2. Cruise industry
2.3. Responses to cruise industry’s impacts
A população total estimada de famílias da microbacia do Aricurá é de 195 famílias, 125 famílias são da comunidade do Aricurá e 70 famílias são da comunidade do Ajó. As famílias entrevistadas fazem parte da primeira e segunda geração de moradores da microbacia, conforme foi relatado no histórico da mesma, fundada há 46 anos.
5.1.2.1. Famílias da comunidade do Aricurá
Durante a fase de pesquisa de campo foi possível, com o auxílio dos interlocutores chave, percorrer de rabeta, do início ao fim da comunidade, através dos igarapés, para levantar quantas residências haviam, pois, os moradores não sabiam exatamente. Assim foi contado um total de 125 residências, sendo 7 no igarapé Taperá, 2 no igarapé Merajubá, 2 no Igarapé Maloca, 1 no igarapé do Ajó, e 113 ao longo da calha principal do Rio Aricurá.
As famílias da comunidade do Aricurá, por ser esta uma comunidade ribeirinha, têm estreita relação com o rio e com os recursos naturais podendo ser considerados como uma extensão dos estabelecimentos das famílias. Sendo a vida e dinâmicas das famílias regidas pelo tempo da natureza (como exposto no item 5.1.1.2.). O rio Aricurá e os igarapés (que cortam a comunidade), e as várzeas que eles sustentam, constituem os principais componentes desse meio, sendo de importância cultural, social e econômica das famílias. O sistema de produção está essencialmente ligado à várzea, muito embora eles desenvolvam a agricultura na várzea, devido à dificuldade de só poderem aproveitar as partes de várzea alta, que ainda assim é limitada ao semestre mais seco do ano, essa atividade é pequena, a não ser o manejo do açaí que pode ser considerado uma associação entre agricultura e extrativismo. Ele se assemelha em parte com o campesinato “das águas” como também ao campesinato estudado por Gonçalves (2015), designado como “dos rios interiores” encontrado na comunidade Vila Braba, localizada no município de Cametá, porém a injunção das marés diárias, constitui um ponto importante de modificação do sistema de produção, que ao mesmo tempo limita a produção agrícola, mas por outro permite, por exemplo, uma elevada produção do açaí manejado e a criação de peixes em viveiros utilizando a renovação amiúde da água, essencial para essa atividade.
Desse ambiente as famílias obtêm os peixes através da pesca e da captura do camarão, assim como o açaí, alimentos que constituem a sua base alimentar. Assim são os rios e as várzeas, as suas margens, referência para as relações que as pessoas da comunidade estabelecem na própria comunidade e com as comunidades vizinhas incluindo o lazer.
As características da comunidade do Aricurá, típicas de comunidades ribeirinhas, também foram apontadas nos estudos de Costa (2009) em que os produtos sazonais, especialmente o açaí, e os demais recursos naturais, assim como o ambiente como um todo, são influenciados pelo regime das marés, se mostrando determinantes nos diversos aspectos da vida dos habitantes locais, diminuindo ou aumentando, conforme o período do ano, o ritmo de sua economia ou modificando sua rotina cotidiana e dieta alimentar.
A característica das famílias, juntamente com a maior força de trabalho, permite que o grupo doméstico desempenhe outras atividades igualmente importantes. É na verdade, o que ocorre com os camponeses que habitam a planície amazônica, trabalhando como agricultores, criadores e extratores de produtos vegetais e animais (caça e pesca), num ecossistema onde o ambiente é constituído de espaços naturais e/ ou humanizados que exigem muito trabalho (WITKOSKI, 2007, p. 164).
Isto implica dizer que a família camponesa possui um conhecimento empírico, dos esforços que todos devem fazer para que, na relação produção/ consumo, a unidade de produção possa ensejar as condições existenciais de suas vidas (WITKOSKI, 2007) o que se encaixa perfeitamente em relação à comunidade do Aricurá, pois a composição do sistema de produção dos entrevistados é variada (a produção do açaí, criação de pequenos animais e a pesca) como também desenvolvem atividades fora do estabelecimento rural como serviços de carpintaria e de limpeza dos açaizais recebendo por diária. Todas as famílias entrevistadas são cadastradas como pescadores e com isso recebem o seguro defeso e o auxílio da bolsa família. Somente duas das famílias entrevistadas recebem aposentadoria, assim, dependendo menos de rendas de origem social que a comunidade do Ajó e mais da renda de atividades produtivas.
Assim constatamos que as duas comunidades possuem modos de vida diferenciados marcados por ritmos que se caracterizam por um lado de um campesinato de como agricultores e ribeirinhos, que desenvolvem sistemas de produção diferentes e com implicações na reprodução do sistema família-estabelecimento. Consideramos que não foi por outra razão, como foi visto no histórico das comunidades, que inicialmente constituindo somente uma, e mesmo havendo vários níveis de parentesco entre as famílias, ela se dividiu em duas comunidades.
5.1.2.2. Famílias da comunidade do Ajó
As residências das famílias estão distribuídas ao longo da estrada do Ajó ou distribuídas em pequenas vilas familiares adentrando seus ramais adentro. A comunidade,
segundo o coordenador da comunidade, pelo último levantamento feito no ano de 2015 possui em torno de 70 famílias, sendo que muitas vezes os lotes atravessam estrada do Ajó, chegando até a transição com a várzea. A composição das famílias será abordada na seção 5.2.1.
Nesta comunidade existem muitos moradores com mais de 70 anos, uma idade já considerada avançada para as atividades de produção rural. A média das famílias entrevistadas é de nove integrantes, sendo que, em média, quatro deles não moram mais com os pais e alguns nem residem mais na comunidade. Em virtude da idade dos entrevistados, na comunidade do Ajó todos já recebem aposentadoria e também a maioria das famílias possuem auxilio da bolsa família.
Os agricultores da comunidade têm um modo de vida particular, diferente até então dos agricultores de uma maneira geral, pois o sistema de produção está também ligado à várzea, além da terra firme, podendo aproveitar a várzea para a exploração do açaí e também da criação de peixe em viveiro. Como será exposto nos próximos capítulos o ambiente de várzea é de extrema importância na reprodução socioeconômica das famílias, mais até do que o ambiente de terra firme.
As atividades do sistema de produção nesta comunidade envolvem: a horta, a produção de açaí e a piscicultura sendo que a maioria dessas atividades é voltada para o consumo, enquanto também são destinados à venda a produção de hortaliças em primeiro e a do açaí em segundo lugar.