No que diz respeito aos profissionais do PMF, suas respostas consideraram duas questões: as possibilidades de atuação do PMF e como eles vêem as possibilidades dos outros serviços de saúde.
Com respeito à primeira questão, a maioria (10) dos profissionais considerou que o PMF tem possibilidades de atuação diante da violência doméstica. Segundo esses profissionais, as possibilidades de atuação estão relacionadas às características do modelo de atenção proposto pelo Programa que lhes permitem conhecer a realidade das famílias e da população em geral. Para eles existe espaço e tempo para conversar e aprofundar as queixas das mulheres; sentem-se próximos da população, criando muitas vezes elos de amizade; conhecem as dinâmicas comunitárias; desenvolvem ações educativas e permanecem a tempo integral (40 horas) nas comunidades. Todas essas características foram destacadas pelos profissionais como elementos que favorecem ou favoreceriam a execução de ações relacionadas com a violência doméstica. Os depoimentos seguintes nos ilustram a visão dos profissionais sobre a questão:
“a gente participa, a gente sofre com os problemas deles, da comunidade, a gente sabe as necessidades deles, então isso influi muito, nós convivemos dia-a-dia com os problemas deles, então quando acontece alguma coisa a gente corre atrás, pra saber o que que houve. ‘Porque que fêz isso? Isso não se faz’. Então, a gente tá ali pra orientar, pra dar um apoio, também pra dar um puxãozinho de orelha quando é necessário”.
(auxiliar de enfermagem - PMF)
“... a gente tem uma aproximação maior, a gente conhece a casa, conhece a família, a estrutura, conhece o que está modificando em termos de melhoria sócio-econômica, de área física e as pessoas sempre vêm aqui, traz o filho, traz a mãe, o marido... de uma certa forma ela consegue uma ligação e isso acaba gerando uma relação de confiança, não vou te dizer que num ano de trabalho aqui as pessoas vão me contar suas coisas, eu já tenho 3 anos e meio e agora é que algumas pessoas já sentem confiança em mim de vir contar...”
(médica - PMF)
Na fala a seguir a entrevistada destaca a importância do trabalho educativo como um processo de longo prazo, porém, indispensável como parte das estratégias de mostrar às mulheres seus direitos.
“Eu acho que tudo passa primeiro pela educação, de você chamar a essa mulher, de conversar, de ouvir, você dizer de uma forma séria, de ensinar o que é direito para elas
(...) você pode tentar trabalhar o papel da mulher, que papel é esse dentro da família, o que é que ela pode ser, o que é que ela quer ser. Eu acho que é um trabalho, como todo trabalho educativo muito devagarinho, você vai encontrar um monte de resistência como em qualquer lugar mas eu acho que é um trabalho que dá para fazer”
(médica - PMF)
Os outros profissionais (5) disseram que as possibilidades de atuação diante da violência doméstica no PMF são limitadas devido à complexidade e ao pouco impacto que qualquer um das ações realizadas possam ter sobre as causas desse tipo de violência. Os entrevistados mostram as dificuldades já existentes para trabalhar problemas de saúde percebidos com maior freqüência, e sobre os quais eles consideram-se capacitados tecnicamente para diagnosticar e tratar (doenças infecto-parasitárias, hipertensão). Nesse contexto, eles vêem mais difícil, ainda, as possibilidades de atuação dos serviços de saúde perante a violência doméstica, considerada com um problema de saúde que não tem causa orgânica e cujas redes de causalidade assim como as implicações na vida familiar aparece distante de qualquer intervenção de saúde pública.
“A gente passa tantas dificuldades para trabalhar essas questões básicas mesmo, de tratar verminoses, tratar hipertensão, sabe, coisas assim... básicas. Questões que são amplas, que são complexas, eu acho isso muito difícil...”.
(médico - PMF)
“Eu acho que é limitado em todos os procedimentos onde não tem uma causa, por exemplo, diferente de uma pneumonia, você vai tratar. Mas nessas situações em que você não alcança um resultado porque são doenças sociais, alcoolismo (...) as violências de uma forma geral, inclusive a violência urbana, a violência contra a criança, eu acho que são situações em que o profissional de saúde não pode pensar que ele pode ...”
(médica - PMF)
Entretanto, esses entrevistados reconhecem que ainda num contexto complexo e de limitações podem desenvolver algumas ações como escutar e expressar solidariedade no sentido de acompanhamento. As falas a seguir nos mostram essas possibilidades:
“Eu posso ajudar, entendeu? Como? mostrando para as pessoas que eles tem lugar para onde ir, sabe? Que elas podem falar comigo, que elas podem estar aqui, que a gente está aqui para ajudar, se machucar tá aqui, as pessoas têm que saber que isso existe, que não precisa ter vergonha de mim, que não precisa ter porque eu nunca recrimino, sabe?”.
(médica - PMF)
Dois profissionais explicaram essas dificuldades porque segundo eles para o PMF - entendemos que para a gerência- “não é interessante” trabalhar a questão da violência. Veremos no depoimento seguinte essa opinião:
“não é que não seja importante para mim, não é importante aos olhos deles, entendeu? Então, o importante é saber quantos casos de meningite, se a tríplice viral já está sendo feita, preventivo ginecológico, isso é excelente. Mas grupo pra gente poder discutir essa violência não é interessante aos escalões mais altos. É difícil por causa disso”.
(médica - PMF)
No que diz respeito à segunda questão -possibilidades dos outros serviços de saúde-, a maioria dos profissionais disse que se já era difícil para o PMF, os outros serviços de saúde apresentam ainda, maiores limitações para desenvolver ações diante da violência doméstica. As razões apontadas fundamentalmente foram: a falta de tempo; a falta de apoio institucional; não há interesse para abordar essa problemática; não há compromisso com a comunidade, não conhecem às pessoas, a prioridade é o atendimento assistencial e não se busca as verdadeiras causas que geram os problemas de saúde.
“Em outros lugares não é possível [porque?] tempo. Eu por exemplo para fazer uma conversa eu demoro o tempo que estou com você [60 minutos]. Eu não sou profissional especializado, talvez por isso demoro mais. Mas sabe, deixo a pessoa falar a vontade, o que está acontecendo, demora isso. A gente não tem profissionais suficientes para fazer esse tipo de coisa”.
(médica - PMF)
“Eu acho que serviços de saúde em geral ainda é pior. Aqui no Programa a gente ainda tem um apoio, tem o serviço social que tá aqui discutindo esses problemas, pessoas que se interessam ainda por esse tipo de trabalho. E no resto do SUS, isso nem é discutido, você nem conversa sobre isso...”.
(médico - PMF) “Eu acho que aqui a gente tá mais ligado à população, a gente sabe mais do dia-a-dia da população, coisas que, por exemplo, outros postos parecidos com esse não sabem, porque a gente vai às casas, eles já não vão. Então, eu acho que a gente tem um domínio maior da população, as pessoas vão ali, se consultam e não falam sequer do que está se passando, reclamam que tão com uma dor no braço e pronto, a dor no braço é tratada mas a causa
da dor não é, vamos dizer que ela está com dor no braço porque o marido deu um soco nela, ela não vai expor aquilo ali para ele, até mesmo porque é um profissional que ela tá vendo pela primeira vez e de repente nem vai ver mais. Já a gente aqui não, ela já tem um elo de amizade, já vê a gente com outros olhos, até mesmo porque as auxiliares são da comunidade”.
(médico - PMF)
Poucos profissionais (4) consideraram que os outros serviços têm possibilidades de atuação diante da violência doméstica. Segundo a visão desses profissionais, os serviços de saúde não podem continuar atendendo da forma tradicional que desenvolvem suas atividades, priorizando o modelo bio-médico, mas que devem começar a responder às demandas dos usuários, aproximando-se através do conhecimento de sua realidade e buscar respostas conjuntas a fim de abordar integralmente os problemas de saúde das mulheres.
“eu acho que a tendência desse modelo do programa é se ampliar (...) eu acho que a tendência é o profissional de saúde estar mais engajado e mais próximo da realidade da sua comunidade. Eu acho que não tem como você fazer hoje em dia ações curativas sem considerar todas essas realidades do cotidiano do usuário que você atende”.
(assistente social -PMF)
“eu acho que esse atendimento mais próximo ao usuário ele favorece qualquer assunto relativo à atenção primária. Agora os serviços que ainda estão naquele outro trabalho, tradicional, eles também podem fazer esse trabalho de atenção primária. Isso significa que está desconhecendo essas questões, se é difícil para a mulher chegar a um profissional que está o lado dela, é muito mais difícil chegar pra um profissional que trabalha no posto, mas isso não significa que o trabalho desse posto deva estar totalmente alheio a essas questões, isso deveria ser trabalho de todas as unidades...”
(enfermeira - PMF)
TEMA 6.7: AS POSSIBILIDADES DOS SERVIÇOS DE SAÚDE PARA DESENVOLVER