6 DRØFTING AV FUNN – OG AVSLUTTENDE KOMMENTARER
6.2 Resiliens og individuelle resiliensfaktorer
58. Em uma passagem bastante significativa no Prólogo do livro Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria, se lê de Proudhon, por exemplo, a seguinte frase: “Um pouco de filosofia afasta da religião, disse não sei qual pensador irônico, e muita filosofia traz de volta a ela — esta observação é de uma verdade humilhante” (PROUDHON55, p. 45). A alusão, sutil mas
perceptível para leitores de formação filosófica, é à relação entre Kant e Hume, cujos nomes não são mencionados. O primeiro deles, em uma frase de efeito famosa, declara ter sido despertado de seu “sono dogmático” pelo ceticismo do segundo. Proudhon associa esse “sono dogmático” à religiosidade.
No conjunto das menções de Proudhon a Kant que se espalham por algumas de suas obras, pode-se acompanhá-lo elogiando o que lhe parece um empenho kantiano no sentido de afastar-se da consideração do “absoluto” — “Deus” para os religiosos — enquanto conteúdo, mediante a consideração do absoluto apenas enquanto forma no pensamento, forma que, diz Proudhon, já não é de fato o “absoluto” como algo extra-humano, e sim algo imanentemente humano. Suas críticas a Kant sempre denunciam, nele, uma limitação nessa guinada iniciada no sentido de uma ruptura histórica com o pensamento religioso, uma falta de radicalidade, assinalada pela permanência da atribuição de um valor positivo ao absoluto afastado como conteúdo inacessível. Na filosofia kantiana, tudo o que se apresenta como dado sem a exposição de sua gênese histórica e social — por exemplo categorias como tempo, espaço etc., nas quais Proudhon detecta construções no fundo lingüísticas e de caráter histórico — figura para o anarquista francês como um retorno, por contaminação indireta, à mesma “sonolência” dogmática da qual Kant pretendia ter despertado.
208. No fim do século dezoito, um filósofo alemão empreendeu com novo alento o inventário do espírito humano, e a classificação das categorias. Segundo Kant, todos os nossos pensamentos, quanto a seu objeto, são concebidos no tempo e no espaço; quanto à sua forma, eles se remetem a doze gêneros, ou para dizê-lo
55 Cf. PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema de las contradicciones economicas o Filosofia de la miseria. Madrid: Júcar, 1975, tomo 1.
melhor a doze pontos de vista56, pré-formados no entendimento57. São esses pontos de vista gerais (sob os quais toda série é necessariamente construída)58, que Kant, a exemplo de Aristóteles, chamou de categorias.(...)
209. Todas essas categorias são uma imitação das categorias gramaticais, vulgarmente chamadas partes do discurso. (...) Ora, qual pode ser a utilidade desta classificação em lógica? (...)
As categorias, supondo sempre que sua enumeração e determinação sejam rigorosas, são para a metafísica59 o que os corpos simples são para a química: servem para exprimir o que lhe é ininteligível, a substância, a causa, a paixão etc. O entendimento não faz nada sem elas; ora, a questão não é saber sobre o que o entendimento opera, mas como ele deve operar.
(PROUDHON: Da criação da ordem na humanidade,60 p. 162-163)
Demonstrando sempre, independentemente de suas críticas, grande admiração pela filosofia kantiana, e ocasionalmente a intenção de ser lido como um “continuador” (entenda-se “radicalizador”) de um movimento histórico iniciado por Kant, Proudhon pretendeu inclusive, com insistência, dedicar o terceiro capítulo de Da criação da ordem na humanidade — foco bibliográfico central desta pesquisa — a um importante tradutor das obras kantianas na França, Tissot. Mas não pôde fazê-lo, porque Tissot, ciente de que a obra não se pretendia de modo algum uma herdeira legítima da filosofia de Kant, mas quando muito uma herdeira distante, bastarda e de direitos questionáveis quanto a isto — e também decerto receoso ante a expectativa de ver seu nome associado ao de radical “subversivo” do porte de Proudhon — recusou terminantemente a dedicatória. Em respeito à recusa, tal dedicatória foi redirecionada, por ocasião da publicação — aliás também significativamente — a um antigo professor de línguas e filologia de Proudhon.
As edições Tops-Trinquier (de 2000) e Marcel Rivière (de 1927) do livro Da criação da ordem na humanidade oferecem, em nota de rodapé da primeira página do Capítulo III — coincidentemente a página 127 em ambas — esclarecimentos resumidos sobre o caso, que podem ser completados com a leitura das correspondências61 de Proudhon.
56 “Pontos de vista” são um gênero de itens constitutivos das “séries”, que constituem o que Proudhon define como o objeto mais imediato da atenção de sua Teoria Serial. O tema será tratado no Capítulo II desta pesquisa.
57 No original, “préformés dans l’entendement”.
58 Mais uma vez, referência de Proudhon à sua própria teoria. Ele procura sugerir, aqui, de que modo esta passagem do pensamento kantiano — como a rigor qualquer passagem de qualquer construto teórico — poderia ser traduzida nos termos da Teoria Serial, visando verificar se, na “série” que equivaleria a tal construto teórico, há ou não boa construção e pertinência ao objeto tratado. Cf. Capítulo II desta pesquisa.
59 Proudhon declara usar a palavra “metafísica” com o sentido de método.
60 PROUDHON, Pierre-Joseph. De la création de l’ordre dans l’humanité. Antony: Tops/Trinquier, 2000.
61 Carta de Proudhon a Ackermann de 15 de outubro de 1839; e ao próprio Tissot, de 28 de fevereiro e 21 de abril de 1842.
59. A crítica de Proudhon à causalidade62, por outro lado, herdeira — também ilegítima, mas
talvez já não tanto — das preocupações de Hume, está no centro de sua teoria do conhecimento, bem como de seu posicionamento no debate entre Comte e Cousin. Curiosamente, esta proximidade com Hume não tem sido sequer notada pelos comentadores.
É verdade que também não é preciso examinar detidamente Hume para assinalar essa presença, nem para compreender a formulação dessa crítica por Proudhon, que embora não chegue a refutar a formulação humeana, a estende em uma direção que já não é de modo algum a mesma, dando-lhe o sentido histórico-antropológico de um movimento de transformação na mentalidade social, rumo ao abandono do princípio de causalidade — movimento aplaudido pro Proudhon e do qual Hume teria sido, por assim dizer, o anunciador. Mas ainda que desta maneira enviesada, tal presença — a da crítica humeana à causalidade — é uma que não há como deixar passar despercebida em Proudhon, e merece ser ao menos bem assinalada.