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RESULTATER PÅ INDEKSENE OG UNDERLIGGENDE SPØRSMÅL FOR SENGEPOSTER

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RESULTATER PÅ INDEKSENE OG UNDERLIGGENDE SPØRSMÅL FOR SENGEPOSTER

A estrutura organizacional característica do pós-fordismo é formada por conexões e fluxos que se desenvolvem em conexões sistêmicas fora de uma mesma estrutura fechada. Instituem-se em desenho de redes, com pontos de contato mais horizontais do que verticais, o que exige atividades de coordenação e gestão diferentes das baseadas em hierarquia e poder centralizado (Castells,1999).

Nesse tipo de estrutura se requer maior autonomia dos trabalhadores para integrar o processo de produção com o de consumo e ampliar os níveis de cooperação entre diversos agentes envolvidos no processo produtivo. Para tanto, são incorporadas capacidades relacionais como parte da produção em si, habilidades de comunicação e linguagem como fontes de produtividade e recursos intelectuais e afetivos que passam a incorporar o processo de trabalho.

Conforme elucidado, a experiência do trabalho, a partir do século XIX, criou formas que massificaram o comportamento, produziu a impotência dos trabalhadores em assumir coletivamente suas contradições psicológicas e um sistema de ocultação do sentido, no qual o homem deixa de reconhecer sua identidade, configurando-se esta experiência em um processo de alienação e estranhamento.

Em relação às formas de sociabilidade que decorrem da natureza do trabalho no pós-fordismo, mesmo permitindo maior autonomia e expressão criativa dos trabalhadores, não se alterou a exploração contida na relação capitalista de uso da força de trabalho. O capital humano, o capital social e o conhecimento passam a ser ideologicamente disseminados como a principal força produtiva no capitalismo contemporâneo.

Assim, um risco de exclusão e (des)sociabilidade mais definitiva do que o caracterizado pelos mecanismos de separação social do fordismo faz com que a atualização profissional para o indivíduo se manter produtivo ocupe importância e responsabilização pessoal crescentes, com um esforço contínuo dos indivíduos para usar seu “potencial” e “desenvolver competências múltiplas”.

O trabalho imaterial torna-se para Gorz a forma hegemônica do trabalho atual e o centro da criação do valor. Resgatando Moulier-Boutang, Gorz define como “exploração de segundo grau” a “subsunção ao capital do trabalho coletivo como trabalho vivo, e não como poder da ciência e das máquinas”. O trabalhador é, dessa forma, “um produto que continua, ele mesmo, a se produzir” (YANN MOULIER- BOUTANG apud GORZ, 2005:19).

André Gorz (2005:61) considera, inclusive, a existência de uma nova racionalidade econômica, que subordina os critérios habituais do rendimento “ao

critério do desenvolvimento humano”, gerada pela necessidade do capital em se reorganizar com base no uso de capacidades humanas não facilmente controláveis.

Com certo otimismo, Gorz sinaliza que a mudança é parte de práticas que o próprio sistema capitalista suscita, as quais seriam capazes de possibilitar um reordenamento de forças entre o capital e o trabalho.

Desse modo, o capitalismo chegou, através do desenvolvimento das forças produtivas, a uma fronteira. Uma vez que ela tenha sido ultrapassada, ele não pode mais tirar plenamente parte de suas potencialidades, a não ser que se volte rumo à outra economia. O ator potencial dessa mudança é o capital humano, conquanto ele tenda a se emancipar do capital. Seria assim pela natureza criativa, indeterminada e livre do trabalho vivo que o sujeito poderia opor-se à determinação do capital, superá-lo ou revolucioná-lo (GORZ, 2005: 61).

Paradoxalmente, porém, esse mesmo tempo de não-trabalho torna-se, de volta, capital e, por sua vez, fonte de valor. O próprio Gorz retoma a crítica, salientando que, embora o trabalho imaterial passe a ter maior valor econômico do que as atividades de produção propriamente ditas e façam parte de praticamente todo tipo de trabalho atual, para o capital, “vale mais renunciar, tirar proveito de certas externalidades potenciais” do que renunciar a controlá-las. Dominar as forças do trabalho sempre foi a condição para utilizá-lo (GORZ, 2005: 61).

Em estudos clássicos sobre o trabalho, depois da era industrial, Hannah Arendt identifica exatamente na mediação linguística e na expressão do sujeito em espaços plurais as bases constitutivas de uma atuação “política”, como condição essencial de um

trabalho não-alienante e estranhado. O fenômeno da despolitização de nossas sociedades constitui-se para Arendt uma de suas principais preocupações por indicar um rompimento do homem com sua capacidade de discernir critérios e referências de convivência, que permitam a cada um comunicar-se com todos os demais e agir em presença da pluralidade humana (ARENDT, 1997).

Na conhecida análise realizada por Hannah Arendt, em seu livro “A condição

humana”, a respeito do mundo contemporâneo, ela defende que uma mudança radical

deste em relação ao mundo dos antigos é a “valorização que passou a ter a economia na descrição de que é o humano”. Quanto ao trabalho, foi alçado ao degrau de valor fundamental “e a vida contemplativa, no sentido grego, foi cada vez mais devorada pelas exigências e necessidades da vida biológica – do labor” (BENDASSOLI, 2006: 12).

As concepções arendtianas têm sido atualizadas por diversos pesquisadores que reforçam a atualidade das suas contribuições para a análise das mudanças impressas no constructo contemporâneo de trabalho (LAFER, 1979; TELLES, 1990; DUARTE, 2000; BATALINI, 2003; BENDASSOLI, 2006).

Uma de suas principais contribuições teóricas parte da utilização da idéia de

Vida Ativa que, em contraposição à Vida Contemplativa, define as “manifestações

humanas concretas que projetam o agente no mundo”. A Vida Ativa é definida pelas atividades complementares do “labor, fabricação e ação” 12 e equivale à manifestação humana que “gera intervenção no mundo”, modificando a natureza pela produção do

homo faber, aquele que fabrica um mundo comum com produtos tangíveis que podem

ser partilhados socialmente.

12 As traduções de “labor, work e action tem sido feitas de diversas formas, modificando-se

principalmente a palavra “fabricação” por “trabalho” ou “labor” como “trabalho”. Nesta tese, utilizaremos a tradução do livro “A Condição Humana” feita em 1999 que considera “labor, fabricação e ação”.

Para Arendt, as sociedades modernas tornam-se sociedades de trabalhadores, e o foco econômico, o principal critério de convivência social na esfera pública, reduzindo o homem a um “animal laborans” (ARENDT, 1999:15).

O processo de alienação e estranhamento, contido no trabalho assalariado e controlado, extrai do homem apenas a sua energia laboral, na medida em que ele não concebe nem toma decisões sobre o produto da fabricação e é “prisioneiro da própria individualidade, seja pela concordância, seja pela falta de conflito” no espaço social produtivo (ARENDT, 1999:134-136; 2002a).

Assim, a esfera pública e a privada correspondem a uma distinção entre o que pertence ao comum e o que pertence ao particular. No “domínio privado vive-se (sic) as experiências que não deviam ser discutidas nem partilhadas”, pois não dizem respeito a ninguém, definindo assim o privado não como propriedade particular de algo, mas um espaço onde se está “privado do convívio com os outros”. A noção central do espaço público é a da liberdade, como um direito igual para todos de se expressar e tratar de seus interesses. Estão caracterizadas aí a possibilidade de comunicação e de entendimento mútuo e o fundamento da atividade política que tem como foco a vida em comum e não em si mesmo (ARENDT, 2002b). Na definição arendtiana, a esfera pública significa, em primeiro lugar, o espaço no qual as pessoas podem ser vistas e ouvidas. Em segundo lugar, corresponde ao “mundo comum”, expressão que designa a igualdade e a diferença, decorrentes da existência de condições comuns a todos os homens e das distinções relacionadas ao lugar que cada um ocupa dentro do mundo. Além disso, como todo “intermediário, o mundo comum” ao mesmo tempo em que separa, estabelece uma relação entre os homens.

O conceito de vida em comum ou mais precisamente “mundo comum” para Arendt não é, nesta acepção, correspondente à terra ou à natureza como espaço limitado

para o movimento dos homens e condição geral da vida orgânica, e sim, o “artefato humano, o produto de mãos humanas, com os negócios realizados entre os que, juntos, habitam o mundo feito pelo homem”. Tal concepção significa que a realidade não é garantida pela ‘natureza comum’ de todos os homens que o constituem, mas, sobretudo, pelo fato de que, a despeito de diferenças de posição e da variedade de perspectivas, todos estão sempre interessados em objetivos coletivos (Arendt, 1999:59-62).

Nos termos arendtianos, “o agir político” define um sujeito ativo como aquele que se expressa por meio da presença participativa nas deliberações e ações de caráter público, permitindo a pluralidade. Experimenta, assim, pela dependência mútua “nas relações em comum com os demais”, a possibilidade de renovação das experiências humanas individuais, permitindo a estruturação do sujeito pelo convívio.

A possibilidade de expressão torna-se ponto central de uma experiência de autorepresentação por meio do trabalho, pois, para Arendt, o indivíduo ao agir entre os outros, revela-se para si mesmo e para o outro pela palavra. O aparecer no mundo público é então um co-aparecer, visto que aqueles para quem se aparece, também aparecem para o autor da ação, e esta é uma condição comum aos homens: poderem ver e serem vistos, ouvir e serem ouvidos, tocar e serem tocados. Assim, nada poderia aparecer se não houvesse receptores capazes de reconhecer e reagir ao aparecimento – o mundo recebe o sujeito (ARENDT, 2002b). Encontra-se aí, também, na possibilidade de revelação aos outros, o reconhecimento da singularidade de cada existência. Por intermédio do agir político, os homens podem experimentar o significado das coisas, ao poderem falar e serem inteligíveis entre si e consigo mesmos.

Em recente estudo sobre as práticas sociais nas empresas, Silva (2004) analisa que, mantendo as condições alienantes do trabalho industrial, não há espaço para a “política” nas organizações, mas sugerindo-se políticas de recursos humanos e

propostas de trabalho em grupo (equipes), ocorre uma tentativa de apropriação dos interesses privados dos trabalhadores como forma de mobilizar ações voltadas ao atendimento de resultados organizacionais, como se estes fossem de ordem pública.

O autor relata diversas práticas organizacionais e mudanças nos processos do trabalho como formas atuais de as empresas alcançarem “envolvimento” dos empregados e promoverem participação e mobilização constantes para a ação, reforçando comportamentos como os de pró-atividade e iniciativa, com apelos de cunho coletivo.

Silva (2004) afirma que, para que este envolvimento ocorra de fato, seria necessária uma “conexão com interesses ligados à esfera da vida privada”. Segundo o autor,

é preciso, em primeiro lugar que o envolvimento [...]– afete o interesse ligado às coisas da “intimidade”, da “casa” onde habita o sagrado e o indizível. Mas, para que se complete a trajetória da auto-representação de si, é preciso também, por outro lado, que ela se confronte com os outros, a fim de “ganhar” essa auto-representação mesma. Por tal via, isto é, pela via do reconhecimento em um espaço público, toca-se então no nervo da subjetividade (SILVA, 2004:183).

Nas experiências de trabalho realmente coletivas, o reconhecimento pelos indivíduos das coisas que possuem sentido e os fariam querer manter um comprometimento ou uma opção consciente de pertencimento precisa incluir uma atuação política nos “micro-espaços públicos, espaços onde se requer envolvimento, responsabilização e tomada de decisão” (SILVA, 2004).

Se a ação política, nos termos arendtianos, tem como condição humana a pluralidade, em que o homem precisa assumir a verdade de que não está só, mas entre outros, o debate público e a ação coletiva são os instrumentos para se alcançar a concordância e definir um curso de ação (ARENDT, 2002a, 2002b).

Considerando a definição de agir político e de sujeito ativo de Hannah Arendt, pode-se destacar que os aspectos constitutivos de um trabalho não subordinado totalmente à racionalidade econômica requerem uma dimensão relacional pautada na

pluralidade, na qual o homem precisa assumir que não está só, mas entre outros; na liberdade como participação democrática que exige o espaço público da palavra e da

ação, e não na liberdade da não-interferência que evidencia um espaço privado somente; no foco em um mundo comum, pela inserção em esferas sociais nas quais os trabalhadores possam buscar atender a seus interesses, interferindo no mundo com base em seus interesses coletivos mediante a experiência política do debate de idéias e projetos.

Importa ressaltar que os aspectos mencionados alcançam maior relevância nas relações de trabalho em rede. Por conseguinte, estas experiências podem ajudar a entender as possibilidades de novas práticas sociais que se configuram no pós-fordismo e se disseminam como modo de pensar o trabalho de forma ampla.

Além do mais, considerando que o potencial de ação indeterminada que reside no trabalho como potência subversiva poderia revelar uma relação criativa, política e comunicativa, cumpre trazer luz às experiências concretas e discutir as condições que impulsionam a participação, os conflitos, a coesão ou a desestruturação de um “mundo comum”.