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In document Samarbeid i hjemmesykepleiepraksis (sider 13-24)

As entrevistas são estratégias de coleta de dados praticamente incontornáveis nas pesquisas qualitativas. Neste trabalho tiveram um peso especial, pois impuseram adequações metodológicas por conta da especificidade do grupo estudado: pessoas com deficiência física cuja gravidade pode provocar alteração na capacidade de comunicação oral.

É importante lembrar que nem todos entrevistados mantinham essa características. Pois, como explicitado em capítulo anterior, a paralisia cerebral pode ou não comprometer o sistema fonador responsável pela emissão da voz.

Inicialmente, o foco das entrevistas esteve voltado para os sujeitos principais da pesquisa, ou seja, aqueles que seriam alvo das observações, bem como seus familiares e amigos. No entanto, as interações em campo provocavam constante reelaboração das hipóteses, diluindo certezas e suscitando novas perguntas: será que o nível de dependência física determina realmente o grau de autonomia? Que percepção a respeito da autonomia têm aqueles sujeitos com PC cuja paralisia afetou minimamente as funções motoras? O peso do estigma pode ser relativizado ainda que o diagnóstico seja o mesmo?

Assim, para responder perguntas como estas, realizei entrevistas com outros sujeitos, além daqueles eleitos inicialmente como centro do estudo. Esses indivíduos passaram a ser “informantes secundários”, cujas falas ajudaram imensamente a chegar às conclusões da pesquisa. Ouvi relatos de pessoas com diferentes tipos de paralisia cerebral (diplegia, tetraplegia com marcha, usuário ou não de cadeira de rodas entre outros) e diferentes status e papéis sociais (engajados politicamente, profissionais, estudantes). Ouvi também por quase duas horas um indivíduo tetraplégico com lesão medular (diagnóstico distinto da paralisia cerebral) sobre sua

experiência diante da paralisia e da dependência. Os entrevistados não foram todos exatamente planejados ou escolhidos, tendo em mente o fato de representarem uma categoria (aqueles que andam, falam, são ricos ou pobres etc.). Cada indivíduo entrevistado foi visto como representante de si mesmo, singular em suas experiências corporais e sociais e o encontro com cada um deles se deu, em geral, ao acaso, em oportunidades diversas de interação (congressos, festas, encontros casuais na rua, dentre outros), ao longo dos quatro anos de investigação.

Com relação àqueles entrevistados que foram alvo da observação participante, muitas informações foram coletadas durante as interações espontâneas em campo (diálogos, discussões, telefonemas), embora conversas gravadas, seguindo um roteiro semiestruturado, tenham sido também realizadas.

Sobre esse último tipo de interação em campo, é interessante observar como as falas dos sujeitos pesquisados assumem caráter diferenciado quando estão sob a forma do que chamamos entrevistas. Simples frases como “gostaria de fazer uma entrevista com você” ou “qual o melhor horário para nossa conversa” e, finalmente, a apresentação do “objeto mágico” do registro, o gravador, dão um ar cerimonial ao diálogo.

Nesta pesquisa, as entrevistas, ainda que de caráter semiestruturado, revelaram um empreendimento de elaboração por parte do interlocutor que me chamou atenção, sobretudo por parte dos parentes e próximos dos sujeitos com deficiência.

Lembro-me de uma mãe que após 50 minutos de fala (entrecortada por emoção, choro, histórias do passado), totalmente imersa em seu relato, comentou: “Pode botar aí nessa sua maquininha que eu disse mesmo isso!” – referindo-se ao gravador. O que revela que as entrevistas nem sempre são um diálogo a dois, ou um monólogo no divã. Nelas está também presente a posteridade, ou seja, aqueles que virão a ler o relatório final do trabalho. O entrevistado tem consciência dessa “coletividade” da conversa e se faz valer da pesquisa para divulgar e afirmar suas crenças, ideias, simbolizações e elaborações a respeito de sua condição e de si mesmo. Enfim, o pesquisado não é um ser passivo, objeto naïve na produção do conhecimento apresentado, não é um doador de informações alienado sobre as intenções de seu interlocutor-pesquisador. Esse trecho do diário de campo ilustra brevemente esse fenômeno:

Marcio me mostrou outra série de “cartas” que tinha escrito pra sua fisioterapeuta, para um amigo e para a mãe. E também outro texto no qual contava momentos marcantes de sua vida e ainda um breve diário relatando as coisas que tinha feito de relevante naquela semana. Quando eu já estava de saída, ele apontou com o olhar pro meu caderno de anotações que estava perto da minha bolsa. “O que você quer, Marcio?”, perguntei. Ele voltou-se para o computador e escreveu: “Mostra pro seu professor”. E em seguida olhou na direção dos papeis (as “cartas”) na minha mão. “Mostrar pro meu professor isso?”, perguntei. “Você quer que eu conte isso no meu trabalho?” Ele balançou a cabeça afirmativamente. Marcio queria que eu anotasse as informações do texto que tinha me mostrado sobre sua vida e seu pequeno diário. Fiquei tão impressionada com sua atitude. Mostrou-me que ele mantém constante a ideia de que minha presença em sua casa tem a ver com a pesquisa. E mais, mostra que ele quer isso, ele quer se mostrar na pesquisa. (27/09/2008).

Outro aspecto sobre as entrevistas que me parece relevante abordar aqui me foi revelado por um dos sujeitos com deficiência: Júlio tinha o hábito de contar, nas gravações de nossas conversas, longos “causos” (nome dado na linguagem nordestina popular a contos reproduzidos oralmente). Segue extrato do diário:

As histórias de Júlio são às vezes dramáticas, às vezes engraçadas. A maioria delas me faz duvidar da veracidade. Talvez porque ele “floreie” muito, faça aquele suspense todo quando vai contar. Eu vou perguntar sobre todas essas histórias quando for entrevistar a mãe dele... Não podem ser verdade! E aí? Como entrevista, eu devo desconsiderar isso, então? Ou se ele disse tá dito, é verdade e pronto? E se não aconteceu, porque diabos ele conta?! (31/05/2009).

Esses dois exemplos demonstram que as entrevistas apresentam aspectos subjetivos que fazem dela um processo complexo e dinâmico, tornando-as muito mais do que uma simples aplicação de técnica, nas palavras de Nunkoosing (2005, 705), “o entrevistador não coletas informações como quem colhe margaridas”. O mesmo autor defende que o pesquisador:

Colludes with the interviewee to create, to construct, stories. In this context, all the stories are authentic rather than true […]. People draw on cultural narratives to make sense of their situation, and their preference for one narrative over another might be related to how

they explain and attribute their health experience and, consequently, the actions they take.96 (p. 705).

Na entrevista, o self também está envolvido em uma performance que não tem começo nem fim, que está em permanente criação-destruição de discursos e desejos concorrentes. Cada entrevista é um evento único (NUNKOOSING, 2005).

Foi esse processo de recriação, não apenas do si, mas também da interação estabelecida entre pesquisador e pesquisado que se tornou uma das experiências mais peculiares desta pesquisa. Descrevo-a a seguir.

In document Samarbeid i hjemmesykepleiepraksis (sider 13-24)