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2. BACKGROUND

2.4 Stress responses of L. monocytogenes

2.4.2 Response to acid stress

O sociólogo Paul Freston introduziu, no estudo do pentecostalismo, em sua tese de doutorado intitulada “Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao impeachment”, o conceito de ondas e, a partir disso, objetivou um estudo acerca da história do pentecostalismo no Brasil. Freston observou que há três ondas de implantação de igrejas pentecostais no Brasil; entretanto, para que fosse possível essa abordagem, ele partiu da proposta de Martin, o qual identifica o protestantismo em três ondas de dissidência57, a saber, a calvinista, a metodista e a pentecostal.

Segundo Freston:

“A primeira onda é a década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembléia de Deus (1911). Estas duas igrejas têm o campo para si durante 40 anos, pois suas rivais são inexpressivas. (...) A segunda onda pentecostal é dos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, (...) e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores)

56 ARAÚJO, Stepheson S. A Manipulação no Processo da Evangelização, p. 55.

surgem: a Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). (...) A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos 80. Suas principais representante são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a igreja Internacional da Graça de Deus (1980)”. 58

A cada onda descrita por Freston, verifica-se, segundo o próprio autor, que existe um contexto específico para a sua existência enquanto momento histórico, a saber, um

locus específico por entre um âmbito fragmentário. A primeira onda, com a Congregação

Cristã no Brasil e com a Assembléia de Deus, é proporcionada através do momento em que, mundialmente, o movimento pentecostal se expandiu e se alastrou. A solidificação da Assembléia de Deus no nordeste foi culminante num sucesso pentecostal posterior, porquanto trata-se de uma região de fluxo migratório. A segunda onda, que ocorreu, na sua maior parte no seio do Estado de São Paulo, coincidiu com o momento histórico da urbanização e da formação de uma sociedade de massas, na década de 1950. Talperíodo histórico facilitou a divulgação dos modelos existentes, sob a influência direta da Igreja do Evangelho Quadrangular, que propunha diferenciados métodos de evangelização. A terceira onda, que ocorreu, na sua maior parte, no Estado do Rio de Janeiro, utilizou-se da economia decadente, da violência, do jogo do bicho e da política populista para as formulações de uma nova teologia, de uma nova liturgia, de uma nova estética e de um novo âmbito evangélico. As igrejas da terceira onda, que surgiram na década de 1970 e se fortaleceram na década de 1980, foram beneficiadas pela modernização da comunicação e da expansão do setor urbano59. Essa onda teve o seu início com a Igreja Universal do Reino de Deus e com a Igreja Internacional da Graça de Deus, as quais foram fortes propagadoras do neopentecostalismo nascente.

A conceituação de Freston a respeito das ondas faz-se entender numa idéia de periodização, no entanto, olhada na perspectiva das experiências religiosas históricas. Verifica-se que há bastante mobilidade naquele período, porquanto o pentecostalismo é altamente criativo e versátil. Contudo, uma onda que se desmancha e se dilui não pode descrever a solidificação no Brasilda Assembléia de Deus, que se tornou a maior denominação pentecostal brasileira, mas pode enfatizar claramente aspectos da não-fixidez do pentecostalismo.

58 FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment, p. 66. 59 FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment, p. 66.

Há também um grande vácuo na conceituação do pentecostalismo quando se trata do Movimento Pentecostal baseado na idéia das ondas, porquanto Freston não descreveu as igrejas do Movimento de Renovação Espiritual constituídas na década de 1960, e tampouco narrou acerca das comunidades cristãs que surgiram na década de 1980. Em sua tese, Freston dedicou um capítulo ao qual chama de “carismatismo brasileiro de classe

média”, e, nesse intento, dividiu-o em “Renovação Carismática Protestante” e “Comunidades Carismáticas”, porém, mesmo assim, o autor deixa de situar as igrejas que

fazem parte desses “carismatismos” na tipologia edificada a partir da idéia referente às ondas.

Pode-se dizer que há uma grande dificuldade de classificação de um movimento religioso brasileiro atribuindo-lhe um rótulo que é aplicado no exterior. Há semelhanças entre o Movimento Carismático Americano e o Movimento de Renovação Espiritual ocorrido no Brasil. No entanto, o lugar onde esses pentecostalismos ocorreram são distintos. Uma tarefa difícil é escolher outra terminologia para designar o movimento brasileiro, pois o termo carismatismo é mais apropriado para o protestantismo estrangeiro e, não estando no linguajar dos pregadores da Renovação, não reflete seus ideais de reconstituição das denominações históricas em formato de expressões pentecostais.

Mariano, lançando mão da tipologia de Freston, intentou nomear cada uma das ondas, mesmo tendo repetido as igrejas relacionadas por Freston, que compunham a primeira e a segunda onda. Para a primeira manteve o nome de “clássicas”, contudo, no que tange à segunda, classificou-as como “neoclássicas” 60.

O modelo da conceituação através das “ondas de pentecostalismo” é um emaranhado conceitual pertencente a uma tipologia utilizada para explicar a realidade de um protestantismo aos moldes anglo-saxões e não aos moldes brasileiros. Há uma tentativa válida de adaptação de tal tipologia; entretanto, somente a primeira onda do pentecostalismo brasileiro coincide com a do pentecostalismo americano, no que se refere aos aspectos doutrinário e temporal.

A segunda onda do pentecostalismo brasileiro, embora coincida temporalmente com a segunda onda do pentecostalismo americano, insinua-se de forma diferenciada, pois nos Estados Unidos, em boa parte das experiências, o dom de línguas não é a evidência do batismo no Espírito Santo e os pentecostais são mantidos no âmbito das igrejas históricas. Nas concepções de Freston e de Mariano, na manifestação pentecostal no

Brasil, referente à segunda onda, a qual se procedeu na década de 1950 e de 1960, o pentecostalismo continua acreditando no dom de línguas como evidência do batismo no Espírito Santo, mas enfatiza veementemente as curas divinas.

Encontram-se, portanto, vantagens e desvantagens em se fazer abordagens a partir da concepção da tipologia que denota as ondas de pentecostalismo, pois não se pode entender a realidade da experiência religiosa vivenciada no Brasil a partir dos movimentos que tiveram origem nos Estados Unidos, conquanto além de similaridades, há distinções marcantes entre os pentecostalismos. Segundo Freston, há uma justificação para a tipologia baseada na idéia de ondas:

“A vantagem dessa maneira de colocar ordem no campo pentecostal é que ressalta, de um lado, a versatilidade do pentecostalismo e sua evolução ao longo dos anos e, ao mesmo tempo, as marcas que cada igreja carrega da época em que nasceu”. 61

É evidente que, para fazer um trabalho historiográfico da narrativa das experiências religiosas, precisa-se trabalhar com determinados períodos, nos quais constatam- se as manifestações experienciais. Nisto a periodização das ondas é algo pertinente e proveitoso.

Há, nas características pentecostais, inúmeras maneiras de fazer e viver experiências religiosas, porém, levando em consideração que o formato da idéia de ondas pressupõe uma característica de não-fixidez, realmente o locus pentecostal da experiência religiosa é bastante instável por conta da inserção do sujeito na experimentação do Espírito Santo.

Os pentecostais, como sujeitos históricos que vivenciam uma experiência religiosa, constituem mil práticas pelas quais, como usuários, se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas de produção sociocultural no âmbito das igrejas históricas. Ressalte-se também que houve uma reapropriação das conceituações para atualizadas produções religiosa, heurística e teológica62.

Freston, como fora dito, abordou os determinados “Carimatismos de

Classe Média”, mas deixou de dizer quais seriam as igrejas que representariam a “Renovação Caristmática” e as “Comunidades Carismáticas” e, além do mais, os aludidos

grupos foram identificados demasiadamente com os protestantismos estrangeiros. Onde

61 FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment, p. 66. 62 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano, p. 41.

estariam, de fato, as igrejas do Movimento de Renovação Espiritual? Qual seria o seu locus no grande e fragmentário mar de ondas?

As operações quase que microbianas proliferaram-se no seio da estrutura pentecostal, formando-se em táticas que são atuantes na impregnação dos detalhes constituídos no cotidiano dos sujeitos religiosos. Essas maneiras sutis de fazer são evidenciadas através das experiências religiosas, as quais são como ondas, pois carregam consigo a característica da não-fixidez de que se abordou63.

A importância da idéia de ondas está no fato de que ela auxilia na periodização; contudo, não se pode totalizá-la, pois, se esse fosse o intento de Freston, seria muita pretensão devido à imensurável fragmentação do protestantismo pentecostal. O que se pode constituir, a partir do pentecostalismo entendido através das ondas, seria uma noção da não-fixidez da experiência religiosa, que se dá no campo da sub jetividade humana. Certeau, em A Invenção do Cotidiano, pretende abordar alguns procedimentos e astúcias que, de alguma forma e através das táticas articuladas sobre os “detalhes”, compõem a rede de uma antidisciplina64. Portanto, acha-se em questão não somente as “ondas de pentecostalismos”, mas as “ondas nos pentecostalismos”, enquanto fenômeno plural e fragmentário, bem como experimental.

A antidisciplina das ondas nos pentecostalismos concede uma abordagem bastante desconexa acerca da experiência religiosa e das ações dos sujeitos religiosos, pois cada vivência religiosa é concebida num contexto específico. Por isso, há uma necessidade de se assumir que o sujeito que fala deve passar por um processo hermenêutico a partir do lugar de onde fala.

Michel de Certeau reporta-se a uma metáfora muito pertinente sobre o estabelecimento da invenção do cotidiano e dos relacionamentos existentes entre as pessoas por meio dos procedimentos. Ele descreve acerca de uma visão do World Trade Center, no 110º andar, donde se pode visualizar uma determinada massa que se imobiliza sob o olhar. Há o estabelecimento de uma diferença gritante entre Nova Iorque e Roma, porquanto Nova Iorque nunca soube o que é envelhecer curtindo seu passado, pois seu presente se inventa sempre no ato de lançar o que adquiriu e de desafiar o futuro65.

63 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano, p. 41. 64 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano, p. 42. 65 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano, p. 169.

Portanto, olhar para as massas, de cima, no World Trade Center, é desconhecer as suas práticas. E, embora se desconheçam as práticas, tratando-se de antidisciplinas, verifica-se que, embaixo vivem pessoas que jogam com a realidade mobilizando o espaço como os bailarinos fazem com o salão e como o surfista faz quando “pega uma onda”. Destarte, o lugar pentecostal de ser é definido pelos sujeitos que praticam no referido locus contextual, mas que, de igual forma, conhecem o espaço tanto quanto desconhecem o corpo-a-corpo amoroso. É como o surfista que “pega uma onda” sem saber exatamente as suas dimensões, contudo, sabe que, em determinados lugares praticados, de certas praias, há experiências muito fortes para serem vivenciadas de forma bastante subjetiva.

O pentecostalismo, da década de 1950 e de 1960, é como a cidade descrita por Certeau, pois tudo se passa como se uma espécie de cegueira caracterizasse as práticas organizadoras da religião, que praticada, na maioria dos casos, curtindo uma paisagem urbanizada pelos processos históricos no Brasil. Há um grande desconhecimento e esquecimento das práticas66, porém há marcas profundas de experiências que, assim como a cidade, fazem-se vistas por sua não-fixidez67.

A idéia de ondas, embora incompleta, auxilia na demarcação dos períodos da trajetória pentecostal no Brasil e, no caso do pentecostalismo autônomo, põem-se em questão os Movimentos de Renovação Espiritual, pois eles nasceram em torno de lideranças fortes. Essas lideranças, segundo Bittencourt, revelam um pentecostalismo formado por inúmeras pessoas de personalidades bem definidas68, os quais vivenciaram relações de poder em

determinado locus religioso.

Os lugares históricos, portanto, através das ondas de instabilidade da experiência religiosa pentecostal, evidenciam as organizações de lugares pelos deslocamentos que, de certa maneira, os descrevem e os demonstram na cotidianidade tomada pelas práticas da religião.

Há, portanto, um desconhecimento e um problema sério quando se tenta classificar exatamente as ondas, pois a não-fixidez da experiência pentecostal está presente na chamada segunda onda pentecostal, ventilada por Freston, aderida por Mariano e utilizada por Campos, entre outros. Não se pode totalizar e caracterizar os pentecostalismos de forma

66 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano, p. 171.

67 Tal aspecto, embora indique a mobilidade da experiência religiosa, não exclui as características fundamentais do pentecostalismo de Renovação Espiritual, descrito por Araújo, como verificou-se.

68 BITTENCOURT, José. “Remédio Amargo”. In: Antoniazzi, Alberto et alli, Nem Anjos Nem Demônios –

tão contundente, pois há uma forte mobilidade no locus religioso daquele contexto, como há grande mobilidade nos sujeitos religiosos.

Essa não-fixidez das experiências religiosas se dá justamente porque o Movimento de Renovação Espiritua l tem similaridades com outros pentecostalismos fragmentários e também por encontrar um lugar nas reformulações no âmbito da pluralidade de experiências observadas no interior dos outros pentecostalismos, bem como na particularidade de cada sujeito religioso.

Conforme Humberto Viegas Fernandes, com o batismo no Espírito Santo, também havia pessoas que se manifestavam de diferentes formas. Algumas práticas são mencionadas, tais como “arrependimento com lágrimas”, “quebrantamento de coração”,

“técnicas para a glossolalia” e uma ênfase nas curas, bem como a formação de uma

linguagem própria que, segundo o autor, seria repleta de “chavões” 69. Tudo isso de diversas

maneiras, na multiforme experiência do pentecostalismo que, no caso em tela, está localizada na década de 1950 e 60. Portanto, a antidisciplina, abordada outrora, revela um conhecimento parcial da experiência religiosa constituída pelo Movimento de Renovação Espiritual.

A antidisciplina das práticas religiosas do Movimento de Renovação Espiritual não pode ser delineada com tanta exatidão, pois o pentecostalismo brasileiro difere do americano. A mobilidade inerente às experiências religiosas vivenciadas a partir do referido Movimento não pode caracterizar, mas descaracterizam uma exatidão, donde: no vaivém das ondas, as experiências pentecostais são repletas da não-fixidez experiencial.

Apresentam-se, pois, alguns quadros que elucidam acerca da proposta das três ondas, que foram descritas por Freston e por Mariano. Esses quadros também poderão servir como comparativo:

ONDA ANO/PAÍS NOME DO

MOVIMENTO

CARACTERÍSTICAS