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Konklusjon

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As escutas da intimidade que apresentamos aqui possuem duas significações não excludentes, mas distintas. Uma se refere a um índice de distanciamento entre som e escuta, cuja qualidade pode variar conforme a natureza do som. Este índice - trazido tanto pelas qualidades acústicas de tal espacialidade impregnadas no som gravado, quanto de sua ligação a sons corporais - seria referente a uma sensação de intimidade impulsionada por um som cuja emissão (virtual) localizar-se-ia em uma zona da intimidade (Hall apud SMALLEY: 2007, p. 41), ou seja, a uma proximidade que, em uma situação normal, seria a do ato sexual ou a da prática de alguns esportes de contato físico (ainda conforme o texto de Smalley). Embora muito desta experiência encontre-se no terreno do imponderável, em algum grau, pelo menos no que tange uma sensação de mera distância entre a fonte virtual do som e a escuta, tal relação pode ser objetivada, mensurada e catalogada. Assim, no que se refere aos preceitos deste trabalho, não é de se excluir tal categoria como parâmetro objetivo em uma análise dedicada às estratégias de fruição criadas na Symphonie68. No entanto, esta relação pode ser intensificada se tais sons forem

carregados de índices corporais, inclusive negativamente se estes se referirem a uma ameaça ao espaço do ouvinte, como observa Smalley no texto citado. No caso da intimidade trazida pela presença de tais sons corporais, não cabe uma análise objetiva69.

A outra noção de intimidade é tomada de um ponto de vista distinto da anterior, e se atém aos graus de identidade que os sons corporais podem criar no ouvinte. Tal processo dá-se pelo uso de sons cujo foco seria, não a linguagem verbal ou musical, mas a própria expressão corporal, ressoando por simpatia na garganta, no abdome, em todos os pólos ligados à sexualidade, ao ato e ao ritmo da respiração, da deglutição, etc. Tal ressonância não se daria em pontos específicos de um corpo tomado enquanto um organismo – de um conjunto de mecanismos funcionais – mas como uma unidade ininterrupta expansiva e expressiva70. Neste caso, o índice de uma proximidade íntima não

68 Item Índice de proximidade de qualquer som ao ouvido, da tabela 2 (p. 131).

69 Item Índice de sons vocálico-corporais gravados com proximidade da tabela 2 (p. 131). 70 Item Índice de sons vocálico-corporais com foco na corporeidade da tabela 2 (p. 131).

é tão determinante, embora também seja um fator para localizar no corpo de quem escuta os sons vindos de outrem71. Embora a intensidade dos índices seja imponderável e de

difícil objetivação, o seu entendimento é chave para adentrarmos nas poéticas do espaço levantadas pela obra em questão, sendo relevante apontar com mais precisão qual a natureza de tal experiência na especificidade de suas aparições, embora não seja possível traçar categorias abstratas ou genéricas provindas deste tipo de relação .

O percurso que tivemos até aqui, iniciado a partir do conceito que suporta a Symphonie de Schaeffer e Henry, levou-nos a estes dois modelos de escuta do espaço da intimidade, com seus respectivos pontos de ignição e de atuação. Embora um campo não seja excludente do outro, tais categorias possuem particularidades: a primeira, do distanciamento, é mais genérica que a segunda, pois embora catalisada também por sons vocálico-corporais, inclui qualquer som que possua índices de proximidade enquanto zona de intimidade. A categoria da identidade, todavia, depende da presença forte de sons que remetam ao corpo72. Sua atuação se dá em outra esfera, em que o espaço entre som e a

escuta torna-se tão exíguo ao ponto de uma fusão; em que a corporeidade expressa no som tem como suporte o tecido de quem escuta.

As diferenças entre as categorias podem ser assim sistematizadas:

71 Item Índices de proximidade de sons vocálico-corporais com a escuta da tabela 2 (p. 131).

72 E mesmo de sons que não remetam diretamente ao corpo mas que catalisem igualmente tal efeito de identificação, como seria sons de água levemente sacudida gravados em proximidade, que remetem à sensação do banho, da imersão, e mesmo ao ato de urinar.

Escutas do espaço da intimidade

Distância Identidade

Pontos de

ignição • Índice de proximidade de qualquer som ao ouvido (categoria objetiva) Índice de sons vocálico-corporais gravados com proximidade (categoria não-objetiva)

• Índice de sons vocálico- corporais com foco na corporeidade

(categoria não-objetiva)

Índices de proximidade de sons vocálico- corporais com a escuta (categoria objetiva)

Campos de

atuação • Som cuja fonte (virtual) adentraria na Zona de intimidade do ouvinte.

Relação intensificada pela presença de sons vocálico corporais.

• Som vocálico-corporal que atua em ressonância com a corporeidade do ouvinte. Anulação do espaço entre som e escuta.

Relação intensificada se o som se apresenta enquanto próximo ao campo de intimidade do ouvinte.

Tabela 2: Escutas do espaço da intimidade: índices de proximidade e imagem causal.

Temos aqui uma relação inversa entre as categorias Distância e Identidade, pois enquanto no campo Distância o fator índice de proximidade é decisivo para expressar um som cuja fonte estaria virtualmente próxima ao ouvido – portanto desta noção de intimidade – na categoria Identidade este índice é secundário. No entanto, para esta categoria a presença de sons corporais é decisiva para o processo que nomeamos de identificação, ao passo que para a primeira categoria tal presença é, embora fator de intensidade, apenas um caso.

Por outro lado, em campos de atuação, mostra-se a diferença de perspectiva entre uma categoria e a outra no que tange o tipo de estratégia de mobilização poética: a primeira (Distância) se atém meramente a uma experiência de proximidade; a presença de sons vocálicos pode conduzir ou não à segunda categoria (Identidade), mas seu cerne

está na identificação de uma proximidade. Há, portanto, uma separação entre interior e exterior da escuta; corpo (escuta) de ambiente.

A segunda categoria (Identidade) é de outra natureza, ou, ao menos, opera com outra intensidade, tomando o espaço como prolongamento de um corpo que, expresso pelo som, tem reflexo na escuta, como já apontamos. É como se o espaço expresso nestes sons corporais: seu movimento, suas velocidades e intensidades ressoasse virtualmente na dimensão do corpo que escuta. Pode-se ter essa mobilização mesmo nos gestos instrumentais73 que possuem uma imagem corporal clara, pois o som dá indício do

espaço de um corpo que, como na dança, expandiu-se e impregnou-se de sentido. Tomemos, então, enquanto conclusão, a seguinte experiência:

(…) completamente nus, mergulhados numa banheira funda, só com a cabeça de fora, façamos cair na superfície da água, aos nossos pés, uma aranha. Sentiremos o seu contato sobre toda a nossa pele. A água criou um espaço do corpo delimitado pela pele-película da água da banheira. Podemos já extrair daqui duas consequências quanto às propriedades do espaço do corpo: prolonga os limites do corpo próprio para além dos seus contornos visíveis; é um espaço intensificado por comparação com o tato habitual da pele. (GIL: 2009, p. 47)

O tímpano (e a pele, em se tratando de sons graves), no caso da escuta, seria esta superfície de contato com o meio externo, sendo também a superfície da inscrição sonora dos gestos vocálico-corporais. É nesse sentido que apontamos um corpo na escuta intrincado por outro, que ressoa neste.

73 Ou qualquer corpo sonoro, caso aquilo que se manipule para gerar os sons não seja um instrumento musical.

3.2 Parte 2: Uma poética da intimidade: Jacques Copeau e Pierre

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