Para Lucia Gayotto, “a necessidade de pesquisar a voz como propulsora da expressão e da criação apontou para esta vertente do trabalho: para investigação da matéria sonora e de seus movimentos” (GAYOTTO, 2005, p.403).
As dinâmicas de movimento da voz, mais do que um princípio, constituem-se em um conceito relacionado aos princípios antes mencionados: a voz no tempo, as camadas constitutivas da voz, a ação vocal e o corpo vocal: “A idéia desse conceito é que a sonoridade seja trabalhada como potência expressiva, em suas dinâmicas corporais e afetivas” (GAYOTTO, 2005, p.404).
Para o desenvolvimento das dinâmicas de movimento da voz, Lucia Gayotto parte de três caminhos: estados psicofísicos, dinâmicas de movimento de Rudolf Laban e termos descritivos de Behlau e Pontes, assim como de Boone (GAYOTTO, 2005, p. 404).
Os estados psicofísicos, segundo Gayotto, podem servir para delimitar faixas de percepção e de estudo (GAYOTTO, 2005, p.404). No caso do teatro, podem dar uma chave sobre o estado da personagem, suas sensações e sentimentos.
Mesmo existindo diferentes modos de expressão de cada estado, Gayotto os divide em dois grupos: estados de expansão e estados de retração. Os estados expressos como manifestações vocais, podem ser combinados com as dinâmicas de movimento de Rudolf Laban.
Em Laban temos os elementos do movimento forte e leve, flexível e direto, rápido e lento, contínuo e entrecortado, os quais se constituem nos fatores do movimento energia, espaço, tempo e fluência respectivamente. (GAYOTTO, 2005, p.405). Gayotto transpõe esses elementos e fatores, originalmente utilizados com o movimento corporal, para o campo da voz, relacionando-os ao mesmo tempo com os estados psicofísicos, já que “uma dinâmica vocal pode alterar um estado” (GAYOTTO, 2005, p.406).
Indo além, Gayotto empresta de Laban o conceito de ação25 propondo que “essas ações
encaminham o trabalho com as dinâmicas de voz e seus estados psicofísicos, e conduzem o trabalho para que seja, ao mesmo tempo corporal e vocal” (GAYOTTO, 2005, p.406).
Também se propõe uma pesquisa fonêmica sobre as dinâmicas de movimento das consoantes (GAYOTTO, 2005, p.406), inspirada no trabalho de Irina Promptova26, que grosso modo, diz
que “ao serem emitidas, as palavras apontam para características de movimento e isso influi em suas qualidades articulatórias” (GAYOTTO, 2005, p.407). Em outras palavras, pode-se dizer que muitas vezes os fonemas das palavras produzem em quem os emite ou os escuta uma sensação relacionada com o significado que essa palavra tem, relação não obrigatória.
Entende-se, segundo Gayotto, que:
O cruzamento entre os estados psicofísicos e as dinâmicas de movimento de Laban fornece meios para que a voz seja experimentada à luz dos estados afetivos, como potência de movimento e como ação vocal, seja pelas dinâmicas de Laban e suas ações ou pela pesquisa fonêmica vista (GAYOTTO, 2005, p.407).
Por último, temos os termos descritivos, que definem os traços de uma voz, relacionados por Gayotto às categorias de movimento de Laban: energia, espaço, tempo e, ao mesmo tempo, encaixados nos recursos da voz.
Segundo Gayotto:
[...] ao tomar contato com as potencialidades de sua voz, experimentando os encaminhamentos sonoros que os termos designam, o sujeito se sente dirigido, encaminhado por eles, reconhece seus caminhos, pode retornar, refazer e criar novos.” (GAYOTTO, 2005, p.408).
25 “Laban (1978) nomeou de AÇÕES a combinação dos elementos que constituem os fatores de movimento, por
exemplo: um movimento LEVE, FLEXÍVEL e LENTO traz a ação de FLUTUAR.” (GAYOTTO, 2005, p.406).
As dinâmicas de movimento da voz propõem para o ator explorar sua expressividade partindo de elementos específicos, ajudando-o na sua criatividade, e não somente jogando-o à improvisação livre, sem que, paradoxalmente, perca liberdade.
A ligação das práticas emissivo/expressivas a elementos específicos como são as dinâmicas da voz, abre um leque de possibilidades para o ator, sendo que o fato de existirem termos específicos ligados a sua prática de improvisação facilita a recuperação do caminho de suas descobertas. Fato fundamental no teatro, onde o ator na sua prática há de evitar a repetição de padrões e, pelo contrário, privilegiar a construção de caminhos que podem ser percorridos recriando-os e não repetindo-os.
3.4.5 Considerações finais
Os princípios que regem a prática e pesquisa profissional de Lúcia Gayotto, estão construídos sobre uma base unificadora: as camadas constitutivas da voz.
Se a voz é constituída de varias camadas, tanto como o corpo, se faz necessário que o treinamento vocal e o trabalho expressivo levem em conta o todo e suas partes. Não significa que a ação vocal deva estar acompanhada de grandes movimentos, nem que todo movimento deva ter um som; mas, que toda ação vocal deva incorporar os impulsos corporais.
Por outro lado, temos a voz no tempo, como um fenômeno produzido por um indivíduo que carrega uma história, que tem um presente e que tem desejos, que tem um porvir sendo que isso tem um reflexo na sua emissão sonora. Não é possível ver o ator só no seu presente, porque seu próprio corpo diz muito do que ele traz e do que espera: se o corpo está conectado
com a voz, não seria possível trabalhar só com o presente, senão também com o sujeito no tempo.
Ressalta-se a importância que Gayotto dá aos princípios de ação vocal e corpo vocal, os quais supõem a presença de uma parceria entre recursos físicos e forças vitais, entre o que o corpo vocal tem e pode desenvolver e o que move o indivíduo, seus desejos e vontades.
Finalmente, a aplicação dos princípios nas dinâmicas da voz, proposta que permite ao ator improvisar tendo um conhecimento perceptivo do trabalho vocal que desenvolve, e abrindo seus horizontes possíveis de pesquisa.