(FERREIRA; PEREIRA, 2012).
6.3.2.2 Resgate das Relações e Laços Familiares
Relembrando que o aumento da capacidade contratual, segundo Saraceno (1999) se edifica sobre os eixos, habitat, família e trabalho, verificamos que na busca pela reconstrução de si, o eixo família está presente nos discursos, em que o resgate das relações e laços familiares é apontado por nossos sujeitos como significativo para o processo de auto-organização.
Ana e Beatriz possuem histórias semelhantes em relação ao adoecimento e a repercussão negativa deste processo nas relações familiares. Experimentaram o sofrimento diante do rompimento com os vínculos familiares, e, por um tempo, enfrentaram o adoecimento e a vida sem o apoio de suas famílias.
Ana relaciona seu adoecimento e sua internação no Hospital Psiquiátrico, em 2006, ao abandono familiar, principalmente, por parte de sua mãe. Vemos em sua história que essa internação foi consequência de seu descontrole, quando solicitou auxílio para alimentação à mãe e esta negou. Após esta internação psiquiátrica os vínculos familiares foram totalmente rompidos: Ana passou a morar em uma casa de repouso, amparada financeiramente pelo auxílio doença, perdeu a guarda da filha e, por quatro anos, viveu excluída do contato familiar. Portanto, para Ana, a categoria família parece ser essencial em seu processo de auto-organização. Após a morte da mãe, há cinco anos, apoiada pelos serviços, Ana começa a ser reconduzida à convivência familiar e sua família começa a assumir, gradativamente, o papel de protagonista em relação aos cuidados que Ana ainda necessita. Dessa maneira, suas narrativas sugerem reconstrução dos vínculos familiares. Ana mora com a filha, a irmã e o cunhado, experimentando a possibilidade de, novamente, pertencer à sua família.
“Converso muito com a minha filha. Converso com meu cunhado, que eu e meu cunhado nos damos muito bem, sabe?” (Ana)
Beatriz, assim como Ana, é afastada dos vínculos familiares devido ao adoecimento mental. Os sintomas persecutórios, a agressividade, a falta de crítica em relação à seu adoecimento e, consequentemente, sua negação em relação aos cuidados necessários, foram fatores que favoreceram o rompimento de vínculos e o afastamento de seus familiares, que passaram a desacreditar na possibilidade de sua melhora e na sua capacidade em reconstruir sua vida. Associado a esta situação, Beatriz que possui apenas um irmão, usuário de drogas, com quem não pode contar, em seu processo de adoecimento vivencia a morte dos pais. Desta maneira, por um longo período, Beatriz, interditada judicialmente, contou, apenas com o auxílio de sua curadora e dos serviços, como apoio psicossocial. Hoje, mora sozinha com seu filho. Porém, demonstra sua satisfação em retomar contato com seus tios. Assim, voltar a conversar com os eles, recebê-los em sua casa representa mudanças significativas em sua vida.
“Meus tios por parte de pai, só um, ele que tinha pegado a guarda do meu menino, que conversa mais comigo e minha tia Lalá. Do resto, eles não vão na minha casa, eu também não procuro ir na casa deles. Agora, por parte da minha mãe, as minhas tias estão sempre indo lá na minha casa. Elas vão, vão lá, almoçam comigo, ficam, conversam. Mudou bastante, também.” (Beatriz)
Diante da nova perspectiva de cuidado em Saúde Mental, o olhar à família, também se modifica. Nesta perspectiva, a família passa a ser entendida como protagonista de cuidados e coadjuvante no fortalecimento da autonomia e da ampliação da rede social das pessoas acometidas por um transtorno mental.
Frequentemente, o tratamento nos serviços de Saúde Mental esbarra em questões relacionadas às dificuldades no grupo familiar. Portanto, emerge a necessidade dos serviços se estruturarem para a inclusão e o cuidado com estas questões em seus projetos terapêuticos. Para tanto, inúmeros desafios necessitam ser transpostos. O primeiro deles implica no rompimento com marcas que persistem até hoje, construídas por anos de uma história psiquiátrica, em que a exclusão familiar era recomendada pelo tratamento, em que a família era considerada incompetente para o cuidado e, também, culpabilizada pelo adoecimento mental. Reverter o modo de cuidar dos sujeitos em suas famílias implica em considerar que
cada pessoa, na condição de familiar representa alguém a ser escutado, com a finalidade de compreensão das dificuldades e dos sofrimentos, inerentes à convivência com alguém que representa algo estranho em seu grupo (SOUZA; BAGNOLA, 2007).
Ter encontrado um lugar favorável para o cuidado das questões relativas à categoria família foi fundamental para a auto-organização de Jorge e de sua família. Jorge ressalta transformações significativas no relacionamento com a mãe, sua principal cuidadora: de um relacionamento marcado por agressividade, culpa, medo e desconhecimento, por uma relação de compreensão respeito mútuo.
“Ah, em casa mudou o respeito que eu tinha com a minha mãe, o jeito de eu tratar ela, mudou. (pausa). Mudou a forma como eu falo para ela... que tenho que pensar duas vezes antes de falar, porque ela é uma pessoa que é sentimental, tem sentimento, né, então, não pode tá jogando tudo na pessoa o que a gente está sentindo...”
(Jorge)
O envolvimento dos familiares dos indivíduos portadores de transtornos mentais é fundamental para um processo de reabilitação, para o fortalecimento da autonomia e de sua auto-organização. Este envolvimento necessita ser estimulado pelos serviços, por meio de intervenções em que a família deixe de ser vista como cúmplice ou vítima e passe a ocupar o papel de protagonista, também, responsável pela construção de projetos terapêuticos e pelo processo de reabilitação (SARACENO, 1999).
Pereira Jr, Lussi e Perreira (2002) identificam que família é uma das categorias existenciais dos indivíduos, ou seja, uma das fontes possíveis de obtenção de satisfação. Para tanto, os autores consideram que diversas características da vida dos indivíduos estão relacionadas com os laços familiares. As falas dos participantes em relação às mudanças referentes a esta categoria se aproximam do que os autores trazem como características relativas à família. Para os participantes, família denota espaço de interação, de troca de informações, onde é possível a identificação das dificuldades e a reconstrução da afetividade. Portanto, o resgate das relações familiares significa ampliação de lugares onde seja possível o
estabelecimento de trocas sociais, o que para Saraceno (1999) é imprescindível para a pessoa portadora de transtorno mental.
É inegável que a melhora das relações familiares pode proporcionar expansões na rede social ampliada, otimizando o fortalecimento das habilidades e a redução das desabilidades provenientes do adoecimento mental.
Os discursos sugerem que a família é, muitas vezes, a motivação principal para a reconstrução da vida das pessoas. Para Tereza e Beatriz os filhos foram os grandes mobilizadores para a organização de suas vidas.
“...então, nesta mudança que eu vou, eu sempre vou falar da minha família, que é meus filhos, eu percebi que eles ficaram mais próximos de mim, que eles conversam mais. Sinceramente, em primeiro lugar, não é o CAPS. Não é o tratamento, são meus filhos. Então, primeiro eu penso neles, para depois pensar no CAPS e no tratamento com psicólogo, psiquiatra e remédios. É... a abstinência eu penso nos meus filhos e, é lógico, por mim também, claro. Eu também estou muito feliz em ficar sem beber. “ (Tereza)
“... o meu filho. Porque eu vejo força nele, ele é frágil, ele é pequeno. Só o fato dele estar perto de mim, de novo... já é uma melhora. Porque tudo isso eu fiz porque ele estava longe de mim. Então, a partir do momento que ele voltou para mim, eu me sinto, assim, bem, de novo.” (Beatriz)
Porém, nem sempre isto tem sido possível: a família, muitas vezes, não se considera parte importante na assistência, e, por outro lado, os serviços ainda possuem dificuldades para lhes proporcionar suporte para que esta participação se torne ativa (PIMENTA; ROMAGNOLI, 2008).
Além disto, deve-se levar em consideração, que por diversos motivos, nem sempre a família é suporte nos momentos de dificuldades. Assim, Pedro relata sua percepção:
“Pois é, como eu ia falar para você. Ninguém me procura mesmo. Não. Depois que eles ficaram sabendo que estava em dificuldade, né, nem ligar me ligam. Nem me ligar me liga. O que diz meu
cunhado, que está fazendo tratamento de câncer, nesta fase. O mesmo que está fazendo tratamento de câncer chegou em mim e falou assim: faz os seus irmãos ajudarem você, não porque... eu não vou ajudar porque eu não posso, tá... (se emociona e faz uma pausa).” (Pedro)
Sua narrativa mostra a importância de abrir reflexões sobre a idealização construída socialmente em torno do eixo familiar. Nessa visão idealista a família é considerada responsável pelo suprimento de apoio e afetos infinitos. Em decorrência desta supervalorização, podemos construir a ilusão de que a família constitui, obrigatoriamente, a única possibilidade de inserção social da pessoa que experimenta o adoecimento mental (Melman, 2001).
Desta forma, outro desafio a ser transposto aqui se revela: os serviços de saúde, normalmente, compactuam com essa idealização social. Assim, no trabalho com as famílias, nem sempre consideram a singularidade de cada grupo familiar e nem a influência dos valores e representações, carregadas por cada grupo familiar, construídas acerca do adoecimento em determinado tempo histórico na dinâmica de funcionamento de cada grupo familiar (MELMAN, 2001). Assim, percebemos a necessidade dos serviços repensarem sua atuação, no sentido de construírem espaços de escuta verdadeira, em que as histórias vividas por cada família sejam consideradas.
O adoecimento mental representa no grupo familiar um evento imprevisto, impactante e desestruturante. Observamos que a maneira de lidar com esse impacto e seu desenvolvimento variam entre as famílias: Tereza, Beatriz e Jorge revelam a possibilidade de restabelecimento de vínculos. No entanto, para Pedro, resgatar vínculos familiares não tem sido possível. Portanto, a família não representa a única possibilidade de auto-organização, solicitando dos serviços um olhar atento e cuidadoso a esta questão.
6.3.2.3 Transformações no Eixo Trabalho
O trabalho é outro aspecto da vida dos indivíduos que é citado pelos participantes como um eixo em que transformações foram possíveis, significando