Nas entrevistas perguntou-se também aos alunos o que fariam se tivessem autoridade para fazer mudanças, elencando possibilidades incluídas nas discussões recentes para se melhorar o ensino médio, como a existência de matérias optativas, ensino integral, excursões, matérias profissionalizantes, entre outras. Na escola Alfa, três alunos citaram que caso fossem gestores da escola, seriam mais rigorosos em relação à aplicação das regras. O aluno Roberto, por exemplo, disse que se fosse o diretor, “seria um pouco mais rígido. Não em relação aos
professores ao todo, mas em relação aos alunos que hoje em dia não respeitam uniforme, não respeitam nada (...)”. Outros jovens estenderam a rigidez das normas não só em relação aos
alunos, mas em relação a alguns professores também, que faltam muito, não explicam direito ou simplesmente não dão aula, apesar de estarem na sala. Jair, da escola Alfa, por exemplo, diz que se fosse o diretor, “(...) pegaria mais pesado com os professores, que eu vejo que tem muitos professores aí que não colaboram também, que dizem que querem uma coisa, mas não fazem isso, quer respeito, mas não respeita”. De fato, apesar de nas aulas observadas a atitude
dos alunos da escola Alfa ser mais próxima das normas institucionais dentro da sala de aula com o professor, havia uma dificuldade em se manter a escola organizada devido ao fato de o absenteísmo de professores ser alto. A qualidade da formação dos professores também foi citada, como, por exemplo, por Roberto e Tatiane, ambos da Alfa, que se queixaram da “formação fraca” de alguns docentes. Felipe, presidente do grêmio da Beta, também falou que:
“Deveria ter mais participação dos professores. Os professores participam pouco porque agora a gente fez a semana cultural. A gente do grêmio tinha feito a balada. A gente ia fazer com a turma da manhã e com a turma da tarde. Aí a turma da manhã, cancelou a nossa balada porque não tinha semana cultural porque a nossa balada ia ser na sexta feira, o encerramento da semana cultural. Aí a turma da manhã não teve semana cultural então eles cancelaram a nossa balada. Só teve balada pra turma da tarde. Por que não teve ajuda de professor, não teve ajuda de ninguém. A única professora que entrou foi a professora de EF que fez o interclasse, senão não ia ter nada”.
Na escola Beta também se mencionou que seria muito importante que a gestão acompanhasse mais de perto os alunos, pois havia indisciplina e até porte de drogas e arma. Houve, no entanto, o reconhecimento que com a nova direção,33diminuiu o número de brigas e aumentou a sensação de segurança. O aluno Gil, por exemplo, diz que “antigamente tinha
muita briga, quase todo dia tinha briga, agora a segurança está melhor [devido à] mudança de diretores”. Fagner corrobora isso ao dizer que a direção “não tranca a porta, porque se tiver uma briga ali, ele não pode trancar o portão, porque acabou de sair da escola, tá na rua, mas tá na frente da escola. Eu acho que devia ajudar, mas antigamente não tinha isso não”. A presença de um poder político atuante no seio da escola de ensino médio é, portanto, uma questão importante e no decorrer das observações de campo percebeu-se que quando os jovens percebem esse “vácuo” no poder, eles se apoderam dele e a situação na escola fica caótica, como se observou na última semana letiva da escola Alfa. A vice-diretora da escola Beta, inclusive, mencionou que quando assumiu, os alunos estavam fora de controle e a xingavam quando ela os chamava a sala da direção, mas que agora eles estavam conseguindo reverter isso. Esse poder político, por sua vez, deve escutar os alunos, como afirmou Rafael, da Alfa ao dizer que se fosse diretor, “colocaria algo a mais, pra você ter algo, você tem que
dar pra receber, então conversar com os alunos pra falar “olha, dou isso, mas em troca você tem que me ajudar nisso”. Karla, da Beta fala que “(...) eles colocam professor na escola, mas não sabem como o professor é... Igual, o professor passa tudo na lousa e eles não sabem disso. A gente vai lá e fala, mas eles não acreditam, também não vão lá ver. Eles também tinham que participar, com aluno, com professor, né?”. A gestão, com efeito, deveria estar
mais presente, tanto em relação à disciplina, quanto em relação ao que se passa na escola e no trato com os alunos.
Outro ponto mencionado praticamente por todos os jovens foi a falta de interesse e a falta de sentido que muitos enxergam nas atividades escolares. Assim, os catorze estudantes entrevistados mencionaram com maior ou menor ênfase a premência de maior variedade no rol dessas atividades. Alguns alunos, por exemplo, apontaram como a realização de excursões e aprendizado em locais diferentes seria um grande estímulo a eles. Felipe, da escola Beta, por exemplo, disse que seria importante “(...) fazer aulas diferenciadas, que nem na aula de
biologia, vamos ali na pracinha estudar não sei o quê, vamos ali...”. Karla, da mesma escola
diz que se fosse diretora, “colocaria mais passeio pros alunos, para ficar melhor a escola
33 A nova gestão estava na escola há cerca de três anos em substituição à anterior que havia ficado por mais de
(...)”. Fabio, também da Beta, diz que seria importante ter “(...) tipo uma aula diferenciada, uma aula na quadra, uma aula numa sala ambiente, por exemplo...”. A aluna Tatiane, da Alfa, também diz que excursões ajudariam “(...) você ter interesse de querer aprender mais e
se tem uma coisa, tipo assim “vamos ali” e as pessoas vê assim “ah, legal”, vai ter interesse, porque é do ser humano, de querer ver mais, de querer conhecer mais, acho que isso ajudaria muito”. Jair, também da Alfa diz que “eu acho que tipo tem como você aprender fora da
escola também. Tem muitos lugares aonde a gente ia em São Paulo principalmente que você aprende muito, tipo e se diverte, e sai, tem muitos projetos por aí e a escola não faz isso(...)”.
Outro item apontado pelos alunos como pertinente para quebrar a monotonia do ensino médio é a possibilidade de o aluno optar por matérias de seu interesse. Nas palavras do aluno Cássio, “(...) quer ter aquela aula vai, se não, vá a outra que te interesse mais”. Gil, da mesma escola afirma que “(...) gostaria que a escola fosse que nem nos Estados Unidos, os
alunos escolhessem as matérias que queriam, porque tem aluno que gosta de uma matéria e aí faz a lição toda, aí não gosta da outra e não faz nada”.
Há também a indicação de que aulas práticas poderiam, além de fomentar o comprometimento do estudante com a escola, ajudá-lo na escolha profissional. Fagner, da escola Beta, diz que:
“Seria bom [matérias profissionalizantes], porque eu acho que eles iam ter mais compromisso com a escola, né? Porque isso aí já vem para ajudar no futuro, né? Porque se você faz um curso de culinária ou alguma coisa, aí você faz aqui na escola também, aí já da pra você fazer alguma coisa pra fazer uma faculdade e assim melhorar né?”
Fábio, da mesma escola diz que essas aulas podem “(...) ajudar os alunos a serem mais interessados ao que eles vão fazer no futuro, porque muitos até agora não sabem o que vão fazer quando saírem da faculdade ou se forem fazer uma faculdade depois que saírem do ensino médio” Roberto, da Alfa, acompanha a ideia e afirma que matérias profissionalizantes
ajudariam os jovens a:
“(...) ter uma referência ... por que é uma coisa que se você fizer , é pro resto da sua vida, então o ensino médio é o decisivo, é o que você vai parar e refletir “o que eu quero?”. Porque não adianta acabar o ensino médio aí depois eu vou trabalhar em qualquer lugar para depois eu decidir que faculdade que eu quero fazer”.
Vê-se que a presença de matérias profissionalizantes, na visão dos alunos, não se restringiria à preparação imediata para o mundo do trabalho, apesar de essa preocupação ter sido expressa, mas também se relacionaria com proporcionar aos diferentes sujeitos
experiências que os auxiliassem a encontrar suas aptidões. Além das aulas práticas, foram sugeridas palestras para contribuir nesse sentido, como o jovem Jair, da escola Alfa, que diz:
“Acho que 99% ainda não sabe o que quer fazer, não estão decididos. Então se fosse aquela coisa de tipo, de trazer um médico aqui na escola e falasse de como é a faculdade de medicina, trouxesse um advogado e falasse como é a faculdade de direito, o que é preciso, o que que cai, todo mundo tem essas dúvidas, né? Tipo, é muita matemática, é mais humanas, o que que é, salário, depois é fácil de arrumar um emprego? Se trouxesse essas pessoas pra poder, tipo, dá umas palestras, conversar com os alunos , abriria mais a mente deles”.
Expressou-se, por fim, a proposta de que a escola trabalhasse o lado psicológico dos jovens, os conscientizando das inúmeras questões que os envolvem, incentivando-os a buscar o desenvolvimento tanto social, quanto o econômico e subjetivo. Tatiane, da escola Alfa, nesse sentido, diz que “(...) muitas pessoas num sabem realmente o conhecimento da vida. O professor falar “gente, não faltem, olha isso, olha aquilo”, eu acho que seria bem melhor [se
os professores orientassem mais os alunos]”. Fábio de Beta, também diz que, se fosse o diretor, “estruturaria psicologicamente os alunos, (...) com conscientização, com palestras e
nas aulas eu incluiria alguns materiais didáticos que conscientizassem os alunos”. Cassio, da
mesma escola, afirma que seria importante: ...
“Mostrar ao aluno que a escola é dele, diferente da escola particular que tem um dono(...). Já a escola pública é literalmente nossa, é paga com dinheiro dos nossos impostos, é nossa literalmente, construída por nós, por integrantes da sociedade e também da região, da comunidade aos entornos da escola e que, não pensando nisso, alunos da escola particular conseguem muito bem preservar a escola por assim “ah a escola é nossa, a gente tem que preservar”. O aluno da escola particular tem o pensamento que o aluno da escola pública deveria ter”.
Vê-se que os estudantes entrevistados propõem uma escola de ensino médio mais abrangente, pois reconhecem que têm muita dificuldade em se manter interessados. Esse interesse, contudo, poderia ser promovido por ações desenvolvidas pela própria escola de duas maneiras. Uma delas diz respeito à necessidade de a escola se organizar melhor por meio de uma gestão que propicie maior aproximação entre os sujeitos que a frequentam, incluindo aí gestores, professores e alunos. Os gestores, apontaram os entrevistados, devem acompanhar de perto o cotidiano escolar e coibir atos de indisciplina, além de desenvolverem escuta e negociação com os alunos para haver reciprocidade e, consequentemente, mais comprometimento. Alguns professores, para os estudantes, deveriam ser mais motivados e mais qualificados tanto no conhecimento de sua matéria como em termos de gestão de aula, para estimular o jovem a aprender. Além disso, a escola deveria ser mais assertiva no estabelecimento e cumprimento das regras para obter mais disciplina dos alunos. Lendo as
transcrições das entrevistas, vê-se que os discentes apontam que se os sujeitos escolares agissem mais próximos de suas obrigações institucionais, a escola de ensino médio seria mais dinâmica, mas que há mecanismos dentro da escola que minam isso.
Foram apontadas, também, questões relacionadas a outras instâncias, como o currículo, principalmente. Os jovens expressaram que aulas expositivas na sala de aula não são atraentes para todos e por isso a escola de ensino médio deveria ter aulas diferentes, seja em ambientes escolares distintos, como laboratórios, por exemplo, como também em locais além dos muros, como praças, museus, monumentos e etc. A contribuição que o ensino médio deve dar em relação à escolha profissional também foi citada por muitos sujeitos e, nesse sentido, foram destacadas as palestras dadas por profissionais, bem como a oferta de matérias profissionalizantes de caráter formativo, que poderiam ser de grande valia. Aludiu-se, por fim, ao fato de a escola de ensino médio dever servir como referência aos jovens em relação às suas escolhas presentes e futuras, mostrar-lhes como funciona o mundo, como suas ações têm consequências.
À escola de ensino médio, portanto, é atribuída, pelos estudantes entrevistados, importante potência formadora. A escola vivida na prática pelos jovens das duas escolas, contudo, não realiza essa potência. Importante destacar que essa concepção de ensino médio se coaduna com o diagnóstico exposto em documentos oficiais como o ProEMI (BRASIL, 2009), as DCNEM (BRASIL, 2012), o sumário executivo do Banco Mundial (2010) bem como trabalhos acadêmicos como Soares (2008), Barbosa (2011) e Schlickmann (2013) que descrevem a escola de ensino médio, de maneira geral, como pouco atrativa ao jovem e que pouco contribui para sua formação pessoal e profissional.
As proposições para esse nível por parte dos adolescentes entrevistados, desse modo, são no sentido de trazer maior variedade a seu cotidiano (sendo que muitos enfrentam limitações comuns a jovens pobres residentes dos centros urbanos), estimular seu interesse por aprender e conhecer e, por fim, ajuda-los a encontrar o caminho profissional e de vida que se afigura em seu início para eles.
CAPÍTULO 4