Para ter educação de qualidade, conforme revelam estudos empíricos, é preciso ter professores bem formados.
De acordo com o grupo de pesquisas Prapem da Faculdade de Educação da Unicamp, os programas de formação de professores, bem como os estudos
sobre o ensino e suas aplicações têm acompanhado historicamente as concepções teóricas e sociopolíticas de cada época.
Pesquisas internacionais revelam que, até o final da década de 1960, a formação de professores consistia em programas emergenciais voltados para a solução de problemas com o número necessário de professores.
Até finais de 1970, em muitos países, o tipo de pesquisa educacional predominante era composto por estudos experimentais quantitativos sobre a eficácia de diferentes métodos para treinar professores em tarefas específicas. A preocupação era modelar o comportamento do professor e examinar os efeitos de algumas estratégias de ensino, visando a identificar estudos sobre o que é um ensino eficiente.
A partir da segunda metade de 1980, ocorreram algumas mudanças educacionais. De um lado, uma visão do ensino como uma arte, algo que não poderia ser ensinado fora das escolas, pois o desenvolvimento das habilidades só seria possível por meio da prática. Por outro lado, coexistia uma visão de ensinar como uma profissão. Isso envolvia “além do treinamento, a internalização das várias teorias referentes a ensinar ler, escrever, discutir, pesquisar, etc”. (Hoyle e John 1998, p. 71).
No Brasil, até meados de 1980 havia poucas pesquisas sobre a formação de professores e menos ainda sobre docentes de Matemática. No entanto, Fiorentini (1994) analisou 204 teses e dissertações focalizando as tendências temáticas e teórico-metodológicas, as indagações que foram objeto de investigação, os pesquisadores e orientadores dos estudos, e os programas em que foram produzidos.
Este estudioso verificou que as pesquisas tinham como preocupação os cursos e programas que contribuíam para a melhoria da formação do professor e, em última instância, do ensino de Matemática. Em sua maioria, as pesquisas apresentaram resultados genéricos que enfatizavam o desempenho dos sujeitos diante dos instrumentos em termos de aumento de competências.
Na década de 1990, partindo de uma perspectiva mais global e sistêmica, os pesquisadores analisaram os processos de mudança e inovação baseados nas dimensões organizacionais, curriculares, didáticas e profissionais, visando a identificar os modelos de desenvolvimento profissional e as diferentes fases desse processo. Nessa década, no Brasil começam a serem discutidos novos programas educacionais com propostas de novas perspectivas. Mas, percebe-se um descontentamento com a forma e a estrutura atual dos cursos de licenciatura, pois os futuros professores, geralmente, têm um acompanhamento muito superficial durante o processo formativo, o que representa uma contraposição à perspectiva vigente, na qual os docentes deveriam beneficiar-se dos conhecimentos produzidos pelas universidades para poder aplicá-los no cotidiano.
No entanto, apesar de tantas incongruências, ainda hoje, a formação dos professores é um processo resultante da inter-relação de teorias, modelos, princípios extraídos de investigações experimentais e regras procedentes da prática que possibilitam o desenvolvimento profissional do docente.
É preciso compreender que o docente está sempre aprendendo. Mas esse processo depende do tempo, das experiências vividas, das oportunidades e do apoio que recebe dos colegas e familiares.
Atualmente, os jovens não vêm interessando-se em cursar algum tipo de licenciatura para se tornar professor. Assim, a falta de docentes bem formados e a insuficiência de profissionais para algumas áreas disciplinares dos últimos anos do ensino fundamental e médio é discutida, tanto em artigos acadêmicos como na mídia. Do mesmo modo, divulga-se não só a tendência de queda na demanda pelas licenciaturas e no número de formandos, mas também a mudança de perfil do público que busca a docência.
O Relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE (2006), que reúne um conjunto de dados de realidades de diferentes países, explicita que a preocupação não é só de atrair os professores para a carreira docente, mas manter os professores qualificados em termos de conhecimentos e habilidades na profissão. Entretanto, a ausência de professores nas áreas de ciências exatas é muito grande, sobretudo, no Brasil.
Dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2012 indicam que 25% dos professores das redes municipais e pouco mais de 30% dos docentes das redes estaduais brasileiras possuem contratos temporários de trabalho. Estes dados apontam para a necessidade de que sejam realizados concursos públicos em diversas redes, de modo a cumprir a legislação nacional sobre o tema e dotar as escolas com profissionais capazes de atuar em sala de aula com condições adequadas de trabalho.
No Brasil, a forma de ingresso dos docentes nas redes públicas de ensino está regulamentada na Constituição Federal. Consta no artigo 206 que um dos princípios do ensino é a: “V- valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006)”.
Gatti e Barreto (2009, p. 252), ao analisarem algumas pesquisas referentes à valorização do magistério brasileiro, mencionam que um dos fatores enfatizados como valor é a existência de concurso para ingresso na carreira “sendo esse considerado fator primeiro de detecção da qualificação dos candidatos à docência”. Outro fator como ressaltam as autoras, que poderia acrescentar valor à carreira docente, seria a regulamentação da avaliação de desempenho no estágio probatório. Elas explicitam que “o estágio probatório, quando bem conduzido, cria uma aura de responsabilidade e uma imagem pública de serenidade, na ideia de garantia para os pais de competência profissional”. (Gatti; Barreto, 2009, p. 253).
Da mesma forma, Peterson (1990), afirma que, apesar de alguns professores terem uma boa formação inicial, geralmente apresentam necessidades distintas e previsíveis de assistência profissional se comparados a professores mais experientes. O pesquisador destaca que, além de apresentar familiaridade restrita em relação aos alunos e recursos com os quais irão trabalhar, os iniciantes tenderiam a ter atitudes irrealistas sobre o trabalho, como por exemplo, a utilização de metodologias de ensino muito limitadas, a necessidade em relação à socialização com o grupo de colegas e outras
Considerando os desafios e dificuldades que os docentes enfrentam, Fanfani (2007) menciona que a sociedade espera mais do que a escola pode produzir, ou seja, existe uma distância entre a imagem ideal da função docente e a realidade relacional e temporal de sua prática. No cotidiano da escola, o professor para desenvolver sua atividade de ensinar, precisa lidar com os problemas de indisciplina e violência, com a falta de interesse dos alunos, com a necessidade de trabalhar com um número maior de alunos e desenvolver sua tarefa educativa na e para a diversidade. E mais, a introdução das tecnologias de ensino no trabalho docente produzem mudanças na relação com o conhecimento, gerando sensação de obsolescência em muitos profissionais da educação.
Em estudo sobre o abandono da carreira docente, Lapo e Bueno (2003, p. 76) mostram que, no grupo de professores estudados, nenhum queria realmente ser professor: "Ser professor era a escolha possível no começo da vida profissional. Tornar-se professor aparece como a alternativa passível e possível de sonhar em ser médico, advogado, veterinário ou qualquer outra profissão." Aparentemente, o que se observa é que a atividade docente apresenta alguma possibilidade de oferta de trabalho com base em um curso de formação considerado acessível, o que faz com que alguns alunos ingressem em cursos superiores de Pedagogia ou licenciatura sem o real interesse em atuar como professor.
Em uma pesquisa com uma amostra de estudantes do ensino médio, Gatti et al. (2009) constataram que apenas 2% dos entrevistados declararam ter a Pedagogia ou algum tipo de licenciatura como primeira opção no vestibular. E mais, há evidências de que quanto menor a nota do aluno no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), menor a escolaridade dos pais e menor a renda familiar. Isso justifica a maior probabilidade de o estudante querer tornar-se professor de educação básica.
Assim, é importante que as discussões sobre a atratividade da carreira docente considerem as fortes contradições evidenciadas pelas pesquisas relativas ao "estar professor", que oscilam entre satisfações e frustrações, entre opção e necessidade. Os sentimentos de desconforto profissional construídos pelos professores em exercício são consubstanciados em representações que
extravasam comentários e atitudes e impactam os jovens no convívio cotidiano com os professores, bem como extravasam em outros ambientes sociais.