9 Energibruk
9.4 Resultater, energiberegning og energimålinger
De acordo com Thomas (1982), a segunda Visita desde o estabelecimento da Companhia de Jesus na América relacionava-se, fundamentalmente, com assuntos internos da Ordem. “Estes, porém, estavam em conexão estreita com as atividades dos jesuítas no cuidado dos índios e, por isso, tocavam diretamente na política indigenista real” (THOMAS, 1982, p. 117).
O visitador saiu de Lisboa em 5 de março e chegou à Bahia no dia 9 de maio de 1583. Porém, antes de embarcar para a sua Visita à Província do Brasil, o padre-geral Cláudio Aquaviva passou-lhe uma Instrução particular, em que declarava o duplo objetivo da Visita. Fim principal: para “consolação137 dos nossos que trabalham naquela vinha tão estéril, laboriosa e perigosa”. Fim particular: para “ver como se guarda a disciplina religiosa, segundo o Instituto; e o que toca a Constituições, regras e obediências de Roma faça se executem, e meta tudo em ordem, quanto as circunstâncias das pessoas e lugares o sofrerem”. Dizia-se, continuava o padre-geral, “que os Padres Provincial [Anchieta], Gregório Serrão e Luis da Grã são pouco regulares e pouco dados às Constituições, e que, em geral, os súbditos procedem da mesma forma, frouxa e pouco regularmente. Veja bem isto, que tanto vai, e trabalhe por entender a raiz e o remédio que se pode ter” (AQUAVIVA, HCJB, II, p. 490 – grifos meus).
Repare-se o quanto era clara a determinação de Aquaviva: a Visita era para consolar, mas também para punir, a fim de que se “metesse tudo em ordem”138. Penso que é importante
137 De acordo com Castelnau-L’Estoile, a consolação era a essência do processo dessa Visita. Ela aparecia nos diferentes níveis do texto: Cardim contava a seus leitores a “consolação” que experimentou quando da visita ao Brasil. Ele transmitia a experiência de consolação a seus leitores. Contudo, é necessário recordar que, conforme já foi salientado no capítulo anterior, a consolação é um tema recorrente na espiritualidade inaciana; é uma das “moções interiores” que o praticante dos Exercícios espirituais deve aprender a reconhecer em si “desde a primeira semana” (CASTELNAU-L’ESTOILE, 2006, p. 386).
138 A primeira visita, de Inácio de Azevedo, teve outro “tom”, conforme é possível ver na carta reproduzida na sequência. Acredito que é possível perceber aqui alguns indícios de deslocamentos nos modos de “vigilância” dispostos pelo centro da Ordem em Roma sobre os jesuítas. A meu ver, no período inicial da catequese, havia problemas e questões a serem “corrigidos”, mas as Visitas feitas no tempo de Aquaviva revelaram um forte embate entre Roma e a Província do Brasil, no qual aparecia claramente a discordância de Roma sobre o que se praticava por aqui. Confira-se o excerto referente à Primeira Visita, no qual se faz questão de usar a palavra “suavidade”: “Carta do P. Francisco de Borja ao P. Inácio de Azevedo, Roma (fim de fevereiro de 1566). Usando de rigor não se esqueça do amor e suavidade. Lo que mucho encomiendo a V. R. es que mire que sus travajos sean ordenados de manera que merezca durar en ellos para mayor glória divina, y que usando del rigor no se olvide del amor y suavidade que la Compañia usa, a trueco de buscar algunos medios de mayor efficacia para que todos vengan a sentir una cosa o a lo menos no se les haga demasiado pesada. Esto digo en todo lo que se puede, temiéndose cada uno de su natural condición para no dexarse llevar della en daño del bien universal. Espero en el Señor, que en esto y en lo demás dará su gratia y luz para que le sea la jornada muy agradable y de
frisar esses termos, sobretudo porque eles estavam, por assim dizer, em sintonia com a ideia de “vigilância” que venho trabalhando desde o Capítulo I deste texto, e também porque aparecia claramente aqui o desejo do geral de unir o corpo disperso. Bem, mas o que estava em desordem? Repare-se que nem mesmo Anchieta, como provincial, escapava da possibilidade de ser averiguado pelo visitador. O que o geral via no Brasil era um corpo disperso, que agia de forma “frouxa e pouco regularmente”. Penso que há muitas razões para que ele fizesse tais recomendações. Dentre elas, certamente estava o envolvimento dos padres com “questões temporais” e também o fato de muitos estarem “se perdendo” no trabalho junto aos índios. Certamente as notícias que chegavam a Roma sobre a Província do Brasil não eram boas e as cartas revelavam, de fato, que havia muita coisa “fora dos eixos”, conforme se verá.
Além dessa “instrução particular” dada por Aquaviva, o visitador vinha “munido” de uma licença especial, que, conforme compreendo, era “carregada de poder”: ele era também o “homem de confiança” da Inquisição. Veja-se a licença que ele trouxe para os seus companheiros jesuítas:
Licença do inquisidor-geral dos Reinos e Senhorios de Portugal para se fazer uso
de livros proibidos.
O arcebispo de Lisboa, inquisidor-geral nestes Reinos e Senhorios de Portugal, vem fazer saber aos que se apresentem, que pela confiança que temos nos padres
da Companhia de Jesus..., havemos por bem de dar ao Pe. Visitador da dita Companhia na Província do Brasil que ora estará diante dos superiores dos Collegios da Baía de Todos os Santos, Rio de Janeiro e Pernambuco da mesma Cia... para que cada um deles por si, ou por pessoas suficientemente deputadas por eles da dita Companhia possam rever, examinar, censurar todos os livros,
opúsculos, tratados, escritos ou papéis ainda que não tenham nome do autor...
conforme o catálogo tridentino... aos 4 de setembro de 1582, Arcebispo. Inquisidor-Geral (ARSI, Bras. 2, fl. 39 – grifos meus).
Repare-se que eram os jesuítas que determinavam o que seria proibido e o que seria permitido. Eram eles os “homens de confiança” da instituição que era, certamente, a mais “temida” daquele período: a Inquisição. Outro dado interessante que aparecia era a referência ao “catálogo tridentino”, numa clara explicitação do quanto a “pedagogia da vigilância” disposta pelo Concílio também chegava por aqui e procurava determinar as práticas do período.
Gouveia trazia consigo o companheiro de Visita, Fernão Cardim, e Pe. Rodrigo de Freitas e Ir. Barnabé Tello. Deixe-se o próprio visitador contar sobre sua chegada, sua acolhida e as primeiras providências que tomou:
gran provecho para aquella Província. Em sus santas oraciones me encomiendo” (MHSI: Monumenta bBrasiliae
Pax X.
Em esta darei brevemente conta a V. P. do bom sucesso (N. Srº) nos há dado assim na viagem como depois que estamos nestas partes do Brasil. Partimos de Lisboa a 5 de março de 83 os padres Rº de Freitas, Fernão Cardim e o irmão Barnabé Tello e eu: até chegar a esta Baya, glória ao Senhor, procuramos acudir a gente dela... de
que se seguiu em todas muita edificação, especialmente em el Sorº Governador, que sempre nos trata com amor e benevolência. Aos 9 de maio entramos nesta Baya, que para todos os nossos foi grande consolo, verdade é que foi algo aguardado, porque o Pe. Rº de Freitas e eu vínhamos muito enfermos... (ARSI, Lus. 68, fl. 337 – grifos meus).
O fragmento citado ressaltava a boa acolhida por parte do governador – o que, contudo, não representava a realidade vivida pelos inacianos que já moravam na Bahia, pois estes travavam uma batalha contra os “abusos” do governador, como discutido no capítulo anterior. Aliás, certamente Gouveia já estava ciente da situação nada amistosa entre os padres e o governador e um dos objetivos da Visita era justamente tratar desta questão.
Na mesma carta, Gouveia destacava que, logo ao chegar, já começava a colocar tudo em ordem, sobretudo observando e “apaziguando” os “imperfeitos”. Repare-se nos termos. Para mim, eles estavam em perfeita sintonia com as determinações da Igreja contra-reformista e a “pedagogia da vigilância” que ela pôs em cena, aqui representada pelo “que pede nosso Instituto”:
Tendo começada a Visita deste Colégio, e o que em geral posso dizer a V. P. é que
ainda que haja alguns necessitados em Espírito e imperfeitos, todavia não me parece que está tão falho na disciplina religiosa e guarda das regras... e também de sua parte há alguns apaixonados..., desdanando dos superiores que agora há, o que fazem com pouco fundamento e por respeitos particulares, o que há causado não pequena dissensão e desgostos em muitos. Procuro apaziguá-los no melhor que
posso, trazendo-os à união e conformidade que pede nosso Instituto, e parece que se vê alguma melhoria nisto (ARSI, Lus. 68, fl. 337 – grifos meus).
O visitador queria, pois, fazer que tudo fosse conforme aos princípios reguladores da Companhia. Apaziguar conflitos era uma ação de quem gozava de autoridade, que certamente não faltava ao visitador.
Na mesma carta, Gouveia começava a colocar em prática as ordens de Aquaviva, expressava seu entendimento de que Anchieta já não podia continuar como provincial e de como o reitor do Colégio da Bahia, Gregório Serrão, ocupava-se demasiadamente com as “aldeias dos índios e negócios temporais”. Em minha análise, este era um dado interessante para pensar no “lugar” do jesuíta na sociedade colonial. Repare-se que, por conta da ocupação nas aldeias dos índios, o reitor não tinha tempo para “aplicar-se tanto ao espiritual”. Esse é um dilema importante para os padres no período. Os que se ocupavam dos índios e de sua
IV ,1960, p. 330 – grifos meus).
administração acabavam descuidando do “espiritual”. Para Roma, este era um desvio que tinha consequências desastrosas. Veja-se o excerto e suas asseverações:
Estou aguardando a cada dia pelo Pe. José de Anchieta, que anda visitando às partes do Sul e conforme ao que entendo de seu modo de proceder, parece que há
menester sucessor porque tem pouca saúde e anda já mui cansado. O Pe. Gregório
Serrão, Reitor deste Colégio, faz seu ofício mediocremente, é amado geralmente da gente de fora e dos de casa. É mui virtuoso e de muita confiança, mas por sua má
disposição e mui contínuas ocupações com as aldeias dos índios e negócios temporais, que são muitos neste Colégio, não pode aplicar-se tanto ao espiritual dos irmãos e perfeita guarda das regras e assim por isso como por não ter ministro suficiente, nem prefeito das coisas espirituais... parece que não andavam as coisas tanto em ordem: pus por ministro o Pe. Antonio Gómez; prefeito das coisas espirituais... ora que pode ser... o Pe. José de Anchieta, deixando o seu ofício... (ARSI, Lus. 68, fls. 337-337v – grifos meus).
Os problemas não paravam por aí, no entanto. No trecho que se copia na sequência, o visitador já destacava uma questão de difícil solução: como agir perante a escravidão? Veja- se:
Já me parece que V. P. tem entendido as opiniões do Pe. Miguel Garcia, acerca dos escravos que vêm de Angola e do Brasil, que nenhum são justamente cativos, e por isto... não guardam confessar... aos superiores e mais padres e irmãos da Compª.,
porque dizem que também temos escravos: está tão duro neste parecer, que diz que se não fosse revelação de Deus ou determinação do Sumo Pontífice, não largará... Sabendo isto eu em Portugal e vendo quão prejudicial e escandalosa é esta opinião, e nestas partes, o quanto se poderá sentir o Rei de Portugal inquietando-se seus vassalos... e que na mesa de consciência real se vem dado por contrato seguro: procurei informar-me dos Pes. de Angola e do Bispo de S. Thomé, do modo que há ali em capturá-los e trouxe acerca disso os pareceres em escrito dos Pes. Fernam Perez, Luis de Molina e Gaspar Gtz, para aqui tratar o caso com os Pes. Quirício Caxa, Ignácio Tolosa e outros letrados e depois de aqui tratar a coisa com estes pes.
vendo que as opiniões de Pe. Garcia eram mui opostas ao comum de todos, perigosas e escandalosas em estas partes e que ele estava com elas mui acirrado, sem querer dar lugar à razão nem crédito a tantos Pes., nos pareceu a todos, que não teria nenhum remédio nesta Província e que de toda era inútil para ela e que fazia dano nela com suas opiniões tão escrupulosas e com o escândalo que dá muita liberdade que mostra contra os superiores... e por isto me determinei com parecer de todos os Pes., enviá-lo a sua Província, como ele mesmo pedia e desejava, porque em detê-lo cá mais havia grande perigo de perder-se de tudo e fazer grande dano com suas opiniões... e parece que poderá servir na Compª estando lá onde não tenha escravos que confessar... (ARSI, Lus. 68, fls. 337v-338 – grifos meus).
O visitador apontava ainda a pouca vontade, por parte de alguns jesuítas, de atuarem nas aldeias junto aos nativos e de aprenderem a “língua do Brasil”. Contudo, buscando recurso na “experiência que há”, o visitador defendia a permanência do jesuíta na aldeia, já no período de estudos. A posição de Gouveia a respeito, como se verá adiante, seria claramente contestada por Aquaviva. Repare-se no texto:
E nos estudos e diligência de saber a língua do Brasil, há muita frieza e pouco gosto destas nas Aldeias, e se vão acabando os línguas. Comunicando isto com os
Pes., pareceu que seria bom remédio que os noviços, acabados os dois anos de
probação, fossem às aldeias, a aprendê-la, antes que comecem outros estudos... Porque... é mui importante que os que governam esta Província saibam a língua do
Brasil. Pareceu-me a fazer que aprendam logo a língua, pela experiência que há, que os que vêm de Portugal poucos são os que de verdade se dão a ela nem a
tomam facilmente e os que aqui se criam se primeiro os metem em estudos de casos e a estes têm-se depois por mal empregados nas aldeias, nem se aplicam tão facilmente a saber a língua e para este efeito residem quatro em cada Aldeia, dois Pes. e dois irmãos... como V. P. me há encomendado, para que quando saírem de casa vão acompanhados e possam entre ano algumas vezes virem ao Colégio e renovarem-se em Espírito e também para que um Pe. com outro se possa confessar... (ARSI, Lus. 68, fl. 338 – grifos meus).
Repare-se que o visitador estava preocupado com a questão da aprendizagem da “língua do Brasil”. Para Gouveia, saber a língua da terra era essencial para o bom governo da Província. Mas penso que, especialmente aqui, aparecia também a questão que chamo de “lugar” do jesuíta na sociedade colonial. O conflito se dava, sobretudo, no entendimento do que era a principal missão do padre: morar na aldeia ou no Colégio? Aprender a língua longe das “tentações” da aldeia ou ir morar entre os que falavam a “tão desejada” língua da terra? Os que “se metem em estudos” estariam “mal empregados” nas aldeias? Se é assim, qual o perfil dos padres que trabalhavam com os índios? Este conflito continuava com o passar dos anos e causava muitas controvérsias, conforme se verá.
Na mesma carta, o jesuíta falava do número escasso de missionários atuando na Província do Brasil. Por isso, ao final aparecia a sugestão ao geral que enviasse mais alguns “obreiros” que “sempre terão em que ocupar-se”. Veja-se o fragmento:
Os Pes. e irmãos deste Colégio, parece-me que estão bem ocupados e têm... que fazer com as predicações ordinárias de nossa Igreja e da Igreja maior e outras partes a que acudem e com contínuas confissões na cidade e fora dela, principalmente as mulheres, escravos de Guiné e índios da terra. Em ensinar-lhes a doutrina todos os dias em nossa Igreja, os padres que pregaram são alguns leitores e seus discípulos, porque não há nenhum desocupado, somente para pregar. E nesta comarca desta cidade há muitas fazendas de portugueses que têm 200, 300 e mais pessoas, que vivem com [hasta] necessidade, sem ter curas nem ministros de
sua salvação, e assim não se confessam, nem há Missa em muitas partes, nem a Palavra de Deus, senão quando vão os nossos por suas fazendas... seria grande serviço de N. Sr. se se fizessem... estas missões e andassem cinco ou seis padres com seus companheiros, rodeando e visitando estas fazendas, para casar os amancebados, catequizar, batizar etc. Porém, são tão poucos os que há aqui desocupados de letras, prudência e virtude para isto, que mui poucas vezes se podem fazer: posto que se parecesse a V. P. enviar alguns obreiros... sempre terão
em que ocupar-se (ARSI, Lus. 68, fl. 338-338v – grifos meus).
O trecho reproduzido adiante é relevante por evidenciar as dificuldades apontadas pelo visitador na relação entre os padres e os colonos portugueses. Para mostrar as dificuldades, Gouveia apontava quatro causas e reconhecia a parcela de culpa dos inacianos. A meu ver, quando o visitador assim procedia, deixava clara a sua disposição de mudar as práticas e
estabelecer novas regras para a Província, sobretudo no que concernia ao poder secular que os padres detinham sobre os índios aldeados. Observe-se:
Uma das coisas que há de mais importância nesta Província e que penso que não poderá tão facilmente remediar, é uma geral aversão e murmuração que os
portugueses têm dos nossos, da qual nasce dizer contra nosotros, muitas palavras de escândalo e darem muitas queixas ao rei e ao governador... As principais causas desta geral murmuração são: a 1ª: por algumas opiniões que há entre os nossos, que parecem demasiadamente escrupulosas e contra o comum governo desta terra, como são acerca dos cativeiros e escravos e do modo que se usa de se ter por força os índios livres em perpétuo serviço, sem pagar-lhes nada ou mui pouco; 2ª porque
recolhemos em nossas aldeias os índios... 3ª porque não se-lhes dão das aldeias todos os índios que pedem para seu serviço, posto que padecem falta em suas fazendas, porque não têm quem [los haga], nem os sirva; 4ª por algumas terras que
nos têm dado, parte das quais pretendem algumas pessoas serem suas... Bem que creio que em todas estas coisas, ou ao menos em algumas delas, há havido algum
excesso de nossa parte... (ARSI, Lus. 68, fl. 338v – grifos meus).
Como já apontado no capítulo anterior, a crise financeira também atingia a Província do Brasil nesse período139. Mas aqui se apresentavam outros complicadores, tanto que não havia quem estivesse disposto a emprestar dinheiro aos padres. O fragmento logo a seguir é da mesma carta anterior e trata deste problema:
porque dizem que nesta terra não há dinheiro com que pagar e por esta causa, tem este Colégio, para remédio de suas necessidades pedido emprestado, mas de mil ducados e não acham facilmente pessoas que tenham nem queiram emprestar-nos
dinheiro e com isto padecem os nossos tantas necessidades sem haver remédio: até agora, como os tempos eram outros, sempre havia algum modo de paga, porém,
agora nem mal, nem bem podemos ser pagos, dizendo que não há dinheiro do Rei e que têm necessidade deles para as armadas: e como alguns oficiais destas são de nós avisados pelas causas acima ditas, andam com nosotros nestas dilações (ARSI, Lus. 68, fl. 339-339v – grifos meus).
139 Penso que, para situar as condicionantes históricas dessa crise financeira, há que levar em consideração o período da União Ibérica. Nesse sentido, é importante interrogar: o que significou a administração espanhola para a Companhia de Jesus do Padroado português? De acordo com Assunção, “nesta ocasião, a Ordem foi sensivelmente abalada pela insistência de Filipe II, da Espanha (1580-1598), junto ao papa, para que interferisse no governo e revogasse privilégios anteriormente concedidos, gerando dúvidas e desconfianças em relação ao Instituto, que teve o seu nome considerado como ‘injurioso às outras Ordens’, bem como em relação ao próprio Pe. Aquaviva, vitimado pelas articulações de jesuítas insatisfeitos, que conseguiram, perante o Papa Clemente VIII (1592-1605), a convocação da Congregação Geral, para investigar o seu governo. A quinta congregação, reunida em 1592, examinou e deliberou a lisura com que o geral vinha conduzindo a Instituição, aproveitando para definir sobre a proibição da entrada, na Companhia, de membros descendentes de mouros e judeus, considerados os geradores de discórdias. Apesar da absolvição, os problemas não terminaram. Os ataques externos, aliados à conjuntura política europeia conturbada, favoreceram o surgimento de denúncias que acusavam os jesuítas de terem participado do atentado de Henrique III e de Henrique IV da França e de conspirarem contra Isabel e Jaime I da Grã-Bretanha. Num universo confuso, onde as acusações cresciam sem que houvesse tempo hábil para dirimir as imprecisões, verifica-se uma tendência do poder temporal a tentar interferir diretamente nas questões internas da Ordem, especialmente durante o período filipino, momento em