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1. Innledning

1.1 Oppstallingssystemer for kalv og ungdyr

Há, por fim, o âmbito da subjetivação, o qual, para Dubet, está ligado ao empenhamento ou distanciamento do sujeito em relação tanto ao seu papel social quanto às estratégias de obtenção de recursos escassos na sociedade.

3.5.1.1 O tédio e a desmotivação

Uma das características dos estudantes apontadas por professores no decorrer da pesquisa de campo é seu desinteresse. Os próprios alunos assinalaram isso nos questionários, ao dizer que o interesse próprio e dos pares era, na maior parte, pequeno. As observações de aula demonstraram que muitos alunos estavam alheios às propostas escolares, sendo que alguns nem sequer abriam a mochila no decorrer do dia, principalmente na Beta. Na Alfa também alguns jovens realizaram atividades que nada tinham a ver com as tarefas propostas pelo professor. Além disso, o número de ausentes era grande, o que remete à busca da razão pela qual os jovens se desinteressam pela escola.

Dentre os jovens entrevistados, há algumas convergências nas falas para explicar os motivos para a indiferença, em ambas as escolas. O primeiro se refere à monotonia da vida escolar. Submetidos desde o primeiro ano do ensino fundamental à mesma rotina de se sentarem em uma cadeira e ouvir e obedecer às ordens do professor, os estudantes acabam se cansando e rejeitando essa forma. Karla, da Beta, por exemplo, diz que “(...) enjoa, por isso

que a gente às vezes não gosta de vir para a escola, porque na escola não tem nada diferente, não tem nada novo. Aí prefere [fazer outras coisas]...”. O aluno Felipe, da Beta, também diz

que “(...) todo dia sala, sala, sala de aula, um dia cansa isso”. Cássio também diz que “vai

outra língua, que não fala a mesma língua que eu, tem alguns professores que usam de termos que os alunos não conhecem (...)”. Jair, da Alfa também afirma que “todo ser humano

acaba se cansando de chegar e ser sempre a mesma coisa”.

O segundo motivo do desinteresse citado pelos entrevistados é que a própria condição adolescente os induz a focar a sua atenção em assuntos diversos das atividades escolares. Rafael, da Alfa, por exemplo, afirma que os jovens “(...) estão ficando muito na bagunça,

entendeu, são coisas novas, eles estão experimentando as coisas novas, entendeu? Principalmente drogas, a droga desenvolve isso. A pessoa quando começa a mexer com certa coisa mostra um nível diferente de atitude”. Paulo, da Alfa acompanha o pensamento e fala que a maioria de seus colegas até “(...) tem interesse, mas o que entra é outra questão, que é a

preguiça, por achar que pode tá fazendo uma outra coisa melhor, como por exemplo, a pessoa não vai querer fazer aquilo se ela pode estar jogando dentro da sala”. Cassio da Beta

também aponta que:

“E também tem aquele que o aluno é mal compreendido, adolescente é uma fase irritante, chata, péssima, porque é um saco essa fase, aí poucos te entendem, você é irritado, explosivo e ninguém tem paciência com você, os professores já tendo que lidar com 40 de você, quarenta igual a você também já não aguenta porque afinal nós somos todos humanos, suscetíveis a falhas e fracos e aí vai desanimando”.

Dubet (1997), em sua experiência como professor em uma escola secundária, afirmou que:

[...] os alunos não estão “naturalmente” dispostos a fazer o papel de aluno. Dito de outra forma, para começar, a situação escolar é definida pelos alunos como uma situação, não de hostilidade, mas de resistência ao professor. Isto significa que eles não escutam e nem trabalham espontaneamente, eles se aborrecem ou fazem outra coisa (...). Os alunos são adolescentes completamente tomados pelos seus problemas de adolescente e a comunidade dos alunos é “por natureza” hostil ao mundo de adultos, hostil aos professores. Eles podem encontrar um professor simpático, eles podem encontrar um professor interessante, mas de qualquer forma, eles não entram completamente no jogo (DUBET, 1997, p. 223, 225).

Nesse sentido, Tatiane, da Alfa, relata que “(...) nós somos muito relaxados quando tá

nessa idade, igual minha mãe, se eu não arrumar meu quarto, se não fosse minha mãe, eu deixava meu quarto uma bagunça, tá pegando no pé. Tem que ter um apoio a mais”.

Vê-se que, independentemente da escola, a comunidade que a frequenta carrega consigo características ligadas à juventude e suas práticas. Assim, muitas vezes, as atividades escolares são vistas como mero apêndice de seus interesses mais prementes, ligados a seu grupo de amigos, suas relações amorosas, enfim, suas preocupações adolescentes (DUBET, 1997). Saraví também trata do tédio estudantil e diz que ele está ligado à percepção da

“incapacidade da escola de gerar alguma transformação, de deixar alguma marca nas construções deste como sujeitos (...). Não há uma negação e sim uma percepção de ausência de sentido que se expressa no tédio em si” (2004, p. 208). Entre os alunos provenientes de meios nos quais a educação média é vista como ponte para a obtenção de um status maior, o sentido está ligado ao resultado futuro que a educação pode gerar, mas entre os sujeitos de meios que não tem essa visão, não há essa percepção e, por isso, colocar em marcha algumas dinâmicas escolares tradicionais se torna bem mais complicado.

3.5.1.2 O ciclo de desmotivação.

Conforme as entrevistas, há, na ótica dos jovens, não apenas um distanciamento próprio na escola, mas também dos professores, no que seria um ciclo vicioso de desmotivação. Isso apareceu em diversas entrevistas dos alunos de ambas as escolas e é um importante ponto a se destacar na pesquisa, porque indicaria que os problemas da escola de ensino médio não advêm apenas de questões que vão além dos muros, como os apelos da sociedade de consumo, por exemplo, mas a própria dinâmica das relações interpessoais na escola alimentaria essa situação.

O primeiro ciclo de desmotivação estaria ligado à relação entre professor e aluno e isso foi mencionado diversas vezes. Para destacar algumas falas dos alunos nesse sentido, primeiro dos alunos da Beta como Cassio, que diz que há professores que:

“(...) não conseguem [dar aulas], se bem que tem alguns alunos que não deixam essa dinâmica ocorrer, mas também tem alguns professores, com já alguns anos de estado, de escola, que também já desanimam, querendo ou não, uma grande realidade é que o professor, fazendo ou não o papel dele, ensinando ou não, não por vontade própria né, o professor sempre chega e pelo menos tenta ensinar, mas já que ele não consegue, querendo ou não se ele sentar na mesa e só olhar o aluno ele vai tá ganhando do mesmo jeito, só que o aluno não percebe nesse ponto, que o que ele ia estar ganhando ali ele está perdendo(...)”.

Fabio, do mesmo local afirma que “(...) hoje em dia, muitos alunos são

desinteressados, a maioria, pelo menos. Aí o professor também desinteressa um pouco”. Já Karla, também da Beta relata que:

“Uns [alunos] não colaboram também, porque tinha que ficar quieto, prestar atenção, aí alguns alunos bagunçam e os professores deixam por lá mesmo. Ele já tem formação mesmo, aí “ah, não quer aprender”, então pronto, eles não explicam para ninguém. Já que uns não querem prestar atenção na aula ... tem uns que querem prestar atenção na aula e outros não. Aí eles desistem “ah, também não vou explicar””.

Outro exemplo disso, agora entre alunos da Alfa, é dado por Rafael, que diz que a desmotivação é responsabilidade:

“[...] é dos dois né, dos alunos e dos professores, porque nós provocamos isso nos professores, querendo ou não estamos provocando certos medos neles, porque ou a gente reclama que tem pouco, ou a gente reclama que tem muito conteúdo então eles ficam no meio termo e quando eles aplicam uma prova, assim, pra preparar a gente, nós reclamamos, então parte dos dois”.

Tatiane vai ao encontro da ideia ao dizer que:

(...) ninguém quer nem saber, porque o professor realmente ele fala assim, não que eu estou dizendo que algum professor disse, mas acho que ele pensa assim “eu já tenho minha formação, o meu já tá garantido, eles que ..., então já que eles não querem aprender, vamos ficar quieto”.

Além da relação cíclica de desmotivação entre professor e aluno, foi citado também esse tipo de relação entre alunos e direção. A aluna Karla, da Beta, afirma que “(...) se a

gente também for à diretoria falar que não tá bom a professora, aí a gente fala, fica por lá mesmo, ninguém muda e pronto”. A opinião de Cibele, da mesma escola, vai ao encontro das

avaliações anteriores ao dizer que “(...) a diretora mesmo, eu quase não vejo ela na escola,

né? É bem raro ela estar aqui. Então assim, eles não têm o pulso firme, porque eu acho que se eles tivessem o pulso firme a escola não tava desse jeito (...)”. Essa questão da frouxidão na

imposição das regras foi citada por diversos alunos dos dois locais, como por Tatiane, da Alfa, que afirmou que “eu acho assim que a direção devia ter mais, como que se diz, atitude

assim, [dizer] não pode não pode, pode, pode”. Além de maior rigor na fiscalização e

aplicação de regras, aparece também o sentimento de falta de amparo e cuidado por parte da gestão, o que leva mesmo o jovem a se desmotivar. O aluno Cássio, da Beta, por exemplo, afirma que os gestores:

“[...] estão tão ocupados também com toda a burocracia, tendo que lidar com toda a estrutura da escola, todos os alunos e todos os professores, que eles acabam não tendo tempo para o aluno em si e aí ele não consegue passar para a direção o que está acontecendo. Muitas vezes ele olha pra sua cara “o que você está fazendo fora da sala?”, “Não, eu vim...”, “não, sobe pra sala” e nem pergunta o que você está indo fazer ali. E se você foi relatar um bullying, você tá sofrendo, aquilo está te atrapalhando, te impedindo que você aprenda, você não consegue passar para a direção (...).”

O terceiro ciclo de desmotivação ocorre entre a escola e o sistema estatal, uma vez que os jovens percebem um movimento da escola para que sejam aprovados de qualquer maneira, e isso acaba tirando deles o esforço em obter resultados significativos em seus trabalhos. Emerson, da Alfa, que veio de escola modelo no Nordeste, diz que:

“Não é assim muito fácil porque é menos cobrado, mas não que não haja cobrança por parte dos professores. Tem muito professor que cobra, mas é que em relação ao governo, ele deixa muito livre para os alunos... é mais fácil para você ser aprovado aqui. Não tem como o professor querer ensinar e o governo impedir com que o aluno reprove. Ele faz com que o aluno praticamente passe de qualquer jeito, né? Se não por nota, por presença.”

Cassio, da Beta, tem a mesma percepção e diz que:

“O único problema em questão foi o sistema, foi mudanças feita no sistema como a progressão continuada, que o aluno está cada vez mais desinteressado, né, (...) pois se o aluno tirar nota 1 no primeiro bimestre, 2 no segundo, 3 no terceiro e 4 no quarto, ele passa, mesmo as quatro notas sendo vermelhas, ele passa devido a progressão continuada, pois existe um progresso de um bimestre pro outro de um ponto, mesmo que seja negativo, ele progrediu de certa forma, então ele passa, às vezes sem nem saber assinar o nome corretamente”.

Há, por fim, o ciclo de desmotivação ligado à avaliação e currículo, o que foi apontado pelo aluno Paulo, da Alfa, que disse que:

“De vez em quando a gente tem uns professores que são diferentes, que tratam a gente de outro jeito, mas os da escola em si muitos são do jeito normal, que seguem o currículo, apostila, isso e isso não acaba dando em nada. De 100% que a gente devia receber daquilo, a gente não consegue nem 50% daquilo, a gente consegue muito menos por causa disso. Por que faz a apostila, o aluno não vai fazer aquilo, ele não vai aprender aquilo, ele vai aprender pouco. Aí chega na última hora e ele risca qualquer coisa e entrega para o professor e o professor vai falar para ele” Ah, tá errado!”, aí você vai pegar a resposta do professor. Se você souber falar com o professor, você vai acabar pegando a resposta dele”.

De fato, na maioria das aulas observadas os professores seguiam o esquema explicação, resolução de exercícios no caderno ou apostila e visto, para compor a nota, e havia entre os alunos vários movimentos no sentido de pegar as respostas de um colega mais aplicado. Após vários anos na escola, os jovens acabam desenvolvendo formas de agir para obtenção de notas que prescindem de esforço, visto, nesse caso, como vão, uma vez que não se sentem atraídos pelo que está sendo ensinado.