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A questão de as pessoas não pouparem pode ter a ver com diversos fatores. Alguns erros são muito comuns, Glink (1999), na sua lista coloca como principal motivo o facto de as pessoas tenderem a deixar para amanhã. De acordo com um estudo de Lusardi (1999, 2003) e Yakoboski e Dickemper (1997), um terço dos adultos na década de 50 não conseguiram implementar qualquer tipo de plano de poupança para a reforma.

Apesar de alguns estudos apresentarem algumas propostas sobre o motivo pelo qual algumas pessoas não planearam poupanças para a reforma, poucos são aqueles que analisam os custos que essa ausência de planeamento pode ter nas decisões de poupança para a reforma. Calvert, Campbell e Sodini (2007), apresentam estudos sobre tópicos relacionados, mostrando que as famílias com maiores rendimentos estarão mais predispostas a investir em ações.

Townsend (1979), mostra que a classe e a origem profissional dos indivíduos influenciam o facto de estes pouparem ou não, e que aqueles que pertencem a uma classe com menor rendimento ou com menos sucesso profissional, têm rendimentos mais baixos, são menos ativos e têm menor probabilidade de terem constituído poupanças (Taylor e Ford, 1983). Pertencer a uma classe com maior rendimento, está associado a conhecimentos mais aprofundados e maiores noções de planeamento, enquanto que em classes com menores rendimentos, o planeamento de poupanças era

17 baseado apenas na preocupação com o futuro. Segundo Keynes e a sua lei psicológica fundamental, quanto maior for o rendimento do indivíduo, maior a quantia poupada, indo esta teoria de encontro com a anterior mencionada.

Na mesma linha, Mitchell (1988) e Gustman e Steinmeier (1999), concluem que os trabalhadores parecem ter poucas informações sobre os benefícios a que têm direito, como os da Segurança Social e os da reforma. Para muitos, planear uma poupança não é fácil, e é uma razão de poucos o fazerem. Um estudo realizado pela seguradora AXA (2006), mostra que os indivíduos não são devidamente esclarecidos sobre as suas reformas, assim como o valor delas.

Uma formação escolar mais desenvolvida pode ser um ponto chave no sentido em que influenciaria a forma como o indivíduo olharia para a sua saúde. Um indivíduo com uma alfabetização abaixo da média terá mais dificuldade em acompanhar um tratamento e consequentemente mais problemas de saúde. A formação escolar afetaria o desenvolvimento da saúde, mas não só, iria alterar os seus conhecimentos, os seus hábitos de saúde e o seu desenvolvimento, assim como a sua posição socioeconómica.

Para os autores Ameriks, Caplin e Leahy (2003), o planeamento e hábitos de poupança estão totalmente relacionados com a educação, níveis baixos de educação tendem a estar associados a níveis baixos de rendimento, e aqueles com níveis altos de educação poderão sentir-se motivados a dedicarem-se ao planeamento, pois podem beneficiar mais do que os indivíduos com níveis baixos ou nulos de riqueza.

Hubbard, Skinner e Zeldes (1995), na mesma linha, mostram que um conjunto distinto de indivíduos (com níveis baixos de educação), são os que menos poupam ou planeiam poupar para a reforma, e que além disso, também não têm poupanças suficientes para fazerem frente a situações imprevistas no futuro.

Apesar de Alexandre et al. (2011) não detetarem qualquer relação relevante entre os hábitos de poupança e educação, Alves e Cardoso (2010) associam as poupanças das famílias em Portugal ao rendimento gerado, que depende do nível de educação e da experiência no mercado de trabalho.

18 Outra das razões pela qual as pessoas não conseguem planear uma poupança para a reforma, ou fazê-lo com sucesso, pode ser porque são financeiramente iletradas, aqueles que a planeiam, acumulam uma maior riqueza mesmo antes da reforma, e além disso, como têm uma maior estabilidade económica e melhores recursos financeiros, vivem uma reforma bastante satisfatória (Lusardi, 2003). Esta iliteracia financeira, e as poucas informações a que os indivíduos têm acesso, influenciam a possibilidade destes indivíduos constituírem poupanças adequadas às suas disponibilidades presentes e necessidades futuras.

Para os autores Mano e Elliott (1997) cit. por Tatzel (2002), os indivíduos com maiores níveis de literacia são aqueles que realizam poupanças com base no conhecimento que possuem sobre o mercado, adaptando as suas necessidades às oportunidades que lhes sejam mais vantajosas, reconhecendo que a aquisição de um produto é um investimento para o futuro. O problema surge quando muitos dos indivíduos não conseguem conter os gastos, acabando por inutilizar as suas poupanças, mesmo tendo consciência que serão necessárias em situações de urgência. Nesta dimensão a questão do autocontrolo é fundamental, este pode ser compreendido como a força de um indivíduo se conter em relação à vontade de consumir algo, com o objetivo de usufruir desse dinheiro que poupou futuramente. Pessoas com maior capacidade de se controlarem, tomam as suas decisões focando-se no longo prazo, caso contrário, indivíduos com pouca capacidade de se controlarem, tomam as suas decisões focando- se no curto prazo, o que leva a dizer que o autocontrolo é uma caraterística dos indivíduos (Baumeister, 2002). Este mesmo autor associa o autocontrolo como sendo uma caraterística da personalidade dos indivíduos, variando, portanto, de pessoa para pessoa, estando alguns indivíduos mais propícios a afetarem as suas poupanças de longo prazo assim que estiverem perante situações que estimulem a gastar, como por exemplo promoções. Os autores Romal e Kaplan (1995) também apoiam a teoria de Baumeister, associando níveis elevados de autocontrolo, a níveis elevados de poupança. Verificou-se ainda que o autocontrolo existe tanto em indivíduos de alto rendimento, como nos de baixo rendimento, mas por motivos diferentes. Nos de baixos rendimentos, é devido à precaução e indecisão futura, nos de altos rendimentos, é devido ao maior conhecimento e planeamento do orçamento.

19 As famílias que não planeiam a reforma acabam por ter poupanças muito mais baixas do que as famílias que fizeram o contrário. Hurst (2003) confirma que famílias que não planearam uma poupança, têm quantidades mais baixas de riqueza na reforma.

Lusardi (1999, 2003) demonstrou que um dos maiores problemas dos indivíduos é o facto de não pensarem e preverem a chegada da reforma, mesmo estando a sua data de chegada muito próxima, justificando esta despreocupação pelo facto de talvez os indivíduos não desejarem parar de trabalhar.

A existência da segurança social pode ser um fator que faça com que não haja hábitos de poupança, pois as pessoas podem estar a contar com a ajuda da mesma na reforma, este sistema deveria ser capaz de orientar os indivíduos combatendo a escassez de bens e serviços, a pobreza e a exclusão social.

Segundo Feldstein (1974, 1978) e a sua tese de depressão, afirma que a segurança social faz com que haja um menor nível de poupança. Com base nesta, surge uma outra tese contraditória, a tese do incentivo, que defende que a segurança social pode sim levar a um aumento da poupança e não à sua diminuição (Cagan, 1965).

Feldstein (1974), que foi o autor de uma das primeiras pesquisas sobre o impacto negativo que a Segurança Social tem na poupança, afirma que este sistema faz com que os indivíduos não se preocupem tanto com as suas poupanças e estas decresçam, pois esperam receber benefícios elevados quando se aposentarem, logo terão uma tendência a reduzir sua poupança no período ativo, não iria poupar no presente pois iria contar com garantias do Estado no futuro.

O Sistema da Segurança Social é realmente um fator que interfere nas decisões de poupança dos indivíduos e das suas reformas. É um sistema que não disponibiliza muitos incentivos para a população poupar, ficando as famílias com pouca necessidade de acumular riquezas.

Mais recentemente, a Segurança Social tem apresentado algumas marcas de i suste ta ilidade, e as ausas ue le a a a isso fo a o e elhe i e to demográfico, aumento de dependência dos idosos, aumento da esperança média de

20 vida, redução da taxa de natalidade que tornará o sistema de proteção social i suste tá el a p azo i di ia do u ag a a e to dos ustos as o tas do Estado (Silva, 2010 p.37). Um dos fatores que contribui para essa insustentabilidade é o facto de a idade média com que as pessoas se reformam, comparado com a idade de reforma, ser cada vez mais precoce.

Como podemos ver na Figura 1, a idade média em que os indivíduos se reformaram é 62,6 anos no ano de 2017, sendo a idade de reforma nesse ano apenas aos 66 anos e 3 meses.

Figura 1 – Idade Média de Reforma/Aposentação em Portugal Fontes/Entidades:ISS/MTSSS,PORDATA

21 O aumento da esperança média de vida coloca desafios importantes à sustentabilidade do sistema de segurança social (Fernandes, 2014). Adicionalmente, há outros fatores que também contribuem negativamente, sendo eles o número de indivíduos que se reformam antecipadamente e a redução dos indivíduos ativos (Fernandes, 2014). A confirmar esta interpretação, estão os autores Barr e Diamond (2008), afirmando que a vulnerabilidade da Segurança Social reside na dificuldade de esta se adaptar a fatores de longo prazo.

Coile e Gruber (2007), para além do fator do aumento da longevidade, destacam também uma outra realidade, sendo que muitas vezes os Sistemas da Segurança Social levam a que os indivíduos de mais idade não se envolvam no mercado de trabalho, pois existem incentivos, em muitos casos, a que os indivíduos se reformem antecipadamente. E Diamond (2005), defende que não existem muitas medidas que incentivem os indivíduos a trabalharem após a idade de reforma.

Ziliak (2003) defendem que os indivíduos ao esperarem apoios da Segurança Social diminuem a sua poupança, na expectativa de receberem os apoios que a mesma disponibilizar-lhes-á.

2.3.3. Possíveis medidas/motivações que ajudem as pessoas a constituírem hábitos de