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As grandes cidades modernas vão se constituindo e se expandindo a partir de ideais que emergem no próprio momento sócio-histórico conhecido como modernidade. Esse momento advém da Revolução Industrial e da expansão do capitalismo e é marcado por noções de racionalização, organização, progresso e igualdade (HARVEY, 2009). Esses ideais vão surgir na própria organização espacial proposta para dar conta das rápidas transformações sociais que ocorriam com a expansão do capitalismo e dos problemas gerados pelas duas grandes guerras que assolaram a Europa: o urbanismo moderno.

Essas noções se expressam na própria forma de organização dos espaços urbanos, como o zoneamento monofuncional das atividades da cidade – que tem Le Corbusier como um de seus entusiastas mais importantes –, que separa espacialmente os locais de morar, de trabalhar, de circular, de lazer, etc.

Na arquitetura, por exemplo, as idéias do CIAM [Congresso Internacional de Arquitetura Moderna], de Le Corbusier e de Mies von de Rohe, tinham a primazia na luta por revitalizar cidades envelhecidas ou arrasadas pela guerra (reconstrução e renovação urbana), reorganizar sistemas de transporte, construir fábricas, hospitais, escolas, obras públicas de todos os tipos. [...] era necessário algum tipo de planejamento e industrialização em larga escala na indústria da construção, aliado à exploração de técnicas de transporte de alta velocidade e de desenvolvimento de alta densidade. (HARVEY, 2009, p. 42, grifo meu).

O zoneamento das cidades acaba por tornar a circulação e o deslocamento – entre áreas cada vez mais distantes – em atividades imprescindíveis para a subsistência e o consumo da série de bens e serviços concentrados na cidade: a possibilidade de locomoção sem a utilização de algum tipo de veículo vai progressivamente se tornando mais difícil na medida em que as distâncias a serem percorridas pelos citadinos, para a realização de atividades essenciais e cotidianas, aumentam; despender uma parte considerável do próprio tempo – e do dinheiro – na realização de deslocamentos no espaço urbano passa a fazer parte das atividades diárias de grande parte dos citadinos.

A ideia de que espaço e tempo são duas categorias constitutivas da vida social já era apresentada desde os estudos de Émile Durkheim (2009) em sua abordagem sobre as formas elementares da vida religiosa e sobre a coesão de grupos em torno de certos símbolos. Não obstante, o contexto de uma grande metrópole é bem diverso do contexto das sociedades primitivas analisadas pelo autor. Nas sociedades complexas e modernas, há uma heterogeneidade nos próprios sentidos e experiências de tempo e espaço, que se entrecruzam (HARVEY, 2009). Diferentes formas de locomoção e deslocamento, diferentes práticas e usos da cidade evidenciam e produzem um espaço urbano marcado pela desigualdade de acessos e oportunidades e por diferentes formas de perceber e de praticar os espaços e temporalidades das cidades. As experiências espaciais e temporais são a base da codificação e reprodução de relações sociais e uma transformação naquelas gera, quase sempre, uma modificação nestas (HARVEY, 2009).

Seguindo esse raciocínio, a partir de diferentes experiências cotidianas de circulação e deslocamento urbanos, emergem também variadas formas de se perceber e representar a própria experiência de estar na cidade: usuários de diferentes formas de transporte, assim, vivenciam de maneira singular e constroem a cidade partindo de distintos referenciais. No caso dos ciclistas urbanos com os quais trabalhei, a partir da prática individual e cotidiana de realizar os deslocamentos sobre uma bicicleta e da participação em grupos de ativismo pró-bicicleta, vêm à tona representações, discursos e “sensibilidades” – e consequentemente uma produção da cidade –, que se contrapõem à percepção dos espaços públicos como sendo espaços de aceleração e de passagem, de

ligação entre um ponto e outro da cidade.

A noção de espaço público como local de interação entre indivíduos e grupos diversos está intrinsecamente ligada à própria noção de política democrática que transforma a rua em palco privilegiado de negociação de sentidos e visões de mundo.

Esses ideais de política democrática moderna – abertura, indeterminação, fluidez e coexistência de diferenças não assimiladas – encontraram algumas de suas melhores expressões nos espaços públicos das cidades modernas. Estes espaços promovem interações entre pessoas que são forçadas a confrontar seus anonimatos e os dos outros com base na cidadania e assim a reconhecer e respeitar os direitos iguais do outro. É claro que há várias maneiras de subverter aquela igualdade e invocar diferenças de status e hierarquias. No entanto, o espaço da cidade moderna, mais que qualquer outro, força esse encontro e conseqüentemente tem o potencial de desafiar e nivelar essas hierarquias. No espaço da cidade moderna, diferentes cidadãos negociam os termos de suas interações e de fato interagem socialmente a despeito de suas diferenças e desigualdades. Esse ideal da cidade aberta tolerante às diferenças sociais e à negociação em encontros anônimos cristaliza o que chamo de espaço público moderno e democrático. (CALDEIRA, 2008, p. 307, grifo meu). Em contraposição a esse ideal de espaço público moderno, a autora apresenta uma “cidade de muros” marcada sobretudo pela eclosão de sistemas de segurança, pela supervalorização dos espaços privados e pela negação do que é plural, aberto e indeterminado. Os espaços públicos que são produzidos nessas cidades – e Fortaleza não é exceção – distanciam--se dos ideais de abertura, indeterminação e acomodação das diferenças e desigualdades.

O que é realmente importante perceber na abordagem da autora é o próprio espaço público como alvo de distintos investimentos e práticas e como produto de uma multiplicidade de representações e de apropriações. Apesar de a pesquisadora perceber um certo “esvaziamento” e “desvalorização” dos espaços públicos em suas qualidades de fruição e de encontros, esse não é um movimento homogêneo e totalizante: a cidade é fruto de múltiplos investimentos formais e cotidianos (LEITE, 2007).

O foco nas múltiplas produções simbólicas e apropriações dos espaços da cidade é um dos elementos essenciais na abordagem de Rogério Proença Leite (2007). A partir da noção de contra-usos, o autor se concentra nas produções e apropriações não hegemônicas dos (polissêmicos) espaços e nas negociações e tensionamentos advindos da multiplicidade de formas de se perceber e de se praticar os espaços urbanos.

O próprio ciclismo urbano pode ser percebido como um contra-uso. No contexto de cidades extensas e superpovoadas, onde as ruas são cada vez mais valorizadas e apropriadas como lugares de passagem, de aceleração e de deslocamento rápido, o ciclismo urbano surge como uma forma de deslocamento que permite ao usuário das ruas perceber e experienciar a cidade com base em outros ritmos e outras temporalidades, reafirmando a rua não apenas como

uma via de acesso a algum lugar, mas como espaço de encontros, de permanência, de fruição e também palco de práticas políticas e de comunicação com outros citadinos.