• No results found

Se as preocupações com uma linguagem a partir do sonoro estariam em voga desde os anos 40, talvez a Symphonie estivesse a meio caminho entre este pensamento e a formulação, bem posterior (no Traité des Objets Musicaux, de 1966), da escuta reduzida enquanto atitude e método para a classificação tipo-morfológica (solfejo generalizado); a

64 Conforme aponta um texto de Caesar: A Escuta como objeto de pesquisa, disponível em: <http://acd.ufrj.br/lamut/lamutpgs/rcpesqs/10escup.htm>. Acesso em 23/09/2010.

formulação de uma linguagem musical “com todos os sons”. A escuta reduzida já é sugerida pela abordagem que a música concreta dá ao uso do sulco fechado, como sugere Schaeffer (SCHAEFFER: 1966, p. 391). Ela, portanto, provém de uma particularidade do suporte que, nas obras de música concreta, se afirma também enquanto ação forte65

explorada de modo consistente na obra musical de Schaeffer e Henry. O sulco fechado, descreve Schaeffer, seria ou um erro na gravação normal dos discos de acetato, ou uma atitude proposital do operador de gravação que, isolando um “fragmento sonoro”, faz o sulco, que na gravação normal segue em espiral, “morder o próprio rabo”, realizando um círculo cujo final coincide com seu início (SCHAFFER: 1952, p. 40). Uma figura, reproduzida no próprio texto de Schaeffer, ilustra o princípio:

Figura 16: Sulco Aberto e Sulco Fechado.(SCHAFFER: 1952, p. 40).

O espiral representa a gravação normal, em que “a máquina de gravação sonora (…) desenha seu próprio símbolo. A espiral do gravador não é só a realização material, mas a afirmação de um tempo que passa, que passou, que não voltará jamais” (SCHAEEFER: idem, ibidem). Representa, assim, um tempo linear e teleológico, ou seja,

65 Conceito elaborado por Caesar em sua tese de doutorado, assim formulado: “A ação forte dos dispositivos de transformação sonora e de criação de formas sonoras abstratas ocorre quando estes dispositivos impõem muito de seus próprios efeitos característicos, por vezes enganando os compositores em sua crença de que o resultado obtido é devido às características pertencentes ao som de entrada ou à sua imaginação (…). O mesmo pode ser dito quando um uso exagerado de dispositivos marca os sons ou os eventos com uma presença que subjuga os próprios sons (e eventos) (...)” (CAESAR: 1992, Glossary). Embora possua decorrências negativas, o conceito nos parece pertinente para marcar a influência

direcionado para o futuro. Já o círculo representa a gravação que morde o próprio rabo, isolando do contínuo um fragmento, que tem assim duração diretamente proporcional ao raio da circunferência do trecho do disco selecionado, portanto uma duração limitada pela materialidade do suporte. Se tocado o fragmento, a agulha permanecerá presa na teia circular, realizando um loop, continuamente:

(…) “Fragmento sonoro” que não terá mais nem começo nem fim, uma fagulha de som isolado de todo o contexto temporal, um cristal de tempo com arestas vivas, de um tempo que não pertence mais a tempo algum. (SCHAEFFER: 1952, p. 40)

Como já apontamos, a música concreta se utiliza destes loops na forma de um ostinato que prolonga o tempo musical, além de criar ritmos a partir da combinação dos fragmentos. É sobretudo no contexto das preocupações schaefferianas na época da composição dos Cinq Études de Bruits - em que a técnica do sillon fermé aparece sistematicamente – que o loop serviria, no seu projeto musical, para liberar o sonoro de suas referências externas ao fixado no suporte em uma atitude que foca a atenção ao interior da gravação:

(…) mesmo se o ruído me garantisse uma certa margem de originalidade com relação à música, eu era conduzido (…) ao mesmo problema: arrancar o material sonoro de qualquer contexto, dramático ou musical, a fim de querer lhe dar uma forma. (...)

Ora, o sulco fechado me dava a sensação de que eu possuía um poder de análise incontestável. O sulco fechado, a despeito de seu comportamento descontínuo, - que fazia pensar nas colagens da primeira pintura surrealista – liberou, em uma matéria tão inóspita quanto o “wagon

puro66”, os elementos de montagem que, inegavelmente, eram aptos

à construção, sem nenhuma ideia de imitação. (SCHAEFFER: 1952, p. 47).

A escuta do sulco fechado leva, assim, a um aprofundamento da escuta ao interior

66 Uma referência ao Étude aux Chemins de fer, um dos Cinq Études de Bruits, em que o autor trabalha deliberadamente com sons ferroviários, transitando entre uma escritura puramente referencial e outra feita a partir do ritmo dos loops e dos eventos sonoros mais contínuos. Cf FENERICH, 2004.

da mídia pela interrupção do fluxo temporal e focalização no evento separado pelo loop. A técnica schaefferiana dirigir-se-á a um aproveitamento positivo de uma particularidade do suporte (o sulco fechado) para retirar deste procedimento em mantra uma metodologia, a escuta reduzida. Ela opera a partir de uma escuta do interior do suporte elevada à segunda potência: além de isolar o som do contexto de sua gravação e, por conta de um hábito presente já no estetoscópio, isolar este som gravado de outros eventos sonoros concomitantes - exteriores ao objeto gravado – o sillon fermé anula o fluxo temporal próprio ao som gravado em suporte e, ao fazê-lo, cria artificialmente um rasgo na temporalidade do som originalmente gravado. Desta forma, tira-lhe qualquer direcionalidade temporal por conta da escuta circular e de duração indefinida. Realiza, portanto, uma descontinuidade em um objeto cuja natureza é eminentemente contínua, tanto temporalmente quanto sintaticamente.

A Symphonie de Schaeffer e Henry trabalha a partir da gravação, portanto com um fluxo contínuo de dados. No entanto organiza descontinuidades na forma de loops, que abrem vãos na escuta de modo a construir, no tecido da obra - e não no próprio som gravado - elementos discretos de um discurso (pois é esta sua proposta: não se trata de um registro de uma performance, e sim de uma composição a partir de sucessivos registros). Mas, paradoxalmente, o faz a partir da gravação da voz, e esta aparece muito claramente nos trechos em loop. Mesmo o elemento mínimo da composição – os loops de vozes e de outros sons – possuem dentro de si um extrato contínuo e concreto, intransponível à discretização e que, por vezes, remete também à corporeidade a que nos referíamos na seção 3.1.2. O loop se configura portanto como elemento discreto na composição da obra sem deixar de carregar significações ligadas a um espaço da intimidade, à corporeidade. Apesar de se configurar enquanto dispositivo descontínuo do ponto de vista temporal, não se configura porém – ao menos nesta obra - como elemento suficientemente neutro para ser emoldurado como caractere em um sistema de linguagem descontínua. Será na tipo-morfologia dos objetos sonoros a tentativa schaefferiana de marcar os elementos de uma linguagem provinda do sonoro, e este gesto se daria a partir da escuta reduzida, que destaca do contínuo os objetos e os classifica. Processo, portanto, ulterior à composição com loops e que, como já apontamos, tende a uma anulação dos caracteres ligados ao corpo nas obras que seguem esta tendência – pela rigorosa composição a partir de caracteres sonoros abstratos.

In document Sosial støtte og livskvalitet (sider 7-0)