Dizemos que uma palavra ou conceito possui a propriedade de ser sensível ao contexto quando seu significado é determinado, ou se deve parcialmente, ao contexto em que fora proferida. Exemplos simples de termos contexto-dependentes são os pronomes pessoais (eu, ele), pronomes dêiticos (aqui, ali) e advérbios de tempo (hoje, agora, amanhã). Existem outros termos em que a contexto- dependência é menos clara, ou mais sutis, como no caso dos adjetivos. Vejamos o caso do adjetivo ‘grande’. Digamos que alguém profere as seguintes sentenças:
(i) A agulha é grande. &
(ii) O avião é grande.
O padrão utilizado para determinar o quão grande é cada objeto varia de uma atribuição para outra. Não podemos utilizar a mesma medida para determinar a grandeza de uma agulha e de um avião. Mas, há de se concordar que em domínios específicos cada sentença é perfeitamente legítima e o termo ‘grande’ foi utilizado corretamente em ambas as ocasiões. As regras que regulam a atribuição do adjetivo ‘grande’ em (i) são claramente distintas das que utilizamos para determinar (ii). Como salienta Lewis “Diferentes contextos evocam diferentes padrões de avaliação” (1999, p. 221).
Vamos ilustrar a ideia de contexto-dependência a partir do clássico da literatura inglesa Travels into Several Remote Nations of the World do irlandês Jonathan Swift. No Brasil o livro é conhecido como As Viagens de Gulliver. Neste
livro, Swift conta a história das passagens de Gulliver por vários, e diferentes, países. Um dos países visitados por Gulliver foi a ilha de Lilliput cuja população era composta por homens minúsculos. Lá ele era considerado um gigante. Em outro país, Brodbingnag, a população era composta por pessoas enormes. Era o país dos gigantes. Lá, obviamente, Gulliver era considerado muito pequeno. Em ambas as localidades a estatura do viajante criado pelo escritor irlandês era a mesma. O que então fez com que ele fosse considerado gigante em um lugar e minúsculo no outro? A resposta é que cada localidade, isto é, cada contexto, utiliza um padrão atributivo distinto para determinar o quão grande e quão pequeno são os seus habitantes. Podemos afirmar verdadeiramente, sem contradição, acerca de Gulliver, que ele é gigante e minúsculo a depender de quem lhe atribui tal conceito. Essa parece ser a intuição básica dos filósofos contextualistas dos quais Lewis é um dos mais proeminentes, como expusemos nas considerações sobre o contextualismo no início deste capítulo.
Para Lewis, conhecimento é um conceito que pode ser compreendido como possuindo esta propriedade, qual seja, a contexto-dependência. Se esta afirmação é verdadeira acerca do conhecimento fica fácil de visualizar por que sabemos muito no contexto cotidiano e nada, ou quase nada, no contexto filosófico. Este fato se dá a partir da alteração dos padrões epistêmicos. Lewis afirma acerca desta propriedade do conceito de conhecimento, que
Talvez atribuições de conhecimento sejam sutilmente contexto- dependentes e talvez a epistemologia seja um contexto que as tornam todas falsas. Então a epistemologia seria uma investigação que destrói seu próprio objeto de estudo. Se é assim, o argumento cético poderia ser impecável quando nos engajamos na epistemologia, somente aí então. (Lewis, 1999, p. 222).
Segundo Lewis nosso engajamento na epistemologia compromete nossas pretensões epistêmicas mais patentes, a saber, ganhar conhecimento. Mas como a epistemologia destrói o conhecimento? Para respondermos devemos saber qual dos elementos que o compõe é o responsável pela contexto-dependência, já que é a partir da mudança nos padrões contextuais que perdemos conhecimento.
Tradicionalmente, afirma Lewis, a justificação73 tem sido apontada como o elemento responsável pela sensibilidade do conhecimento. Sendo assim, sabemos muito em um contexto de baixo padrão por que a justificação exigida aí é facilmente alcançada. Todavia, em um contexto exigente, como na epistemologia, o padrão requerido para a justificação é tão elevado que nunca, ou quase nunca pode ser atingido. Tradicionalmente se S não dispõe de justificação, então não tem conhecimento. Talvez seja pela elevação da exigência nos padrões justificacionais que a epistemologia destrói o conhecimento.
Essa tese é combatida por Lewis porque para esse filósofo a justificação74
não é o elemento distintivo do conhecimento. Para este epistemólogo a justificação nem é necessária e nem (mesmo acrescido à crença verdadeira) suficiente para se ter conhecimento. Quanto à necessidade da justificação nosso filósofo sugere que pensemos em situações tais como reconhecer uma determinada pessoa a partir da visão do rosto dela. Vemos um sujeito X vindo em nossa direção e dizemos se tratar de João. O método que utilizamos para fazermos isso pode nos ser inteiramente desconhecido. Se questionado posso responder que não sei como faço isso. Mas, toda vez que estou diante do estado de coisas X formo a crença “João está diante de mim”. Alternativamente posso ter tido em algum momento consciência das razões que me levaram a reconhecer X como João, mas eu simplesmente as esqueci por completo. Ainda assim, sei que o objeto X diante de mim é João, sem justificação. Se posso ter conhecimento sem justificação é por que ela não é de todo necessária. Em favor da insuficiência da justificação para o conhecimento Lewis nos mostra os casos de Gettier e o caso da loteria. Nos já consagrados casos de Gettier a crença justificada de S de que p é apenas acidentalmente verdadeira, o que faz com que S não saiba que p. Já nos casos envolvendo loterias nós podemos ter uma justificação em nível muito alto e não termos conhecimento. Imagine que Pedro, um apostador inveterado, ao comprar um bilhete de uma loteria honesta formule a
73 O termo “justificação” está sendo empregado aqui no sentido tradicional. Ou seja, como sinônimo
de razões disponíveis para o sujeito epistêmico, ao crer que p. Talvez Stewart Cohen (1999), seja o mais explícito defensor dessa tese.
74 Na nota de número 2 do Elusive Knowledge Lewis deixa claro que se entendermos o termo
‘justificação’ como aquilo que transforma a crença verdadeira em conhecimento, sem considerar que ela envolva argumentos que sejam suportados por razões, não haverá problemas em utilizar o termo. Para todos os efeitos, tenhamos claro que quando Lewis falar em justificação o que ele tem em mente é que nossa crença verdadeira possui um justificador, mas fica em aberto a questão do que seja tal justificador. Devido às inclinações externalistas de Lewis podemos pensar ‘justificador’ em termos de procedimentos confiáveis de geração e manutenção da crença de S de que P.
crença de que vai perder. A loteria em questão possui 10 milhões de bilhetes e apenas um será sorteado. Deste modo a crença de Pedro de que vai perder está altamente justificada, mas, a despeito disso, Pedro não sabe que vai perder, já que no final das contas ele pode estar de posse do bilhete vencedor. Segundo Lewis “a ligação entre conhecimento e justificação deve ser quebrada” (1999, p. 222).
Se a ligação histórica entre justificação e conhecimento for abandonada então é falso que a epistemologia destrói conhecimento por exigir padrões inatingíveis de justificação. A proposta de Lewis, como veremos nesta seção, estará ancorada na ideia de alternativas relevantes que serão estabelecidas contextualmente. Mas não entraremos nessa questão agora. Passaremos agora à parte propositiva de Lewis, isto é, apresentaremos sua proposta de análise do conhecimento e veremos como ele harmoniza conhecimento com infalibilidade. Ou seja, como sua proposta infalibilista de análise do conhecimento impede (já que é a isto a que se pretende) a instauração do ceticismo.