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RESULTATER PÅ INDEKSENE OG UNDERLIGGENDE SPØRSMÅL FOR POLIKLINIKKER
Para entender a diversidade de perspectivas relacionadas às transformações do significado de trabalho na sociedade, é preciso lembrar que a noção de valor que o acompanha desde a época industrial, o colocou como conceito central não só do ponto de vista econômico, mas também “moral, ideológico, filosófico-ontológico (ou existencial) e contratual”. Na primeira destas dimensões define-se o trabalho
como fonte do valor econômico; na segunda, como princípio moral, matéria-prima para a modelagem do caráter; terceira, como alvo de investidas ideológicas visando à domesticação e controle dos trabalhadores; [...] quarta, como atividade construtora do ser e da subjetividade, meio pelo qual o ser humano acessa sua verdadeira essência; e quinta, como contrato social no qual a sociedade pode ancorar seus distintos papéis sociais e coordenar a cooperação e a solidariedade entre seus
membros. Essas cinco dimensões, juntas, convergiram para trazer o trabalho ao posto de um dos principais valores políticos, culturais, sociais e psicológicos durante a vigência da sociedade industrial, nos séculos dezenove e metade do vinte (BENDASSOLI, 2006:12).
Dentro do regime de acumulação pós-fordista, que se fundamenta em três eixos, a saber, a autonomização da esfera financeira, a flexibilização e desverticalização da esfera produtiva e, enfim, a crescente integração produtiva da esfera do consumo e da reprodução, as funções do trabalho também se rearranjam e se materializam sob diferentes aspectos (POCHMANN, 2007).
Essa revisão ocorreu não só em relação ao valor econômico, como também em todas as dimensões citadas, e que estão contidas na concepção de trabalho em Marx, em seu aspecto objetivo, como fonte do valor, e subjetivo, como força identitária e criativa.
A discussão sobre o significado do trabalho na sociedade atual inclui também a possível perda da sua relevância como matriz das relações sociais, causada principalmente pela diminuição da importância do trabalhador para a reprodução do capital. Tal perda, porém, não quer dizer diminuição de esforço na vida do trabalhador. Neste sentido, ocorre o fenômeno inverso, ou seja, a atividade produtiva cada vez mais se apropria de parte do tempo livre das pessoas, em uma sociedade caracterizada por uma intensificação do trabalho que invade o espaço da vida privada (ANTUNES, 2006; CHAIA, 2004).
Conforme Antunes (2005) sintetiza, após a perda de sua capacidade de reprodução no período pós lutas sociais em 1968/69, o capitalismo iniciou um processo de reestruturação das suas formas de dominação societal, não só procurando reorganizar em termos capitalistas o processo produtivo, mas também procurando gestar um projeto
de recuperação da hegemonia nas mais diversas esferas da sociabilidade. No plano ideológico, o fez por meio do “culto de um subjetivismo e de um ideário fragmentador que faz apologia ao individualismo exacerbado contra as formas de solidariedade e de atuação coletiva e social” (ANTUNES, 2005:86).
A necessidade de recompor os eixos de sustentação do modelo econômico capitalista já se anunciava desde meados da década de 1960, e se consolidou na década seguinte, em decorrência da incapacidade do modelo de produção fordista em conter as contradições inerentes ao capitalismo. “A separação entre gerência, concepção, controle e execução (e tudo o que significava em termos de relações sociais hierárquicas e de desabilitação dentro do processo de trabalho)” aliada ao reconhecimento de que “produção de massa significava consumo de massa” sustentou o sistema de reprodução da força trabalho no modelo fordista. Marcados pelo desenvolvimento de políticas de controle e gerência do trabalho, os métodos de trabalho sedimentados eram inseparáveis de uma estética disseminada que definiu um tipo de sociedade racionalizada e moldada pelo consumo (HARVEY, 2001:121).
Num esforço de identificar as razões e o processo que levaram ao colapso desse sistema, Harvey (2001) aponta o ano de 1973 como um marco do rompimento causado pela aguda recessão que abalou o quadro configurado, e fomentou um processo mais rápido de transição. Iniciou-se um período de rápidas mudanças nas práticas de consumo, mais flexibilidade nos mercados e mobilidade geográfica para a realização dos negócios, configurando-se em um novo regime de acumulação do capitalismo.
O debate em torno do significado dessas mudanças, procurando compreender se caracterizam transformações de natureza fundamental da vida político-econômica, leva a uma variedade de termos em busca de sua definição. Assim, surgiram denominações como “toyotismo” (modelo japonês), “regime de acumulação flexível” ou “pós-
fordismo”, nas quais se incluem concepções que sinalizam diferenças e ressaltam ângulos distintos da transição no modo de regulamentação social, político e econômico do capitalismo contemporâneo.
Um aspecto, no entanto, é generalizado em todas as concepções, ou seja, a copresença de diferentes configurações produtivas, desde as formas de tipo proto- industrial até as mais flexíveis. Este aspecto permite e consolida a existência de diferentes formas precarizadas de inserção econômica e social dos trabalhadores: no mercado formal, mas com vínculos frágeis pela terceirização ou com direitos trabalhistas negligenciados; no trabalho informal e autoemprego, dependentes deles próprios para se manterem produtivos; ou excluídos definitivamente, rompendo-se as possibilidades de inserção como exército de reserva, que no modelo fordista absorvia a parte excedente dos trabalhadores.
A ampliação da vulnerabilidade dos grupos desprivilegiados e a perda de força de organização da classe-trabalhadora mediante a transformação da base objetiva da luta de classe entre capital e trabalho fazem parte desse desequilíbrio das forças produtivas na economia.
As questões mencionadas conduziram às diversas teses sobre a centralidade do trabalho, caracterizada pela diminuição da importância deste como fator de produção, diante de uma crescente ênfase do capital como fator gerador de riqueza. Além disso, revelaram a contradição existente que Hannah Arendt expôs quando questionava se seria possível “imaginar algo mais nefasto do que uma sociedade de trabalhadores sem trabalho” (AREDNT, 1999; BENDASSOLLI, 2006:15).
O grande número de pessoas em condições ativas de produção excluídas do mercado mostra ainda, conforme Antunes, o trabalho como “dimensão central na (des) sociabilidade contemporânea” (ANTUNES, 2006:12).
A característica permanente dessa exclusão gera “uma (des) sociabilidade mais grave do que em outros momentos históricos de crise do capitalismo”, por não permitir o acesso a condições de aprender novos ofícios dentro de um modelo de ocupações reinventadas constantemente e com maior exigência de conhecimentos técnicos. A impossibilidade de retorno ao mercado produtivo define a ponta “mais fragilizada daqueles que Marx caracterizou como os que não têm mais nada a perder”, e se torna no paradigma pós-fordista elemento estratégico determinante da reprodução do capital. (ANTUNES e SILVA, 2004:09-11).
Ao mesmo tempo, a ambiguidade concernente ao significado do trabalho é referenciada por um grupo de autores que reconhece quase uma inversão nas práticas sociais do trabalho. Sua função como fonte de identidade social se altera no pós- fordismo para uma relação em que, especificamente, o social passa a ser um dos pilares da reprodução econômica. De acordo com Cocco:
Por trás da crise do trabalho industrial (e do trabalho assalariado formal), o regime de acumulação pós-fordista determina uma
difusão social do trabalho. Longe de desaparecer, o trabalho
não para de se difundir no espaço e no tempo: nos territórios desenhados pelas redes sociais de cooperação; num tempo definido pela recomposição de tempo e de vida e tempo de trabalho (2001:16).
A ambiguidade, mais do que a perda de centralidade do trabalho como origem de valor, apresenta-se assim, “na pluralidade de sentidos do trabalho na atualidade, na dificuldade em estabelecermos uma relação direta entre ele e a constituição de nossas
identidades e na amplitude de teorias e explicações sobre seu valor e importância” (BENDASSOLLI, 2006:15).