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In document Sykepleie ved provosert abort (sider 34-39)

O povoamento da região de Cruz Alta foi impulsionado pela conquista de Guarapuava e Palmas, no Paraná. As guerras “justas” aos botocudos e aos Bugres seus vizinhos promoveram grande instabilidade e implicaram na legalização do cativeiro dos seus sobreviventes por um período mínimo de 15 anos. Apesar dessa proposição relativa às guerras justas, as Cartas Régias de 1808 e 1809 também previam a atração pacífica daqueles que depusessem as armas e se apresentassem. Essas guerras, determinadas por D. João VI, responderam aos reclames dos moradores de Lages e dos Campos Gerais de Curitiba, tendo sido estas localidades esvaziadas em duas ocasiões pelos ataques e ameaças dos índios (Mota, 1994, p. 126).

A própria forma de obtenção de terras esteve vinculada à ação militar, através da qual as Missões foram tomadas. Como exposto nas Cartas Régias de 1808 e 1809, controlar e ocupar “o país das Missões” era o objetivo último da ampla campanha militar incentivada pelo interesse econômico na região do Planalto Meridional. Tomados alguns pontos das regiões de Guarapuava, Palmas e as Missões, restava, ainda, explorar as matas do Alto Uruguai, desde o rio da Várzea até o arroio Lageado.

Assim, em 1815 foi enviada uma expedição à região das Missões, por ordem do tenente-coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal, comandante da Praça de Guarapuava. Esta tinha por objetivo encontrar um caminho intermediário entre as Missões e o norte rio-grandense. A expedição estava sob o comando do Major Athanagildo Pinto Martins, e era composta também pelo alferes Antonio da Rocha e pelos índios Jonjong e Antonio Pahy, que serviram como guias da mesma. Evitando passar pelas matas do Alto Uruguai e pela região ao sul do rio Iguaçu, a exploração

pendeu para oeste, percorrendo o antigo caminho das tropas, passando através do passo de Santa Vitória50 para a Vacaria (Ghem, 1978, p. 13).

Os primeiros moradores vindos especialmente da província de São Paulo a estabelecerem-se na região do planalto sulino pretendiam, além de estabelecerem invernadas para o gado, alcançar também os ervais, especialmente na região do futuro distrito da Palmeira e nas proximidades da Serra do Botucaraí. Os moradores que começavam ocupar a região eram grande parte negociantes de tropas de animais e erva; que atuavam comércio de animais com o centro sul do país, e ainda fazendo o circuito entre a fronteira e o sudeste. Estes comerciantes procuraram obter terras ali de forma progressiva. Houve também a concessão de grandes extensões de terras a grandes fazendeiros, como, por exemplo, as posses do Barão de Antonina, João da Silva Machado, morador em Curitiba, que possuía na região de Cruz Alta as fazendas do Arvoredo e Sarandi, entre outras, compondo extensíssima posse. A característica da região era a posse concentrada de terras e escravos, ou seja, havia poucos ‘grandes fazendeiros’, porém, estes acumulavam grandes extensões de terras e grandes plantéis de escravos.

Em 1827 na região de Palmeira, havia um total de 43 famílias (Xavier e Oliveira, [1909] 1990, p. 73). Ainda no início da década de 1830, podemos avaliar que o povoamento de Passo Fundo – através de grandes fazendas distantes entre si e de chácaras de médio e pequeno porte – esteve concentrado na sede do distrito e, a oeste desta, e nas proximidades de Soledade (Ghem, 1978, pp. 12-15). Assim, ficava ainda por explorar a região do Alto Uruguai.

No período entre o final do século XVIII e XIX, grandes transformações ocorriam no interior do Planalto Meridional brasileiro, como a desagregação dos povos missioneiros, sua reorganização política, e o aumento da ocupação do planalto sulino principalmente através dos povoados de Curitiba, Guarapuava e Palmas. No início do século XIX, a guerra aos botocudos e bugres seus vizinhos, decretada em 1808 por D. João VI, objetivou a conquista dos Campos de Guarapuava, e determinou grande pressão sobre os nativos kaingáng lá habitantes. Muitos autores atestam um aumento da imigração dos povos kaingáng do Paraná para o norte do Rio Grande do Sul no início

50“Em 1785, foi aberto o passo do Pontão, na barra do rio Marombas, nos atuais municípios de Campos Novos (SC) e Barracão (RS). No ano de 1790, foi instalado um Registro no Passo da Vitória.” (nota dos editores, Silveira, 1990, p.74).

do século, em fuga à ocupação. Assim, neste momento, o planalto sulino estava sendo ocupado por estâncias através das estradas que procuravam interligar a província de São Paulo à região doas Missões. Na região do Campo Novo e de Guarita, o povoamento, especialmente por indivíduos vindos dos povoados paranaenses, ocorria desde 1827 e 1828, sendo expressivo devido ao interesse na exploração dos ervais51 da região. Desse modo, havendo os kaingáng enfrentado lutas em Guarapuava, e o crescente povoamento do interior, poderiam ter procurado unir forças entre os diferentes toldos.

A narrativa de Mendes apresenta certas convergências entre a memória ali exposta e acontecimentos registrados durante a ocupação da região, como as lutas ocorridas nos primeiros anos da década de 1830, quando a localidade começou a ser efetivamente povoada.

Em 1831, Francisco de Paula e Silva, o Barão do Ibicuí, recebeu a incumbência de abrir uma estrada entre a região missioneira e a província de São Paulo. Como mercê, recebeu sesmarias exatamente no Campo Novo52, onde instalou a fazenda de Monte Alvão que englobava cerca de cinco áreas de sesmarias, com a intenção de explorar a erva-mate. Durante a ocupação houve embates com os habitantes nativos e, por outro lado, repressão aos grupos de ervateiros que, conforme as jurisdições vigentes exploravam livremente a erva-mate (Silveira Hemetério, 1909). Conforme antes mencionado, no livro O império dos coroados, um pelotão de mosqueteiros entrou em combate com os kaingáng, que sofreram com duzentos mortos. Os embates ocorreram

51 Havia na região os ervais de Nhucorá, entre as nascentes do rio inhacorá e as do Ijuí, com 2 engenhos e

produção de 10.000 arrobas; o erval Corá, mais rico e menos estragado, com 100.000 arrobas; os da Guarita (entre os arroios Guarita e Turvo), com oito léguas chegou a produzir 16.000 arrobas, mas entretanto teve sua produção diminuída para 6.000 arrobas. Ainda, o erval Pary, “um novo erval descoberto pelo Tenente Coronel José Joaquim de Oliveira, com comprimento de 3 léguas e ...com uma produção de 60.000 arrobas; e o Herval Seco, situado entre os arroios Fortaleza e da Guarita (Soares, 1974, pp.87-88).

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Em Campo Novo havia áreas comunais de exploração de erva-mate, uma situação incomum relativamente à exploração da erva-mate. Conforme o Aviso imperial de 20 de maio de 1861, as terras entre os rios Turvo, Uruguai e Várzea foram concedidas aos fabricantes de erva-mate, deixando de haver terras devolutas ali, e sim terras de domínio comum. Nesta área havia ervais e posses de simples roçados desafiando a avidez de moradores e agentes públicos. Conforme Ofício da Câmara de Cruz Alta ao presidente da província em 07 de julho de 1877, havia disputas pelo território durante a década de 1870, (AHRS, doc. no. 19, maço 97, cx. 43) . Porém, a área foi explorada e disputada desde ao menos 1828. Uma correspondência dos moradores de Campo Novo à Câmara de Palmeira Cruz Alta afirma que o juiz

Comissário para medições na área, Tiburcio Álvaro de Siqueira Fortes “mediu para si áreas de mata”.

(Correspondência dos moradores de Campo Novo à Câmara de Palmeira em 24/07/1879. AHRS, maço 97, cx. 43).

quando da instalação de sesmarias no local, e a obra de Mendes menciona a insurgência de Goio Ming, chefe no local, responsável pela revolta e ataque, filho de Fondengue e irmão de Nonoai. Esse fato é amplamente relembrado pela memória local, tendo recebido o Arroio onde se deram os combates o apelido de Arroio das Mortandades, como forma de lembrar os mortos (brancos) no evento. Entretanto, é através do relato de Mendes que se tem a informação de que este combate dos “novos moradores” foi enfrentado por Goio Ming (tigre da água), o filho do cacique Fondengue e irmão de Nonoai, o futuro cacique. A memória kaingáng relativa a este evento foi transmitida graças ao relato de Konkó e a posterior narrativa de Nicolau Mendes (1954).

A historiografia local argumenta que o povoamento por habitantes vindos do interior da província de São Paulo ocorria já desde os últimos anos da década de 1820, a partir do povoamento das vilas de Castro, Curitibanos e Palmas. O tenente coronel José Joaquim de Oliveira recebeu duas léguas de campo próximo à Guarita. Na década de 1830, a região contava já com povoadores, invernadas e extratores da erva-mate, devido à riqueza dos ervais da região. Assim, esses indivíduos efetivavam a ocupação da região a fim de explorar seus recursos, perpetuando um modo de relação com os nativos inaugurado ainda no século XVII pelos paulistas e, especialmente, legalmente autorizado a partir das guerras justas aos “infiéis”.

Apesar das disposições que autorizavam o cativeiro daqueles resistentes à ocupação haverem sido retiradas em 1831, não oficialmente, mas na prática, esta forma de ocupação e relação com os nativos permaneceu durante a ocupação da região de Guarita e todo o Alto Uruguai, ainda que sob um novo estatuto jurídico, inaugurado pelo Regulamento das Missões de 1845 (AHRS, Câmara Municipal de Cruz Alta, correspondência expedida-A. UM – 59).

Muitos relatos e documentos versam sobre relações amistosas desenvolvidas entre nativos kaingáng e moradores locais no século XIX no Rio Grande do Sul. O futuro diretor do aldeamento da Guarita, Joaquim José de Oliveira, foi também o primeiro agraciado com uma sesmaria no local. Procurou aliar seu negócio de exploração da erva-mate aos esforços de “civilizar” os bugres. Essa interação entre Oliveira e os kaingáng de Guarita está muito bem documentada através dos ofícios e cartas relativos às “Aldeias da Província”, constante no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Entretanto, a narrativa ora analisada igualmente descreve esta relação:

[...] O homem civilizado iniciara suas incursões pelos campos de Guarita, cobiçando a erva-mate abundante por ali e Campo Novo. Essa situação, depois de agravada por uma série de encontros sangrentos entre selvagens e brancos, tendia a se transformar em contínuas carnificinas. [...] De vital importância para a sobrevivência das tribos, era conseguir entendimentos amistosos entre índios e brancos. E assim se fez. Quando, na Guarita, se apresentou o Ten. Cel. Joaquim José de oliveira, em 1828, acompanhado por numerosos homens de armas e escravos, Fondengue com ele confabulou, assentando as bases em que deveriam viver dois povos completamente diferentes, como o branco e o bronzeado. As negociações alcançaram o êxito colimado e o Ten. Cel. Oliveira se estabeleceu no local, tomando para si duas léguas de sesmaria, onde construiu habitações para, posteriormente, se dedicar à catequese dos índios, mister que, pela sua bondade, mais tarde o empobreceu (Mendes, 1954, p. 46).

Outros novos moradores, a maioria de forma não institucional como essa, também mantiveram interações amistosas com grupos kaingáng que habitavam “seus campos”, ou melhor, aqueles campos dos kaingáng que foram destinados aos novos moradores. Entretanto, mesmo essas relações bastante ambíguas estavam inscritas na violência da ocupação e exploração econômica dos campos meridionais, fundada a partir de uma guerra e de um estatuto jurídico contrário aos habitantes da área, considerados bárbaros.

É amplamente difundida na historiografia regional a consideração de que até a década de 1840, os diversos grupos kaingáng promoveram ampla resistência à ocupação branca, atacando através de emboscadas os tropeiros e viajantes e as fazendas e invernadas, e que viveriam apartados das atividades produtivas da região ou de seus moradores.

Entretanto, se considerarmos que desde a década de 1820 as áreas tanto a oeste quanto a leste da vila de Cruz Alta estavam já povoadas por diversas famílias de exploradores paulistas, bem como a conclusão de diversos agentes do governo provincial, de que esses indígenas estavam já em relações com os moradores da área, veremos que tais relações estiveram presentes no processo de ocupação da área.

No início do processo de povoamento da região do planalto sulino, ofícios como os da Câmara de Cruz Alta relatavam os ataques dos indígenas aos viajantes e moradores das proximidades dos matos. Em ofício ao Presidente da Província no ano de 1834, o juiz de Paz da vila de Cruz Alta informava a ocorrência de ataques dos indígenas na estrada entre os Matos Castelhano e Português:

Em resposta do que V. Exa. Me ordena, o responder acerca da abertura do mato Castelhano e Português, levo ao conhecimento de V. Exa. Que no mês

de agosto e setembro dom ano próximo passado, os tropeiros a sua custa mandaram roçar os matos de foice, sendo uma pequena largura passada, que por este trabalho ficariam mais encobertos das costumadas ciladas dos Selvagens, e depois disto têm sido acometidos dos tropeiros, do que resultou serem três mortos, e alguns feridos pelas flechas dos ditos Bugres, [...] e desde setembro próximo passado não tem havido serviço nas picadas dos dois Matos (AHRS – Justiça, Cruz Alta – Juízo de Paz. Correspondência de Bernardino José Lopes ao Presidente da Província em 28 de abril de 1834).

Na região de Campo Novo, extremo norte da província, e próximo à Guarita, houve ataques à população luso-brasileira que iniciou seu povoamento na década de 1820. Em retrospectiva, Beschoren refere-se a um destes ataques que ficou famoso por haverem sido mortos oito indivíduos:

No maior deles, lá pelos fins de 1835, um grupo de onze pessoas foram assaltadas, apenas três conseguindo escapar com vida, mas bastante feridas. O lugar onde aconteceu o assalto leva o nome de “Mortandades”, distante meia légua do atual Campo Novo (Beschoren, 1989, p. 61).

Em um relato posterior, o juiz de paz da vila de Cruz Alta, Bernardino Lopes, ao informar ao presidente da província sobre um ataque dos “selvagens” a uma comitiva ervateira no sertão dos campos de Santo Anjo na região do Campo Novo, local de grandes ervais. Era a comitiva de João Vicente de Souza Bueno, morador da região de Guarita que procurava, pela primeira vez, explorar regularmente aqueles ervais.

Conforme as informações dos atacados, os índios falaram com os mesmos em português chamando-os de ladrões, ao os expulsarem dali. No mesmo relato, informa a morte de um homem que andava a procura de cavalos no lugar denominado Palmeira, local de antiga ocupação do grupo do chefe Fongue:

No dia 30 de abril p.p. foram acometidos pelos Selvagens uma comitiva que estava fazendo erva mate em um capão próximo ao sertão nos Campos de Santo Anjo de que resultou serem quatro homens mortos, e quatro gravemente feridos com flechadas e cacetes, [...] As correrias destes selvagens cada vez se fazem mais perigosas, e já não temem as armas de fogo. E dizem os da comitiva, que se escaparam, que os selvagens no

acometerem a eles, gritavam, dizendo “fora ladrões”, de que há suspeita

terem alguns índios, que foram cristianizados (AHRS, Justiça – juízo de Paz, Cruz Alta, 2 de junho de 1834. Grifos meus).

Entre os ataques a comitivas de tropeiros que atravessavam a estrada do Campo do Meio, Alfonse Mabilde relata que, em 1837, os grupos do cacique Braga53 que

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Neste momento, ou seja, na década de 1830, o chefe Braga era o “principal” de 23 grupos ou aldeias

tinham entre eles o de Doble, atacaram uma comitiva de tropeiros que cruzava o Campo do Meio, tendo sido vitoriosos (Mabilde, 1983, p. 179). Inclusive, foi a partir de sua vitória neste ataque, que o chefe Doble tentou tomar o lugar do chefe principal Braga; tendo sido rechaçado, perdeu parte de seu próprio grupo, que se manteve junto à Braga. Essa situação, conforme a avaliação de Mabilde, levou o chefe Doble a procurar, na década seguinte, manter relações amistosas com fazendeiros locais e com o governo provincial.

Ao comentar sobre os indígenas que habitavam o território de Passo Fundo, Delma Gehn afirma que esses representavam aos novos moradores um perigo constante, afirmando, através de relatos de antigos moradores antes publicados por Antonino Xavier, que “Sob o comando dos índios Marau, saíam os bugres de suas malocas no Rincão do Herval, a sudeste do povoado, e vinham concentrar-se à beira da Serra Geral” com o intuito de “exterminar” seus habitantes:

Célebres, eram na época, por sua ferocidade ou por seu prestígio junto aos silvícolas, os caciques Doble que dominava o ocidente do rio Passo Fundo; Nhecoiá (nariz comprido), e Nicofim (zorilho valente), que avassalavam o mato castelhano e região oriental do rio Passo Fundo; e também marau ou Marã (maldade); valeu muito, nessa fase da vida passo-fundense, a intervenção do bugreiro (branco amigo dos índios e que servia de guia aos que necessitassem atravessar as matas do Mato Castelhano e Campo do Meio), José Domingos Nunes de Oliveira (morador da estrada do Mato castelhano) e José de Quadros (Campo do Meio). A propósito de José Domingos, conta-se que emprestava seu pala aos chefes das caravanas ou das tropas de muares, e isto bastava para que, sendo reconhecida essa peça do vestuário gaúcho, os índios deixavam em paz os itinerantes. Como a passagem do Mato Castelhano era obrigatória, ao norte da província, José Domingos tornou-se figura celebrizada em todo o Rio Grande (Gehm, 1984, p. 16).

A expedição empreendida para realização de missões volantes aos povoados da Serra Geral empreendida pelo Padre Sató em 1843 teve a colaboração do fazendeiro José Domingos54, para atravessar parte da Serra Geral. Esse homem desenvolveu

essas que abrangem o Mato-Castelhano, onde foi aqui o ponto em que se encontram os Coroados -, existia uma grande tribo da nação coroados, da qual era cacique principal o coroado Braga, [...]” (Mabilde, 1983, p.127). O território controlado por estas 23 aldeias kaingáng estendias-se do Mato Castelhano até as cabeceiras dos rios Caí e das Antas, tendo-se deslocado, em 1850, para as serras dos rios Turvo e da Prata, afluentes do rio das Antas. O relacionamento do engenheiro e agrimensor Alfonse Mabilde com os kaingáng, e, em especial com o chefe Braga, com quem manteve contatos relativamente regulares, será tema do terceiro capítulo.

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Muitos autores identificam o bugreiro com antigos moradores locais, brancos, “amigo dos índios” remetendo esta função a um momento inicial da conquista do espaço, quando, através de estradas

interações com nativos kaingáng e, dessa forma, assegurava a segurança naquela passagem. Mais adiante retomaremos comentário sobre José Domingos ao tratar das relações amistosas entre nativos e fazendeiros.

Reforçando os argumentos de ferocidade e pavor que ataques dos indígenas causassem aos moradores, a autora também afirma as constantes partidas que saíam a buscar as aldeias indígenas para atacá-los e afugentá-los. Por outro lado, em situações que têm como pano de fundo conflito é possível percebe relações de reciprocidade ou interação dos indígenas com moradores da região. No início do século XIX a região do planalto sulino já tinha seus campos ocupados por fazendas de invernadas que se constituíam a partir da estrada pela qual se realizava o comércio de muares com o sudeste.

Em 1835 a principal atividade econômica da região de Cruz Alta no planalto sulino era o comércio de animais, sendo seguida em escala bem menor pela produção de erva-mate, sendo a lavoura incipiente, o que se traduzia em uma ocupação através de invernadas e a extração e venda da erva sazonalmente. Durante a guerra civil muitos moradores deixaram seus estabelecimentos, retornando após o fim dos conflitos. A maioria dos habitantes da região de Cruz Alta voltou para o interior de São Paulo ou para outros pontos, ou ainda aderiu às forças legalistas (AHRS, Coletânea de Doc. de Bento Gonçalves da Silva 1835/45. Sesquicentenário Revolução Farroupilha. AHRS. Porto Alegre, 1985).

Sobre a atuação dos nativos Jê durante a revolta farroupilha, apesar do silêncio da historiografia, consideramos que, uma vez que muitas operações militares foram realizadas em diversos pontos do planalto sulino e também catarinense, os kaingáng não

recém-abertas, o povoamento era escasso e isolado, sendo que alguns moradores lograram desenvolver relações amistosas com os indígenas. É também considerado o índio que trata com seus

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