistar os dois cônjuges, recolheu-se a informação necessária a uma caracterização de trinta e um casais, com ou sem filhos.

Para os habitantes da Aldeia da Estrela, o fecho das comportas da bar- ragem de Alqueva teve duas consequências imediatas. Por um lado, tra- duziu-se no alagamento da maior parte das terras de cultivo que pos- suíam ou arrendavam. Por outro lado, veio impor a esta população um contacto inédito com a água. Com efeito, quinze das trinta e uma famí- lias entrevistadas possuíam ou arrendavam terras entretanto alagadas. No total, a dimensão de terra submersa que era propriedade dos habitantes inquiridos ronda os 140 ha. Já mais de 300 ha de terra alagada estavam arrendados a três famílias inquiridas. À excepção de dois casos, em que a área submersa é inferior ao restante da propriedade,3a dimensão da

terra alagada é, grosso modo, bastante superior à área de terra que as famí- lias actualmente possuem. Duas famílias sem propriedade arável e cuja subsistência dependia do cultivo de terra arrendada hoje totalmente sub- mersa, e uma outra família à qual resta apenas 1 dos 40 ha de terra que possuía antes da subida do nível das águas, constituem as situações mais dramáticas. Que consequências advêm desta drástica mudança na vida da população da Estrela? Como vêem os habitantes da aldeia esta trans- formação com profundas implicações nas suas condições de vida? Num Inquérito sociológico à população da Estrela

2De acordo com o recenseamento de 2001 (INE), a população residente na Estrela

era de 119 indivíduos. Já em 2004, data de realização do inquérito, a população rondava os 100 indivíduos, de acordo com a informação obtida junto dos habitantes.

3Um casal proprietário de 10,5 ha de terra possuía 3,5 ha de terra alagada; outro casal,

hoje proprietário de 29 ha, arrendava 130 ha de terra alagada.

cenário de tal modo alterado, quais as suas expectativas face ao futuro? São questões cujas respostas exigem um enquadramento só devidamente realizado através de uma caracterização social e de uma análise aprofun- dada das condições, dos percursos, experiências e modos de vida da po- pulação desta aldeia.

Aspectos fundamentais de caracterização