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Neste momento o aluno Paulo chega na sala junto com a auxiliar:

- O O O... diz Paulo ao entrar na sala de aula, e logo em seguida começa a gritar. - Boa tarde Paulo, pra você também! Diz a professora para Paulo, entendendo que, ao entrar na sala de aula e falar, Paulo estava quero dizer oi.

- O o o, Paulo diz novamente.

- Quem foi que falou isso pra você, hem? Pergunta a professora para Paulo, em tom de brincadeira.

A professora se aproxima de Paulo, o abraça e pede um beijo: - E meu beijo? E meu beijo?... pede a professora.

Paulo encosta seu rosto próximo ao da professora, o que parece um beijo.

- E agora hã?... Estamos cantando na Hora Cantada. Explica a professora para Paulo

após o beijo.

Logo em seguida, acompanhada da auxiliar, a professora começa a cantar e bater palmas com uma música de boa tarde para Paulo:

- Boa tarde Paulo. Como vai? Boa tarde Paulo. Como vai? Faremos o possível para

sermos bons amigos. Boa tarde Paulo. Como vai? Faremos o possível para sermos bons amigos. Boa tarde Paulo. Como vai?

Ao terminar a música, a professora se dirige até Paulo, que está sentado no chão da sala, para conversar com o aluno:

- E como foi o seu final de semana? Pergunta a professora ao aluno. Paulo dá um grito como resposta.

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- Eu acho que ele tinha horário era com a T.O. agora. Continua a professora,

preocupada. A auxiliar concorda com a professora.

A professora volta a olhar para Paulo e explica a atividade para o aluno:

- É, você sabe o que é agora... a nossa Roda Cantada. É roda cantada. Qual música o Paulo quer cantar? Pergunta a professora animada.

Paulo grita, senta-se no chão e tira um tênis.

- Eu não conheço essa. Diz a professora para o aluno.

Entendo a reação dele como sendo alguma música que ele quer cantar.

- Qual é a música? A gente acabou de cantar a da Dona Aranha. É a Dona Aranha. E agora vamos cantar a De Abóbora faz Melão? Vamos? Só que ai o Paulo vai ter que fazer as coreografias, diz a professora para o aluno antes de começar a cantar a

música que ela escolheu.

A professora levanta Paulo do chão e pega pela sua mão e ele começa a pular e andar pela sala. A professora começa a cantar:

- De abóbora faz melão, de melão faz melancia. De abóbora faz melão de melão faz

melancia. Faz doce sinhá, faz doce sinhá, faz doce de maracujá. Se quiser aprender a dançar vai à casa de seu Juquinha. Se quiser aprender a dançar vai à casa de seu Juquinha....

Ao terminar de cantar esta música, a professora solta as mãos de Paulo, que novamente senta-se no chão da sala de aula.

Na entrada de Paulo, tanto a interlocução sobre o cumprimento quanto o beijo parecem evidenciar algum tipo de compreensão por parte do aluno ou, ao menos, uma tentativa de oferecer significado às suas expressões.

No entanto, quando procura incorporar o aluno à atividade que estava em curso, a professora não age da mesma forma: como Paulo não dá qualquer resposta sobre qual música gostaria de cantar, imediatamente a professora escolhe uma e inicia uma espécie de dança com o aluno, mas, assim que solta o aluno, ele volta a se sentar e ficar alheio à cantoria.

Outro ponto importante que podemos analisar nesta passagem é o fato de que o aluno Paulo se agita e começa a gritar enquanto a professora e a auxiliar cantam as músicas para os alunos. Este fato poderia ser analisado como uma forma de interação ou até mesmo uma resposta do aluno à atividade, ou seja, poderíamos pensar que Paulo está de algum modo procurando participar da atividade que está sendo realizada em sala de aula. Porém, a falta de uma maior interação entre a professora e os alunos durante a realização da atividade não nos permite obter certeza deste entendimento do aluno em relação à atividade.

95 Cena 4 – Mais algumas músicas

A professora continua cantando enquanto a terapeuta ocupacional entra na sala para buscar Paulo para o atendimento. Após cumprimentar o aluno, a terapeuta sai com ele da sala de aula para o atendimento em uma sala separada.

A professora senta-se novamente no chão para cantar outras músicas, agora para o aluno João:

- Acorda João! Vamos você também.

- É assim que ele faz? Quem é ele que faz?... Vamos cantar a casa muito engraçada? Pergunta para o aluno, mas sem esperar alguma resposta dele.

Sentada ao lado de João ela começa a cantar a mesma música que cantou para Paulo, enquanto mexe com os braços do aluno como se estivesse dançando com ele, mas sem tirá-lo da boia. A Auxiliar acompanha a professora, cantando junto.

- Era uma casa muito engraçada. Não tinha teto não tinha nada. Ninguém podia entrar

nela não! Porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi. Porque pinico não tinha ali. Mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos número zero. Mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos número zero.

Ao término dessa música a professora escolhe outra música, em seu livro, pra cantar: - Ah, tem a música do pintinho. Diz a professora para João.

- Do pintinho de que cor? Pergunta a professora, que logo responde. - Amarelinho! E começa a cantar:

- Meu pintinho amarelinho... cabe aqui na minha mão! Na minha mão! Quando quer

comer bichinhos, com seus pezinhos ele cisca o chão. Ele bate as asas, ele faz piu- piu, mas tem muito medo é do gavião. Ele bate as asas, ele faz piu-piu, mas tem muito medo é do gavião. Quando a música acaba a professora procura outra em seu livro de

músicas.

- Aaa.. e agora João? Pergunta a professora para o aluno.

- Seus amigos tão muito atrasado viu!... Comenta a professora com o aluno.

- Ah, que tal, vamos mandar uma cartinha? Vamos? Vamos chamar quem pra mandar essa cartinha? ... A professora faz uma pausa antes de começar a cantar novamente,

parecendo meio desanimada.

- O papagaio! É o papagaio? Pergunta a professora antes de começar a cantar novamente, acompanhada pela auxiliar.

- Papagaio louro do bico dourado, manda essa cartinha para o meu namorado. Se

estiver dormindo, bata na porta. Se estiver acordado, deixa recado. A professora

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dourado, manda essa cartinha para o meu namorado. Se estiver dormindo, bata na porta. Se estiver acordado, deixa recado.

Ao terminar de cantar a música, a professora conversa novamente com João: - A e aquele pirulito? Quem é que não gosta de pirulito?

- Pirulito que bate-bate. Pirulito que já bateu. Quem gosta de mim é ela. Quem gosta

dela sou eu! Pirulito que bate-bate. Pirulito que já bateu. A menina que eu gostava, não gostava como eu.

Ao terminar de cantar essa música, a professora pergunta para João: - Vamo cantar a do indiozinho?

E logo em seguida começa a cantar e a mexer os braços de João, fazendo o movimento do bote dos índios navegando pelo rio:

- Um, dois, três, indiozinhos. Quatro, cinco, seis indiozinhos. Sete, oito, nove,

indiozinhos. Dez num pequeno bote. Iam navegando pelo rio abaixo, quando um jacaré se aproximou. E o pequeno bote dos indiozinhos quase, quase virou. Quase, quase virou. Mas não virou! Quando a música acaba, a professora brinca com Pedro:

- A tá demais! A tá demais esse menino! Vai, faz o movimento da onda! A professora escolhe outra música para cantar:

- Ah, ele gosta daquela do tra-la-la-la-la-laoo. E começa a cantar:

- As flores já não crescem mais, até o alecrim murcho. O sapo se mandou, o lambari

morreu porque o ribeirão secou. O tra-la-la-la-la-laooo. O tra-la-la-la-la-la-la-la. O tra- la-la-la-la-la-la-la. O tra-la-la-la-la-la-la-la-laoo.

A professora para de cantar por um momento e logo começa de novo:

- As flores já não crescem mais, até o alecrim murcho. O sapo se mandou, o lambari

morreu porque o ribeirão secou. O tra-la-la-la-la-la-la. O tra-la-la-la-la-la-la-la. O tra-la- la-la-la-la-la-la. O tra-la-la-la-la-la-la-la. O tra-la-la-la-la-la-la-la-laoo.

Quando a música termina, a professora elogia João:

- Muito bem! E começa a cantar outra música: - Sapo cururu, na beira do rio. Quando o sapo canta mãinha é porque tem frio. A mulher do sapo deve estar lá dentro fazendo rendinha, oh mãinha, para o casamento.

O que mais chama a atenção é a continuidade de uma atividade em que está evidente a não compreensão dos alunos que, por esta razão, não têm qualquer participação significativa na atividade.

Fica evidente que a atividade está muito além das possibilidades de compreensão dos alunos e, assim, não consegue suscitar qualquer resposta, no sentido de possibilitar que as atividades de aprendizagem influam no desenvolvimento desses alunos.

97 Síntese analítica do primeiro ato:

- Assim, com o distanciamento entre o conteúdo das cantigas (que não são minimamente apresentadas pela professora, que apenas as canta) e as possibilidades de compreensão dos alunos, a “Hora Cantada” serve para o tempo passar.

SEGUNDO ATO – A HORA DO CONTO