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Segundo Edênio Valle, qualquer objeto da experiência cotidiana poderá ser hierofânico. Por isso, no dia-a-dia da vivência humana, qualquer objeto poderá ser “revelador do divino”, pois, segundo o autor, não existem acontecimentos naturais ou vitais que não tenham sido revestidos com um caráter sagrado por alguma cultura. Entretanto, além da revelação que “revela o divino”, há um caráter da experiência religiosa que diz respeito ao “mistério inefável” 115.

Portanto, em toda experiência com o sagrado, em parte se conhecerá e em parte se desconhecerá. Desse modo, haverá um certo “jogo de esconde-esconde da divindade”, porquanto, a partir do que se pode conhecer e do que se pode apenas tangenciar, estabelecer-se-á uma constituição contínua de sujeitos que vivenciam uma experiência religiosa, a qual é clarificada ao mesmo tempo em que é obscurecida. Assim, segundo Valle, a experiência religiosa, no âmbito de uma brincadeira cotidiana com o sagrado, se dará na formação de símbolos que jamais conduziram ao conhecimento do “Todo” que sinaliza e, por isso, a clareza das questões é ilusória.

Há uma diversidade bastante grande no “jogo de esconde-esconde da divindade”, porquanto as contradições e polarizações estão presentes na experiência religiosa. Sobre tal aspecto, note o que diz Valle:

“As experiências religiosas, nesse sentido, apresentam tensões constitutivas, como as seguintes: são (podem ser) estáticas ou dinâmicas, passivas ou ativas, cerradas ou abertas, intrínsecas ou extrínsecas, libertárias ou repressivas, emocionais ou racionais, sectárias ou universais, conscientes ou inconscientes, neuróticas ou sãs”. 116

115 VALLE, Edênio. Psicologia e Experiência Religiosa, p. 17. 116 VALLE, Edênio. Psicologia e Experiência Religiosa, p. 17 e 18.

O formato incerto das exp eriências com o sagrado produz uma fé que, a partir do “conhecimento e do desconhecimento do divino”, produzirá uma mobilidade quanto aos elementos formativos da experiência, pois grande diversidade se achará presente no sujeito religioso de um cotidiano que se tornará religioso. A experiência religiosa, multiforme em sua dinâmica, concede uma amostragem de muitos fenômenos extraordinários. Com Sudbrachk, deve-se reconhecer que há uma pesquisa a ser levada a sério, aquela que avalia fenômenos extraordinários que acompanham as experiências místicas propriamente ditas117.

Segundo Valle, a experiência religiosa multiforme pode ser verificada a partir do senso comum e do cotidiano, pois, para o autor, o mundo é apreendido pelo sujeito religioso não só no aspecto extático, mas também na experiência vivenciada na cotidianidade e nos elementos mais ordinários da vida. Tal aspecto vincula-se ao modo “idiossincrático” de algumas experiências religiosas, porquanto há grandes traços de pessoalidade na experiência de conhecimento do mundo a partir do cotidiano da fé118.

No Movimento de Renovação Espiritual, verifica-se que alguns sujeitos experimentaram diversificadas experiências religiosas, multiformes em sua essência, as quais obviamente tinham alguns conteúdos que se pareciam, pois tratava-se de vivências carismáticas que se estabeleciam nas novas concepções batismais acerca Espírito Santo. Com Valle, a partir do exposto, pode-se ressaltar que, na vivência da experiência religiosa, existem maneiras diferentes de explicar uma mesma realidade119, pois a pluralidade da experiência é grande, mas a realidade do objeto referido pode ser igual, contudo, tal realidade jamais será percebida de maneira uniforme, pois há de se notar as complexidades dos sujeitos e das experiências religiosas.

No presente capítulo, será abordado um episódio de experiência pentecostal ocorrido na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Entretanto, constata- se que os pastores José Rego do Nascimento e Enéas Tognini vivenciaram experiências fundantes imprescindíveis para a observância do referido episódio. Por isso, a experiência religiosa, na particularidade dos sujeitos religiosos, parece ser uma antecipação da coisa experimentada denominacionalmente.

Conforme Valle:

“Numa linguagem mais sofisticada, pode-se dizer que a experiência é anterior à sua predicação. O indivíduo

117 SUDBRACHK, Josef. Experiência Religiosa e Psique Humana, p. 58. 118 VALLE, Edênio. Psicologia e Experiência Religiosa, p. 23.

sabe de sua experiência “pré-predicativamente” (Husserl). Essa vivência passa a pertencer-lhe e a ser sentida como parte dele próprio. É em um segundo momento que a experiência se complementa e se totaliza predicativamente” . 120

Pretende-se não somente reconstituir a narrativa destes sujeitos principais da experiência em foco, mas igualmente perguntar por eventuais redes de sentido e conflitos de poder subjacentes ao episódio narrado.

José Rego do Nascimento121 vivenciou experiências marcantes na história de

sua fé, porquanto, depois da missionária Rosalee Mills Appleby, o referido pastor foi o principal porta-voz do Movimento de Renovação Espiritual no seio da Convenção Batista Brasileira. Segundo Tognini, o pastor Rego teria sido colocado por Deus ao lado de Appleby, pois representou um reforço para o Movimento de Renova ção Espiritual122. Por mais que fosse respeitada e embasasse o movimento, a referida missionária não teria o alcance de um líder homem, pois na denominação batista não é permitido que mulheres exerçam o ministério pastoral.

Tendo sido alfabetizado por seu pai, José Rego do Nascimento teve seus estudos marcados por contratempos, pois, ao iniciar sua vida estudantil num colégio, no Estado da Paraíba, precisou abandonar a escola por causa de um acidente. Quando chegou ao Estado do Rio de Janeiro, aos 12 anos, retomou os estudos em escolas públicas do subúrbio123. Rego do Nascimento, assim como seu pai, exerceu o ofício de sapateiro e desenvolveu-se bastante num estabelecimento cujos donos eram portugueses, tornando-se autodidata. Contudo, a realização pessoal de Rego se deu depois de ter passado num concurso para o exercício de um cargo no Banco Aliança, atual Itaú124.

Rego do Nascimento, mesmo antes de sua formação teológica, em algumas experiências, teve certo contato com pentecostais, tendo participado, inclusive, de cultos na Assembléia de Deus. Sua experiência de conversão ocorrera aos 15 anos de idade. Na Igreja Batista de Anchieta, no Rio de Janeiro, para onde se transferiu aos 12 anos125. Outrossim, Rego declara-se predestinado a ser carismático, pois numa das vezes em que se entusiasmou observando uma Igreja Assembléia de Deus, declarou:

120 VALLE, Edênio. Psicologia e Experiência Religiosa, p. 28.

121 José Rego do Nascimento nasceu a 24 de dezembro de 1921. Atualmente Rego reside em Belo Horizonte e encontra-se bastante enfermo.

122 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 53. 123 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 42 e 43.

124 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 47 a 49. 125 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, 43 a 45.

“Então o Espírito derramou água viva dentro de mim. Senti gozo e uma alegria espiritual extraordinários. Então, eu deduzo que já nasci predestinado a ser um carismático”. 126

Xavier alega que a conversão de Rego fo i genuína, porque, depois da experiência de meditar na crucificação de Cristo narrada pelo Evangelho de Lucas, deixou de ser um crente tradicional para ter uma vida de compromisso com Jesus Cristo e com a sua experiência127.

Rego do Nascimento formou-se no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil no curso de “graduado” em teologia, que não era o principal curso oferecido pela instituição, sendo o principal o bacharelado em teologia 128. Graduou-se, portanto, aos 26 anos de idade e em 1951. Almeida relata que Rego do Nascimento era portador de uma grande cultura literária e de vastos conhecimentos gerais. Portanto, tal gosto pela literatura o ajudou a cultivar uma linguagem clara e o ajudou também a se tornar um grande pregador, tanto por sua retórica, como por seus recursos de linguagens. Segundo Almeida, Rego sabia se expressar com uma boa utilização de pronomes, tornando-se, por esse e por outros motivos, um exímio orador129.

No período em que fez o curso de “graduado em teologia”, Rego do Nascimento, assim como sua esposa, Joselina de Oliveira Nascimento, freqüentaram a Igreja Batista de Anchieta. Foi ordenado ao ministério pastoral a 20 de dezembro de 1951, exerceu as funções do ministério na Igreja Batista de Olinda, Estado do Rio de Janeiro.

No ano de 1954, Rego do Nascimento deixou a Igreja de Olinda, assim como também deixou o Banco, para exercer o ministério pastoral em duas igrejas de cidades vizinhas, quais sejam, as igrejas de Laje e Ubaíra, no Estado da Bahia. Dado seu bom êxito nesses ministérios, foi convidado a pastorear uma igreja maior, a de Vitória da Conquista, onde realizou um brilhante trabalho ministerial, pois a referida igreja experimentou o impacto de um pastorado bastante próspero. Dessa maneira, foi pastoreando a Igreja de Vitória que Rego, após tomar conhecimento de determinados avivamentos no período, teve a experiência do “batismo com o Espírito Santo”. Segundo Almeida, no pastorado daquela igreja, o Senhor visitou a Rego poderosamente com o batismo no Espírito Santo, dando-lhe uma nova percepção e visão da obra de Deus, o que teria garantido seu sucesso pastoral130.

126 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 45. 127 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 45. 128 O curso de “graduado” em teologia era oferecido em 3 anos.

129 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 89. 130 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 90.

Certa feita, Rego estava sozinho em seu gabinete, orando e lendo o livro The

Power of Pentecost, de John Rice, evangelista batista norte-americano cuja preocupação era

tentar fundamentar sua crença de que no batismo com o Espírito Santo não necessariamente precisaria haver a evidência do dom de línguas estranhas, chamado glossolalia. Rego do Nascimento também leu, nessa ocasião, um dos “Folhetos de Poder” escritos por Rosalee Mills Appleby, intitulado: “Como diversos servos de Deus foram cheios do Espírito Santo”. Foi depois do impacto dessas leituras que Rego do Nascimento orou e buscou em Deus que essa “segunda bênção” lhe fosse concedida.

“Rego começou a buscar o batismo no Espírito e o recebeu de uma forma diferente. (...) De repente se viu invadido por um fogo, que lhe entrou pelo peito e produziu nele uma dinamização tal, que ele caiu sentado na cadeira. Ria. Ria e chorava ao mesmo tempo. (...) Depois, quando quis andar, quase não conseguia. Parecia que seus ossos doíam. Aparentemente, nada mudou nele. O que ele sabia, continuou sabendo; o que ele cria, continuou crendo; mas a dedicação, a partir daí, foi bem maior. O ardor era tão grande! Isso se manifestou no crescimento da igreja”. 131

Conforme Almeida, num relato bastante posterior, assim como se referiu anteriormente, foi após o advento do batismo no Espírito Santo que Rego do Nascimento teria sido revestido de poder e de graça, tendo, a partir de então, suas mensagens e profecias sempre ungidas por Deus, porquanto a obra do Espírito estava em marcha na sua vida particular e na sua vivência da fé cristã132.

Rego tinha o sonho de pastorear em Belo Horizonte e isso aconteceu quando foi convidado a assumir o pastorado da recém fundada Igreja Batista da Lagoinha133, em 1958. Segundo Reis Pereira, Vitória da Conquista tornou-se demasiadamente pequena para os intentos de Rego, pois seu desejo era de que a sua voz fosse irradiada para todo o País.

“Quanto leigos de Belo Horizonte conceberam a idéia de fundar uma igreja que fosse um exemplo de pureza evangélica, além de ardorosa na evangelização.

131 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 54.

132 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 90.

133 A Igreja Batista da Lagoinha foi fundada em 20 de dezembro de 1957, com aproximadamente 20 pessoas em seu rol de membros. Atualmente conta com mais 30 mil membros e se inclina ao neopentecostalismo, enfatizando, prioritariamente, a mística como mecanismo de experiências religiosas e como elemento de

proselitismo religioso. Para mais detalhes ver o site:

http://200.195.77.153/engine.php?pag=art&secpai=12&sec=54&cat=356&art=4312. Acesso no dia 13 de janeiro de 2008.

Convidaram Rego para liderá-los nesse plano e ele, que já vinha sonhando com Belo Horizonte, o grande centro que desejava, aceitou o convite e, deixando Vitória da Conquista, assumiu o pastorado da recém fundada Igreja da Lagoinha, em 17 de maio de 1958”. 134

O vínculo de Rego com o Movimento de Renovação Espiritual, desde sua alegada experiência de batismo no Espírito Santo, foi bastante estreitado, tanto assim que na Rádio Guarani, em Belo Horizonte, dirigiu um programa chamado Renovação Espiritual. Appleby possivelmente iniciou o programa radiofônico no ano de 1956 e, após tê-lo transferido a Rego, o pastor teria mudado a conotação de “Renovação Espiritual”, vinculando o batismo no Espírito Santo à Renovação Espiritual. Almeida se recorda das mensagens de Rego e alega que o impacto das mensagens nos ouvintes era muito grande. Muitos começaram a procurar igrejas evangélicas e muitos “crentes desviados” retornaram às suas igrejas.135Assim, o início do ministério de Rego, em Belo Horizonte, na Igreja Batista da Lagoinha, teria sido bastante eficaz graças à sua atuação na Rádio Guarani.

Acerca do dinamismo e da ascensão de Rego, o historiador Reis Pereira diz que o referido pastor recebeu o programa de rádio da missionária Rosalee Mills Appleby, continuou a escrever para O Jornal Batista, preparou o livro Calvário e Pentecostes e atendia às constantes solicitações de vários lugares para pregações e séries de conferências. Contudo, com o passar do tempo e com o envolvimento de Rego no Movimento de Renovação Espiritual, a igreja de Lagoinha sentiu falta de seu pastor, tendo enfrentado certa estagnação.

Rego, a convite de seminaristas, promoveu um encontro pentecostal na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, o qual será descrito mais adiante. Também atuou como pregador num programa radiofônico, como foi dito, e participou da Comissão dos 13, a qual também será abordada posteriormente. Rego deixou uma importante obra acerca do batismo com o Espírito Santo e acerca da Renovação Espiritual: Calvário e

Pentecostes 136.

Enéas Tognini nasceu em 1914137, na cidade de Botucatu , interior do Estado

de São Paulo, porém foi registrado na cidade de Avaré, no mesmo Estado138. Quando Tognini fez dois anos de idade, sua família mudou-se para a cidade de Campo Grande, no Estado do

134 PEREIRA, J. Reis. História dos batistas no Brasil, p. 195.

135 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 108. 136 PEREIRA, J. Reis. História dos batistas no Brasil, p. 252.

137 Enéas Tognini está com 94 anos. Atualmente ele reside na cidade de São Paulo. Após ter recebido o título de “Presidente Honorário” da Convenção Batista Nacional disse que “não terminaria sua carreira de pijama, mas

cairia na batalha, de farda”. In: XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 97.

Mato Grosso do Sul. Porém, foi quando Enéas Tognini atingiu os 18 anos que, fazendo contato com alguns evangélicos, passou a freqüentar uma igreja batista na cidade onde morava. De família católica, converteu-se ao protestantismo batista aos 19 anos de idade, quanto também foi batizado.

Ainda sobre sua conversão, Enéas Tognini diz que, na vida que antecedeu sua adesão ao protestantismo batista, foi católico e devoto de Santa Teresinha. Nutria profunda antipatia pelos protestantes e sempre que passava próximo à Primeira Igreja Batista em Campo Grande procurava se desviar do templo. Entretanto, por influência da esposa do dono da oficina onde Tognini trabalhava, passou a freqüentar a referida igreja.139. Tognini narra, em sua Autobiografia, que se converteu ao ouvir um sermão pregado pelo Pr. Egídio Gióia e foi batizado no dia 17 de setembro de 1933. Sentindo-se muito alegre, também teve a percepção de que seus pés haviam criado “asas de borboletas” e “não pisavam no chão”. Tendo essa alegria, também quis falar de sua experiência religiosa para todas as pessoas de seu convívio. Contudo, enfrentou dificuldades com sua família, que era católica, e os amigos, a quem Tognini chama “amigos de pecado” 140.

Acerca de sua conversão, Tognini diz:

“De 14 aos 18 anos de idade perdi-me no pecado. Meus irmãos mais velhos ensinaram-me a fumar desde os seis anos de idade. Fui para o jogo, fui para a prostituição. Mas Deus me encontrou. (...) Converti-me mesmo ao Senhor Jesus. Senti um alivio e paz no meu coração e um gozo profundo em minha alma”. 141

Com apenas seis meses de convertido ao protestantismo batista, Tognini sentiu-se vocacionado para o exercício do ministério pastoral. Portanto, retomou os estudos num período de cinco anos, tendo sido influenciado por um professor particular chamado Reinaldo Julian Decoud Larrosa, então cônsul paraguaio no Brasil. Larrosa pertenc ia à “Igreja dos Irmãos Unidos” e, além de ministrar diversas disciplinas, também lhe ensinou a Bíblia e o idioma francês. Entusiasmado, Tognini também se dedicou ao estudo do idioma inglês, através do contato que travou com um missionário presbiteriano, sendo bastante curioso e desejoso por conhecimento142.

No ano de 1938, Tognini iniciou o curso de bacharel em teologia no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Estado do Rio de Janeiro, tendo sido o único aluno de sua turma a se bacharelar, o que ocorreu em 1941. Depois de ter cursado

139 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 22. 140 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 23.

141 TOGNINI, Enéas. Renovação Espiritual no Brasil, p. 11. 142 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 28 e 29.

teologia, também decidiu se casar e foi ordenado ao ministério pastoral batista no mesmo ano em que concluiu o curso teológico. Seu primeiro ministério se deu numa igreja em Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. Durante seu pastorado, Tognini exerceu diversos cargos denominacionais, entretanto, somente em nível estadual.

Enéas Tognini, no ano de 1946, transferiu-se para a cidade de São Paulo, onde assumiu o pastorado da Igreja Batista de Perdizes, que era composta por apenas duas famílias e um grupo de estudantes. A permanência de Tognini na liderança da mencionada igreja estendeu-se até o início do ano de 1964, quando a deixou com aproximadamente 400 membros e um templo construído.

Durante o tempo em que exerceu o ministério pastoral na Igreja Batista de Perdizes, Tognini também foi vice-diretor do Colégio Batista Brasileiro e auxiliou na fundação da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, tendo sido docente em ambas as instituições. Tognini, no exercício das funções denominacionais, em nível estadual e nacional, foi bastante reconhecido por sua habilidade administrativa e pastoral.

Enéas Tognini narra uma experiência que o sensibilizou, levando-o a “quebrantar o coração”, pois durante um período muito difícil da sua vida, em 1958, quando alguns ladrões tentaram invadir sua casa por três vezes e quando estava demasiadamente cansado de trabalhar 16 horas por dia, teve a experiência de ouvir Rosalee Mills Appleby ministrar palestras no Colégio Batista, recebendo-a, inclusive, em sua casa no mês de julho.

Nesse mesmo período e ocasião, o Congresso Jovem Batista do Brasil ocorreu no Colégio Batista e, além da atuação de Appleby, teve Rego como orador principal. Mesmo tendo participado de todas as palestras, Tognini desprezava a mensagem de avivamento e não concordava com nada do que Rego dizia, mas, mesmo assim, recebeu aos poucos as doses que Appleby distribuía. Porém, no penúltimo dia, uma “seta do Espírito” atravessou o coração de Enéas Tognini, fazendo-o chorar 143.

Segundo o próprio Tognini, ele não cria em avivamento e tampouco nos avivalistas, conquanto combatia-os vorazmente. Conforme o autor, havia em seu arquivo uma grande quantidade de trabalhos escritos para combater “a obra do Espírito Santo”, porquanto ele nunca “perdeu tempo” para estudar o batismo no Espírito Santo à luz da Bíblia144.

Enéas Tognini teve diversas experiências de leitura dos folhetos de Rosalee Mills Appleby e com a mensagem de Rego, contudo, foi num certo dia, bastante marcante, que sua experiência religiosa mais intensa ocorreu:

143 Cf. TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 37. 144 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 38.

“Corria o dia 16 de agosto de 1958. Era pastor da Igreja Batista de Perdizes e diretor do Colégio Batista de São Paulo. Ó, se me lembro! Era um sábado. Levantei-me às cindo da manhã e entrei em meu