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In document Sykepleie ved provosert abort (sider 17-20)

Antes da conquista lusa do território interior do Brasil meridional através da guerra e ocupação, bem como antes da fundação de relações políticas formais com o Império do Brasil, as populações Jê mantiveram experiências com avançadas povoações ibéricas e também com as Reduções Jesuíticas que ali se estabeleciam.

Estudos atuais destacam a vivência de outras etnias além da guarani nos espaços reducionais da Província Jesuítica do Paraguai, como o exemplo das reduções com habitantes Jês nas áreas do Planalto Meridional. Destacam ainda, a importância das relações econômicas entre missioneiros e grupos fora do espaço reducional, inclusive com os chamados infiéis (Baptista, 2009). Os nativos dos planaltos sulinos eram reconhecidos pelos missionários jesuítas, que os catequizaram ou pretenderam fazê-lo. Os períodos de maior interação dessas populações com as reduções ocorreram na década de 1630 e entre as décadas de 1720 a 1750, sendo perpassadas por interesses dos colonos e das coroas ibéricas.

Os contatos entre a sociedade Jê meridional e a sociedade colonial durante os séculos XVII e XVIII contribuíram com a composição dos arranjos sociais e políticos desenvolvidos por estas populações durante os processos de ocupação e colonização do Planalto Meridional. As situações de enfrentamento e alianças transitórias entre nativos kaingáng e conquistadores ou missionários ibéricos parecem ter sido bastante dinâmicas, desenvolvidas em contextos específicos. Entretanto, não se pretende generalizar a presença kaingáng nas reduções jesuíticas ou seu envolvimento em alianças ou ataques a conquistadores, mas sim atentar às interações comerciais e mesmo pontuais dos processos de exploração e do início da ocupação daqueles territórios.

Com relação ao Planalto Meridional, as cartas dos padres jesuítas dos séculos XVII e XVIII comentam a dispersão de numerosos grupos, reconhecendo a existência de pelo menos três “grandes nações de gentios” vivendo no Planalto Meridional Brasileiro. O território de Ibiá ou Ibiaçá, delimitado ao norte pelo rio Pelotas, ao sul

pelo Jacuí, a oeste, pelo rio Passo Fundo, e a leste pelo litoral, conforme assinala Aurélio Porto, era reconhecido pelos agentes de ocupação ibérica (Porto, 1954, pp. 43- 62). Constituía, assim, território específico, um “país”, habitado por determinadas populações, reconhecido por índios guarani e por padres jesuítas29.

Essa região era habitada por diversas populações de gentios, que, apesar de sua diversidade, eram designadas como grupos de uma mesma “nação”, os quais, entretanto, eram profundamente diferenciados pela cultura e língua. Ao diferenciar o grupo Jê em três nações distintas, apenas por sua localização, os documentos jesuíticos espanhóis ainda subdividiam essas nações em grupos ou parcialidades, sendo tal diversidade expressa nos documentos espanhóis (Porto, s.d., p. 22).

Conforme esta diversidade, os gualachos ocupavam as margens do rio Iguaçu, os guananá seriam também designados de ibirajara, e estavam situados nas matas e campestres do Alto Uruguai, confrontando-se com os Tapes, ocupantes da bacia do Jacuí (Teschauer, 1918, pp. 16-19; 28-48). Segundo Aurélio Porto, os grupos designados Ibirayaras ocupavam a maior parte desse território, desde as margens do rio Paraná até as cabeceiras orientais do Uruguai, lindando com os carijós, ao norte, e com os Tapes, ao sul. Estavam em luta com os espanhóis e em transações comerciais com os portugueses, especialmente de escravos indígenas (Porto, s.d. pp. 24, 25):

Os Tapes, que lhes ficavam ao sul, vindo até Itapuã, lhes tinham horror porque os tomavam continuamente em presa, para vendê-los, como escravos, aos brancos que entravam a resgatar, em caravelões, pelo rio de São Pedro, até o Taquari (Porto, s.d., p. 25).

Aurélio Porto argumenta que os caaguás constituiriam o tronco originário dos

29 Ao investigar a origem e a dispersão dos indígenas no Estado, bem como seus contatos com europeus,

Aurélio Porto constata que as províncias do Tape, do Uruguai e Ibiá eram assim divididas devido aos grupos nativos que habitavam cada uma delas. Segundo o mesmo autor, o topônimo Ibiaça foi cunhado ou simplesmente utilizado por Cabeça de Vaca, significando a região de Laguna, mais precisamente a

região entre Laguna e a bacia do Jacuí. O grupo “tapuia-gês”, conforme referido por Aurélio Porto,

ocupava a província de Ibiaçá, onde o autor destaca duas principais nações deste grupo “racial”: Ibirayara e Caaguá (Porto, s. d., pp. 21-25). Autores como Aurélio Porto e Guilhermino César da Silva já apontavam nas décadas de 50 e 70 a existência de grupos kaingáng ou Jê meridionais nas reduções do Tape e do Guairá através de documentos jesuíticos. Porém, as pesquisas atuais trabalham com uma perspectiva bastante diferenciada daquela expressa por autores ligados aos institutos históricos do século XX, para os quais o indígena não possuía consciência de sua própria história. Atualmente estudos também embasados em documentos produzidos na época têm demonstrado a participação de nativos Jê nas reduções jesuíticas.

depois chamados coroados. Tinham suas aldeias nos Campos de Cima da Serra, e foram considerados pelo autor como os “últimos representantes do povo autóctone da região” (Porto, 1954, p.52).

Parece correto afirmar que os contatos dos séculos XVII e XVIII se caracterizaram por alianças instáveis. Ainda que, conforme afirmou Bartomeu Melià, os campos e as florestas do interior do Planalto Meridional do Brasil tenham permanecido “terra de índios” durante o século XVIII e início do XIX, as populações Jê habitantes dos planaltos sulinos vivenciaram de forma intensa a ação destruidora das expedições bandeirantes (Melià, 1985, p.176). Mais importante ainda, os impactos sociais, econômicos e políticos conformados pelas reduções jesuíticas no território foram consideráveis, tendo essas populações convivido com as Missões do Paraguai, de forma mais ou menos intensa, ou seja, tanto participando efetivamente da redução, vivendo nos povoados, quanto apenas fazendo parte de seu entorno social e econômico.

A região do interior do Planalto Meridional passou a sofrer expedições portuguesas de reconhecimento e comércio que adentravam o território subindo o Jacuí para comerciar com populações ribeirinhas, ou guaranis. Entre meados do século XVI e as primeiras décadas do seguinte, os contatos parecem ter ficado restritos ao comércio, seja de mantimentos, produtos nativos ou escravos, que eram trocados por ferramentas, miçangas e outros artigos. Aliás, essa era uma rede de trocas e comércio já existente entre diferentes populações indígenas. Durante o século XVII, os interesses paulistas sobre a mão de obra disponível nas reduções jesuíticas e nas aldeias nativas no interior do território promoveram saques, a escravização de indígenas, migrações, mas também um incipiente povoamento em certos locais onde se desenvolveram interações com os povoados nativos. A ocupação portuguesa da região do interior do Planalto Meridional ocorreu somente nas primeiras décadas do século XVIII, devido ao comércio de tropas de gados, e à consequente instalação de invernadas em certos pontos dos caminhos, a partir da expansão das Vacarias del Mar e dos Piñales, construídas a partir dos povoados missioneiros como suas estâncias.

Através da análise de dados produzidos por missionários, cronistas e exploradores, historiadores perceberam os desdobramentos dos estabelecimentos das reduções jesuíticas e da ocorrência das expedições de apresamento de nativos como escravos, sublinhando-se aqui as consequências especialmente entre os povos Jê meridionais.

Considerando a existência de um território propriamente Jê no Planalto Meridional e a conjuntura formada a partir do início do século XVIII, com o impacto das Reduções Jesuíticas na economia regional e nas relações sociais e políticas, percebemos que foi intensa a relação que grupos, reduzidos ou não, mantiveram com essas. Havia um intenso contato entre os grupos Jê reduzidos e os infiéis seus vizinhos, sendo que a experiência missioneira foi extremamente impactante para os grupos que habitavam tais áreas. Considerando a diversidade entre os chamados povos Jê meridionais, pode-se supor que os diversos grupos manifestaram atitudes particulares em contextos históricos específicos. Ainda, consideramos a participação dos xokleng – botocudos, kainguá ou laklño – nesses processos, uma vez que se pode aceitar que até o início do século XIX habitavam áreas entre o Iguaçú e o Uruguai, compartilhando, além do espaço litorâneo, também o interior do planalto com outros grupos e Jê e outras etnias.

Percebemos que, se houve muitos ataques indígenas aos povoados e aos viajantes das estradas, e dos moradores àqueles, também, desde muito cedo, esses indígenas procuraram aliar-se à conjuntura de exploração econômica do território. Ítala Becker & Luis Laroque argumentam que o Paraná foi, desde o século XVII, “polo de interesse colonizador, ligado aos distintos ciclos da economia brasileira”, gerando diversas formas de colonização, alicerçadas “no tripé mineração, agricultura e pecuária”. Em meados do século XVIII, com a exploração aurífera em Minas Gerais, as regiões sulinas passam a fornecer gado para o desenvolvimento dessa economia. Nessa conjuntura, os autores afirmam que “os Kaingáng mudam as suas atividades de mão de obra de mineração para a pecuária” (Becker & Laroque, 1999, pp. 29; 31).

O Planalto Meridional, assim, apresentava comunidades interligadas por laços de parentesco ou aliança e, ainda, salvo algumas especificidades, recursos naturais semelhantes, que motivaram tipos de exploração também semelhantes. A experiência dos grupos Jê meridionais nesse processo, generalizados como bárbaros e infiéis, parece ter ocorrido de forma dinâmica, sendo que experiências diferentes – de aliança comercial, escravidão ou redução – podem ter sido vivenciadas por esses grupos ao longo dos séculos XVII e XVII, alertando, entretanto, para a grande diversidade entre os Jê habitantes do interior do Brasil meridional.

A partir do início do século XVII, as expedições dos paulistas, que antes se restringiam às imediações do rio Tietê, passaram a percorrer distâncias maiores, procurando as direções Oeste e Sul, atingindo o planalto sulino. Utilizando-se das rotas

indígenas, paulistas e missionários entraram em contato com grupos interessados em estabelecer alianças, em uma conjuntura de intensificação das expedições que penetravam os sertões em busca de indígenas para mão de obra (Monteiro, 1994, p. 58):

Durante as primeiras décadas do século XVII, os paulistas concentraram suas atividades em duas regiões, que ficaram conhecidas como o sertão dos Patos e o sertão dos Carijós. O sertão dos Patos, localizado no interior do atual estado de Santa Catarina, era habitado por grupos guarani, identificados, entre outras, pelas denominações Carijó, Araxá e Patos. O sertão dos Carijós, por sua vez, abrangia terras além das margens do rio Paranapanema, igualmente habitadas, sobretudo, por grupos guarani, porém incluindo também diversos grupos não guarani. Esta imprecisa referência geográfica remetia-se, provavelmente, a Guairá, região circundada pelos rios Piquiri, Paraná, Paranapanema e Tibagi. [...]. Na procura por trabalhadores indígenas, os colonos buscavam suprir-se, inicialmente, de duas maneiras: através do escambo ou da compra de cativos. [...] na expectativa de que estes orientassem mutirões para as lavouras europeias (Monteiro, 1994, pp. 61- 62).

As tentativas de redução junto a esses grupos ocorreram em um ambiente bastante tenso. A conjuntura acabou por se traduzir na necessária reavaliação das alianças intratribais preexistentes em face da guerra e das epidemias. É significativo que a partir da década de 1620 diversos grupos relacionados aos Jê meridionais buscaram aldear-se nas reduções do Tape e do Guairá30. Houve muitas tentativas ao longo dos séculos XVII e XVIII de missionar esses grupos, mas parece que eles consentiam em se aldear apenas em momentos críticos que os punham em perigo. Essa data corresponde ao aumento das investidas paulistas nas proximidades da área, sendo possível pensar que os índios se reuniram com o objetivo de se proteger de seus inimigos.

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No início do século XVII (1626-1637) foram estabelecidas reduções entre os rios Paraná e Uruguai, no oeste dos atuais Estados do Paraná e Rio Grande do Sul. Os aldeamentos de N. S. de la Candelaria, e Martyres del Caaró, entre os rios Ijuí e Piratini, Asunción, ao norte do Ijuí Grande, San Joanes, na margem esquerda do Ijuí, próximo à sua foz no rio Uruguai, San Nicolás, na margem sul do rio Piratini, próximo de sua foz no rio Uruguai, Santa Teresa, nas proximidades da cidade de Passo Fundo, San Carlos del Caápi, ao norte do Ijuí Grande e Apóstoles de Caaçapá-Guazú, entre os rios Ijuí Grande e Ijuí-Mirim, provavelmente foram também constituídos por indígenas da nação Guaianá, ou Guananá, conforme referido por Guilhermino Cesar da Silva (Silva, 1970, pp.61-62). Na região do atual Paraná, foram fundadas outras onze reduções, sendo as de São Francisco Xavier em lugar denominado Pinheirais, São José e Encarnação no alto Tibagi e ainda Conceição, nas nascentes do rio Tibagi, e São Pedro, sendo as duas últimas estabelecidas na região dos índios Guanãnos, e constituída pelos mesmos. Ainda, o Padre Antonio Ruiz de Montoya escrevia sobre índios Gualacho, que habitavam as terras entre os rios Piquiri e Iguaçu, os quais estava procurando reduzir (Carta Ânua de 1627 do Pe. Antonio Ruiz de Montoya, apud Gadelha, Regina, 1981, p.87).

John Monteiro afirma que já no final da década de 1620 o caminho terrestre para o Guairá havia se tornado preferível à rota marítima que chegava até Laguna, local onde havia, no final do século anterior, um modesto tráfico de escravos. Um parecer escrito pelo Pe. Ruiz Montoya e inserido em um Memorial dirigido ao Rei da Espanha nos esclarece sobre como era estabelecido o suporte para as bandeiras paulistas:

Que la villa de San Pablo y otras circunvecinas hecen quatro o cinco compãnias de quatrocientos y quiñientos hombres mosqueteros com quatro mily más indios flecheros, gente muy belicosa y bestial, [...] caminam por aquellas tierras, montes y valles sin ningun estorbo, trescientas y quatrocientas legoas, sin que jamás les falte la comida, porque saben cojer el tiempo em que los piñones estan sazonados y los parajes donde han hacer provision: saben las poblaciones de los gentiles, de cujas labranzas se sustentan y previnen para adelante (Memorial de 1628 do Pe. Montoya ao Rei de Espanha, apud Cortesão, s.d., p. 157).

A partir desse registro podemos constatar que havia certos grupos indígenas habitantes do próprio planalto, também envolvidos nas bandeiras, tanto para garantir o seu abastecimento, quanto para realizar os ataques às reduções jesuíticas. Os primeiros contatos com as populações indígenas da região ocorreram através de expedições de reconhecimento ou mesmo comerciais. Lugares conhecidos, como o porto dos Patos, em Laguna, e a Província de Ibiaçá, tornaram-se locais conhecidos por fazerem parte do trajeto das expedições comerciais e de apresamento já nos primeiros anos do século XVII. Parte do território desses grupos Jê constituiu uma importante base de operações do bandeirismo e de uma ampla rede comercial, pela sua ligação direta com o velho porto de Laguna e a Ilha de Santa Catarina (Porto, 1954).

Essa rede comercial estava integrada à exploração do litoral sudeste e sul do Brasil. O envolvimento de grupos do interior nos apresamentos de outros nativos para fomentar a escravidão indígena foi analisado por John Monteiro como parte integrante da utilização de mão de obra indígena na economia do sudeste. O autor afirma que grupos como os Jês meridionais não eram considerados escravos ideais, mas, no entanto, a partir da década de 1630, as expedições de apresamento dirigiam-se cada vez mais para longe das áreas imediatamente adjacentes à cidade de São Paulo. Tomando as direções norte, oeste e sul, novas expedições levaram milhares de prisioneiros para trabalhar para paulistas. Assim, populações que antes integravam essa rede comercial agora passavam a serem elas próprias presas dela (Monteiro, 1994, pp.61-63).

indígenas para o outro lado dos rios Paraná e Uruguai. Além dos indígenas aldeados, alvo das bandeiras no período, também outros grupos que não foram missionados sofreram os reflexos da conquista, provocando o extermínio de muitas aldeias, a fuga de outras e ainda as rearticulações entre as populações que habitavam aqueles territórios, no sentido de protegerem-se dos ataques. As reduções do Guairá foram esvaziadas em 1631, tendo cerca de 12.000 guarani se retirado pelos rios Paranapanema e Paraná para o sul do Rio Uruguai. Milhares foram aprisionados e escravizados pela economia do sudeste. Muitos outros emigram para o poente através do rio Paraná para terras paraguaias e mato-grossenses, tendo, mais tarde, voltado a migrar em direção ao mar (Monteiro: 1994 p.55-63). A ação das bandeiras paulistas e a transmigração das reduções jesuíticas para a outra margem do Paraná durante o século XVII ocasionaram não só o decréscimo populacional na região entre os rios Paraná e Iguaçu, como também uma reformulação das ações indígenas. Sua passagem perturbava consideravelmente a circularidade daquelas sociedades, bem como suas relações sociais. Nesse contexto, entretanto, as populações Jê que resistiram à redução na região encontraram oportunidade para expandir seus domínios.

Não obstante, a expansão do povoamento vinculada à procura por mão de obra fez retomar a escravização de populações guaianá, devido à queda no fornecimento de cativos guarani. John Monteiro escreve “As expedições de João Mendes Geraldo, Antonio Pedroso de Barros e Fernão Dias Pais, voltando ao antigo Guairá para capturar os Guaianá remanescentes, trouxeram em 1645, 1650 e 1661 muitos cativos. [...]” (Monteiro, op. cit., p. 82-83).

Nesse momento, podemos dizer que alguns grupos de paulistas, mamelucos ou mesmo índios tupi, se estabeleceram nos entrepostos bandeirantes que constituíram ocupações transitórias em campos e florestas (Alencastro, 2000, p. 64). Esses grupos estavam completamente envolvidos na economia paulista, mas também, e de modo complementar, atuando junto com comunidades indígenas da região, utilizando-se de seus conhecimentos, inserindo-se em suas relações sociais. É importante sublinhar que contatos e interações econômicas e sociais se produziram em um contexto marcado pela ampla ação de expedições legais e ilegais de aprisionamento e escravização dos indígenas. Especialmente nos povoados estabelecidos a partir das regiões interiores de São Paulo sobre o planalto, como em alguns entrepostos avançados no seu extremo sul, os novos povoadores reproduziam o uso da mão de obra indígena e fomentavam a rede

de expedições de aprisionamento das populações nativas. As expedições de aprisionamento escravizaram milhares de indígenas do Planalto Meridional para servirem à economia do sudeste. Além disso, elas promoveram a expansão do conhecimento luso, o conhecimento de áreas remotas em relação ao litoral e a São Paulo e seu inicial povoamento.

Esse primeiro período de ocupação a partir das bandeiras e do povoamento por paulistas “brasileiros” na região norte do Estado é ainda bastante nebuloso, e poderia ser traduzido por poucos pontos avançados a partir de Vacaria e do Mato Português. A história dessas sociedades indígenas e europeias durante a conquista do Brasil Meridional foi bastante violenta e dinâmica.

Essa ocupação foi marcada tanto pelo saque às aldeias indígenas e aos gados, quanto por contatos comerciais através de trocas e alianças ocorridas por meio da união de nacionais com índias, geralmente filhas de caciques. Essas alianças dependiam das circunstâncias, como uma guerra ou o poder que o indivíduo aceito no grupo dispunha, bem como da anuência de todos ou de parte dos chefes de família, sendo instáveis e dependentes de acordos firmados em negociações constantes (Monteiro, 1998, pp.57- 61).

Comentando o processo de ocupação de um desses núcleos populacionais originados pelos movimentos bandeirantes, Ney d’Àvila destaca a miscigenação e a introdução de um novo modo de explorar o ambiente. Grupos de indígenas guarani e de kaingáng podem ter sido atraídos para estes arraiais, cuja orientação econômica e social era bastante diversa daquela praticada nas aldeias. Tais estabelecimentos promoveram, com certeza, novos desdobramentos nos contatos entre os guarani e os kaingáng:

Com o abandono do Sul pelas bandeiras paulistas, atraídas pelo ouro das Minas Gerais, a peonada das bandeiras, isto é, a força de trabalho dessas

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