Diversas atividades da vida do indivíduo estão relacionadas com o corpo. De acordo com Pereira Jr, Lussi e Pereira (2002) o corpo é constituído por uma rede
de sistemas que se comunicam entre si, gerando reações que são percebidas pelos indivíduos: as emoções. Além disto, o corpo é dotado de diversos significados, que podem ser determinados socialmente. Estes exercem influência na esfera emocional, já que a emoção engloba o significado atribuído à reação fisiológica. Logo, o corpo é uma categoria existencial na qual identificamos várias atividades da vida das pessoas.
Nessa perspectiva, tal categoria existencial inclui as subcategorias: cuidados básicos, prática de atividades físicas, cuidados com a aparência e a auto- estima e sexualidade.
As narrativas sugerem a relevância dada pelas pessoas à subcategoria, cuidados básicos. Esta subcategoria diz respeito à sobrevivência e à manutenção da condição de saúde das pessoas, preocupações presentes na maior parte da vida da grande maioria delas. Sono, alimentação e higiene são atividades da vida diária, relacionadas com a satisfação das necessidades biológicas e obtenção de prazeres básicos. Além do mais, os estilos de vida associados a estas atividades, são condições determinantes da qualidade e da expectativa de vida.
A restituição da condição de se apropriarem dos cuidados básicos, como o sono e a alimentação é apontada pelas pessoas como importante para a auto- organização.
“Tem aí uma coisa que eu queria fazer há muito tempo, dormir cedo, levantar cedo, cara, para mim é a coisa mais maravilhosa do mundo.”
(Jorge)
“Tenho uma vida normal, eu tomo remédio à noite e durmo. Deito e durmo, capoto, porque eu não levanto nem se me chamarem na porta do quarto, que eu durmo e nem acordo. E antigamente, eu não dormia direito. Isso foi bom.” (Ana)
O sono e a alimentação são atividades que fazem parte da vida cotidiana e podem nos parecer simples, já que a procura pela manutenção da condição de saúde está presente na maior parte da vida da maioria das pessoas (PEREIRA JR; LUSSI; PEREIRA, 2002). Porém, estas atividades, com grande frequência se tornam complexas e frágeis diante do adoecimento mental.
A associação entre transtornos psiquiátricos e distúrbios primários do sono é elevada. Ainda mais relevante é a relação entre a higiene inadequada do sono e diversos quadros psiquiátricos (LUCCHESI et al, 2005). Portanto, as alterações nos padrões de sono são encontradas com frequência nos transtornos mentais.
Lucchesi et al (2005) investigando os transtornos psiquiátricos onde as alterações de sono são mais frequentes, através de observação clínica e por meio de achados polissonográficos, encontraram que as queixas mais relatadas pelos pacientes e observadas na maioria dos sintomas estavam relacionadas à dificuldade dos pacientes em iniciarem e manterem o sono, sono não reparador e interrompido. De acordo com os autores a insônia terminal ou despertar precoce estão relacionados a quadros depressivos. Além disto, a hipersonia também foi apontada por estes como sintoma que pode aparecer em alguns quadros de depressão como as sazonais, atípicas ou em transtornos bipolares.
Desta maneira, Lucchesi et al (2005) apontam para a relevância e necessidade do cuidado em relação a higiene do sono nos quadros psiquiátricos, como fator importante. Orientações sobre uma adequada higiene do sono podem contribuir para redução da quantidade de medicações necessárias, melhorar a sintomatologia e, consequentemente, a qualidade de vida das pessoas.
Dormir é essencial para a reposição da energia das pessoas, contribuindo para a melhoria da saúde física e mental. Portanto, dormir com qualidade favorece a organização das pessoas.
As alterações de apetite também podem estar presentes como sintomatologia de diversos transtornos psiquiátricos, e, aqui é relatada por Tereza e Pedro, como sintoma importante que repercutiu em suas condições de saúde.
“Eu não conseguia comer. Eu começava comer e não tinha aquela fome, sabe a hora que você pega o prato, assim, e fica aquela bola e não desce nada. Eu não comia, hoje eu como, normal.” (Tereza) “Eu fiquei pele e osso. Sabe, eu fiquei quase sem vida.” (Pedro)
Tereza e Pedro descrevem uma das alterações de apetite muito frequentes nas doenças mentais, a inapetência. No entanto, a alimentação
adequada é condição essencial para a manutenção da vida e o não atendimento a esta necessidade pode desencadear desequilíbrios importantes na categoria corpo.
Sendo assim, a alimentação e o sono, que são atividades da vida diária, são buscadas pelas pessoas para a satisfação de suas necessidades biológicas e, portanto, para a obtenção de prazeres básicos (PEREIRA JR; LUSSI; PEREIRA, 2002).
Ainda relativo ao corpo a apreensão com os cuidados, com a aparência e a autoestima são trazidos por Lúcia.
“Enfim, além destes sintomas que eu sentia, a parte do peso, também, ela mexeu. Eu engordei muito, né? Eu cheguei a mais de noventa quilos, então, isso também mexeu com a autoestima, né, e com a roupa, também, que não servia mais...” (Lúcia)
Lúcia conta de uma fase de sua vida em que os efeitos colaterais das medicações psicotrópicas e o descuido consigo mesma, afetaram sua aparência. Em inúmeras situações relacionadas ao adoecimento mental, as pessoas experimentam sentimentos profundos de menos valia, de redução da autoestima e de autodepreciação. Estes sentimentos podem ser agravados devido à tendência para o descuido de si mesmo, autonegligência, falta de higiene e, até mesmo atos e condutas suicidas (DALGALARRONDO, 2000).
A Lúcia que encontramos no dia da entrevista parece ter conquistado mudanças significativas em relação a esta questão: estava muito bem vestida, maquiada, com um novo corte de cabelo e de volta ao peso anterior ao adoecimento.
Novamente, nos remetemos à Pereira Jr, Lussi e Pereira (2002) quando estes refletem que a aparência é condição fundamental para a inserção do indivíduo na sociedade, pois, é esta que influencia a avaliação imediata feita pelos outros em relação a nós mesmos, e, obviamente, encontra-se condicionada a aspectos culturais. Acrescido a esta questão a autoestima se relaciona com a aparência e com a imagem que o indivíduo tem de si próprio, tanto de seu exterior como de seu interior.
Assim sendo, vemos que reorganizar os cuidados básicos na vida, além de determinantes para uma boa saúde, contribui para a criação de hábitos e rotinas
na vida cotidiana, que auxiliam na organização da vida social das pessoas (FERREIRA; PEREIRA, 2012).
6.3.2.2 Resgate das Relações e Laços Familiares
Relembrando que o aumento da capacidade contratual, segundo Saraceno (1999) se edifica sobre os eixos, habitat, família e trabalho, verificamos que na busca pela reconstrução de si, o eixo família está presente nos discursos, em que o resgate das relações e laços familiares é apontado por nossos sujeitos como significativo para o processo de auto-organização.
Ana e Beatriz possuem histórias semelhantes em relação ao adoecimento e a repercussão negativa deste processo nas relações familiares. Experimentaram o sofrimento diante do rompimento com os vínculos familiares, e, por um tempo, enfrentaram o adoecimento e a vida sem o apoio de suas famílias.
Ana relaciona seu adoecimento e sua internação no Hospital Psiquiátrico, em 2006, ao abandono familiar, principalmente, por parte de sua mãe. Vemos em sua história que essa internação foi consequência de seu descontrole, quando solicitou auxílio para alimentação à mãe e esta negou. Após esta internação psiquiátrica os vínculos familiares foram totalmente rompidos: Ana passou a morar em uma casa de repouso, amparada financeiramente pelo auxílio doença, perdeu a guarda da filha e, por quatro anos, viveu excluída do contato familiar. Portanto, para Ana, a categoria família parece ser essencial em seu processo de auto-organização. Após a morte da mãe, há cinco anos, apoiada pelos serviços, Ana começa a ser reconduzida à convivência familiar e sua família começa a assumir, gradativamente, o papel de protagonista em relação aos cuidados que Ana ainda necessita. Dessa maneira, suas narrativas sugerem reconstrução dos vínculos familiares. Ana mora com a filha, a irmã e o cunhado, experimentando a possibilidade de, novamente, pertencer à sua família.
“Converso muito com a minha filha. Converso com meu cunhado, que eu e meu cunhado nos damos muito bem, sabe?” (Ana)