Na Idade Média, ocorreram diversas alternâncias históricas entre o Ocidente e o Oriente, definidas pelas circunstâncias econômicas, políticas e culturais das civilizações. De acordo com Braudel (1984), essas “correntes culturais principais” variavam conforme a supremacia existente em cada período, tanto do Ocidente ao Oriente, como do Oriente ao Ocidente.
O Oriente deteve a vantagem desde a crise do Império Romano (BRAUDEL, 1984). Com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C. e o conseqüente caos proporcionado, os mosteiros do Oriente minguaram seu envolvimento no processo educativo. Os do Ocidente, ao contrário, assumiram os postos de “guardiões do ensino” das
sociedades, o que justifica, nesta época, o domínio do latim e da gramática no currículo (PARASKEVA, 2001).
As Cruzadas alteraram a polaridade entre Oriente e Ocidente, pois, com a conquista do mar pelos cristãos, foi consolidada “a superioridade e a riqueza que o domínio das rotas e dos tráficos significa”. Ou seja, no Século XVI, “houve a invasão do Oriente pelo Ocidente, uma invasão que levava consigo os elementos de uma dominação” (BRAUDEL, 1984).
Braudel (1992) afirma ainda que, o conjunto de hábitos, de pressões, de condescendências, de conselhos e de afirmações, molda as civilizações ou as culturas e que “uma civilização, é ao mesmo tempo, permanência e movimento”. No contato entre civilizações, existem trocas de bens culturais, que passam por um processo de aceitação ou rejeição (BRAUDEL, 1992).
Dos encontros dessas culturas, derivaram as apropriações de elementos orientais por parte dos europeus, o que foi definido por George Davison Winius como orientalização (BRAUDEL, 1984).
Dois tipos de escolas precederam o surgimento das universidades européias e dominaram o ensino medieval: a monástica e a episcopal. Cada uma delas teve a sua época de maior destaque. Até o Século XI, a escola monástica possuiu maior influência, principalmente na “idade beneditina” que perdurou dos Séculos IX ao XI, quando monges detiveram a supremacia na educação européia (JANOTI, 1992).
No entanto, a partir do começo do Século XII, a supremacia pedagógica se transfere da escola monástica para a episcopal. Essa mudança no quadro pedagógico é um reflexo das transformações ocorridas nas condições sócio-econômicas da Europa Ocidental. De uma economia agrária e fechada que caracterizava a sociedade feudal, surge, com o renascimento do comércio, das cidades e a conseqüente emergência da burguesia como uma nova classe social, uma economia mais monetária e aberta, bem como maior urbanização da sociedade (JANOTI, 1992).
A educação sofre reflexos imediatos com o desenvolvimento dos Estados europeus na Idade Média, ocasionando profundas transformações, a saber: a Renascença e a Reforma protestante (PRATT, 1980; apud PARASKEVA, 2001).
As escolas dos mosteiros foram transferidas para as cidades e centros urbanos, onde conheceram os benefícios do renascimento urbano. Pautadas na antiga realidade social e cultural (agrarismo e “idade beneditina”), as escolas monásticas não puderam adaptar-se às transformações sócio-culturais da nova realidade que emergiu do
renascimento urbano e do renascimento cultural do Século XII. Como conseqüência, das escolas episcopais é que se desenvolveram as universidades (JANOTI, 1992).
O Século XIII, considerado “O Século das Universidades”, recuperou o aristotelismo, principalmente por influência da cultura muçulmana em Avicenna, assistindo à crise da escolástica. É nas universidades, principalmente na de Paris, tuteladas pelo poder eclesiástico, que se travam os grandes debates doutrinários, provocados pelo choque das novas concepções filosóficas com a teologia. A síntese intelectual da época pode ser considerada a Suma Teológica, escrita por São Tomás de Aquino, embora muitas de suas teses fossem condenadas e uma corrente se levantasse contra o Tomismo, da qual Duns Scotus foi a figura mais importante (EMI, 1981).
Phillipe Ariès observou no livro Centuries of childhood (1960) que o termo “classe” está ausente das descrições medievais da escolarização, porém teve uso, ainda que limitado, na época clássica, como na obra Institutes (95 d.C.) de Quintiliano (HAMILTON, 1992).
Em 1517, o teólogo francês Robert Goulet publicou um relato condensado intitulado Compendium Universitatis Parisiensis, onde ocorre o uso mais antigo que se conhece de “classe”. Na última parte de tal relato, são enunciados diversos preceitos que, segundo Goulet, deveriam ser adotados pelos fundadores ou reformadores de um colégio. O primeiro preceito de Goulet aconselhava que se adotasse o modo de vida e de ensino já praticado em Paris e também descrevia o plano de um colégio adequado: “devia haver ao menos doze classes ou pequenas escolas, de acordo com as exigências do lugar e dos auditores” (apud HAMILTON, 1992).
A aproximação dos termos “classes” e “escolas”, realizada por Goulet, denota a coexistência de usos medievais e renascentistas. Nos tempos medievais, o termo “escola” tanto poderia referir-se a um grupo de pessoas quanto ao local em que ocorria a instrução, indicando o duplo sentido no relato de Goulet (idem, 1992).
A idéia de classe precede a palavra propriamente dita, de forma que soou familiar quando a terminologia foi estabelecida.
A escola medieval é caracterizada pela individualização do ensino. Os estudantes iam à escola em busca de conteúdos específicos e a freqüentavam até quando julgassem que seus objetivos educacionais já tivessem sido atingidos. Em um mesmo ambiente de ensino coexistiam alunos com diferentes níveis de competência, o que levava professor a preparar e organizar o ensino de forma individual (idem, 1992).
O modelo da escola medieval não se caracteriza como educação de massa, apesar de sua estrutura educacional facilmente absorver um grande número de estudantes (HAMILTON, 1992).
O caráter histórico do discurso da escolarização nem sempre é evidente. Os termos classe e curriculum tornaram-se universais, como se sempre tivessem sido empregados com o sentido que lhes atribuímos nos dias atuais. É real a necessidade de tais termos serem historicizados (HAMILTON, 1992).
A linguagem do presente é involuntariamente imposta sobre a escolarização do passado ao surgirem referências sobre o curriculum da universidade medieval. Tais colocações superestimam a estabilidade da prática educacional, bem como auxiliam na introjeção inexata do conceito de que o ensino e a aprendizagem estão protegidos das turbulências da mudança histórica (HAMILTON, 1992).
As principais instituições que desenvolveram a cristianização no Oriente foram a Companhia de Jesus e a Inquisição.
A origem da Companhia de Jesus deu-se em 1537, em Paris, por iniciativa de Inácio de Loyola, com sua Fórmula do Instituto, aprovada pelo papa Paulo III na bula Regimini Militantis Ecclesiae em 1540, o que perpetrou a Companhia de Jesus como uma ordem religiosa missionária (DIAS, 1960).
Com a catequização realizada nas línguas dos grupos sociais e étnicos que seriam evangelizados, os jesuítas promoveram a aproximação cultural. Contudo, o significado de tal aproximação foi mais como uma estratégia de identificação, para facilitar o processo de conversão, do que uma ampla compreensão das diferenças culturais (idem, 1960).
A aculturação é o contato direto e contínuo entre duas culturas, que dependendo dos tipos de encontros e das diferentes situações em que eles são desenvolvidos, é possível a ocorrência de mudanças na estrutura social, circulação e assimilação de elementos culturais e que pode resultar na aceitação, na adaptação ou na reação de um dos grupos em contato (DIAS, 1960). Para o pesquisador francês Roger Bastide, na aculturação, o contato entre culturas promove modificações mútuas (apud DIAS, 1960).
O conceito de aculturação pode ser usado para classificar o esforço de aproximação realizado pelos jesuítas em direção a outras culturas, que, por vias missionárias, entraram em contato com diversos tipos de cultura, tanto temporal como geograficamente, e levaram consigo a cultura européia de que eram portadores (idem, 1960).
A Companhia de Jesus estava associada à “segunda escolástica”, responsável pela reinterpretação do pensamento de São Tomás de Aquino, o Tomismo. A fé era apresentada
como uma forma superior do conhecimento e perfeitamente compatível com a idéia aristotélica da razão, o que marcou a ação pedagógica nos colégios da Companhia (idem, 1960).
Estes colégios jesuítas possuíam, desde 1599, a Ratio Studiorum, uma espécie de diretriz geral a qual estavam submetidos, que apresentava características, tais como: uma gradual ordem nos estudos, um respeito pela diferente capacidade de aprendizado do estudante, assistência às lições e abundância de exercícios. O humanismo caracterizava a educação, que apresentava o currículo clássico, havendo certa oposição à pesquisa, por inspiração do aristotelismo (idem, 1960).
Ao engajar-se na catequese e na educação, a Companhia de Jesus enquadrava-se perfeitamente no espírito das reformas aprovadas pelo Concílio de Trento1, embora essa
Companhia tenha sido criada antes da convocação do referido Concílio (idem, 1960).
Os jesuítas tornaram-se uma espécie de comissão de frente da contra-reforma e desempenharam importante papel de defesa da fé católica na Europa, nas Américas e no Oriente.
Segundo Hamilton (1992), o registro mais antigo de utilização da palavra ‘currículo’ está no Oxford English Dictionary, utilizado em 1633, na Universidade de Glasgow. O documento desta universidade escocesa em que surge o termo currículo é um certificado de graduação outorgado a um mestre, que foi publicado após a reforma da Universidade pelos protestantes calvinistas, em 1577.
Com exceção dos registros de 1582 da Universidade de Leiden (localizada na Holanda), o termo currículo não possui um uso mais antigo no material reimpresso sobre outras universidades escocesas e norte-européias (HAMILTON, 1992).
Durante o Século XVI, Leiden e Glasgow foram fortemente influenciadas por idéias calvinistas. Os preceitos de disciplina e de vigor eram sustentados pela prática social calvinista, onde a conduta e o progresso satisfatório eram limitantes para a promoção do estudante (HAMILTON, 1992).
Currículum é uma palavra latina que significa “corrida” ou “pista de corrida” e que foi adotada pela teoria educacional calvinista. O currículo referia-se ao curso inteiro de vários anos que cada estudante seguia, ou seja, seu trajeto educacional (idem, 1992).
1 O Concílio de Trento ocorreu no período de 1545 a 1563 e foi o órgão responsável pela Reforma da Igreja
Os cursos conceituados deveriam possuir disciplina – no sentido de estrutura coerente – e ordo (ordem) – no sentido de seqüência interna. O currículo pós-Reforma demonstrava uma totalidade estrutural e uma completude seqüencial (idem, 1992).
Na Idade Média, os cursos possuíam flexibilidade na seqüência, duração, completude e conteúdo. Hamilton (1992) acredita que a introdução do currículo contribuiu para a alteração dos padrões da educação medieval, através de maior controle tanto do ensino como da aprendizagem.
As condições adversas, em que se encontravam os vários países europeus, tornaram multiformes a significância de caracterizações globais em realidades locais. Tal foi o caso de Portugal, conforme o explorado no item 2.2.