Devido à complexidade dos processos de ensino e aprendizagem no que tange a prática pedagógica docente na escola, as ações educativas dos professores, por muitas vezes, são estruturadas em uma rotina mecânica, chegando a sugerir que tais profissionais agem sem refletir sobre suas ações (FERREIRA, 2006), face às inúmeras barreiras que dificultam ou até mesmo lhes impedem de exercer o trabalho educativo de modo coletivo e reflexivo.
Luis Fernando diz que nas aulas de Educação Física na escola, há algum tempo, os conteúdos por ele ministrados são organizados por intermédio de temas. Justifica que a opção se deu por conta dos temas possibilitarem uma melhor articulação entre os diversos elementos/conteúdos da cultura corporal de movimento. Igualmente, tal característica é destacada pelos docentes participantes da investigação realizada por Leal (2007):
[...] como possuem maior abrangência, através do trabalho com temas os docentes conseguem fazer com que os alunos tenham uma maior participação, tendo em vista as divergências quanto às preferências dos alunos nas aulas de Educação Física e o benefício de poder contextualizar assuntos que os discentes vivem em seu dia-a-dia dentro e fora da escola (p. 102-103).
Luis Fernando relata que um aspecto essencial aos professores de Educação Física incide em ter clareza dos seus objetivos, isto é, que eles saibam onde querem chegar com os conteúdos desenvolvidos nas aulas. E tal postura se aplica independentemente da metodologia ou concepção teórica adotada pelo profissional, uma vez que, em sua própria atuação no início da carreira, durante período em que ministrava aula numa perspectiva tecnicista/esportivista, o participante aponta que tinha convicção de que seus alunos deveriam aprender os gestos técnicos dos esportes e os fundamentos específicos de cada modalidade. Portanto, a partir dessa concepção, suas estratégias de ensino se focavam em tal finalidade. Nas palavras de Luis Fernando:
[...] o professor tem que ter clareza disso, então, por exemplo, eu lembro do meu início: quando eu era tecnicista, eu acredito que eu fazia muito bem aquilo. Não vou dizer se estava certo ou se estava errado, mas o importante a sua prática, sua postura estar bem... ser bem consistente com relação àquilo, aos seus objetivos, e isso não acontece. Então o eu costumo dizer o seguinte:
seria melhor hoje, apesar de condenado por muitos, essa questão do tecnicismo, [...] eu ainda sou da seguinte opinião: se tivesse professores que trabalhassem de maneira... tecnicista, mas que trabalhassem realmente... fundamentados dentro desses princípios, com um trabalho bem consistente, seria melhor do que está hoje [...]. Então hoje você encontra o que? O professor que dá a bola pros alunos e fica ali [...] olhando, terminou/controlando o tempo, a hora que deu o tempo ele recolhe o material, pega a outra turma, distribui o material... é uma distribuição de material, isso é o que a gente tem e, infelizmente o que eu tenho visto. Essa é a realidade, apesar dos professores não gostarem muito quando a gente fala isso numa reunião, por exemplo (Luis Fernando – Entrevista 1).
É possível perceber que Luis Fernando apresenta grande preocupação com a aprendizagem dos alunos, pois afirma que o descompromisso de grande parte dos docentes perante seus respectivos alunos faz com que estes acabem não construindo um conhecimento mais diversificado e consistente sobre a Educação Física.
Igualmente, mesmo considerando que o tecnicismo/esportivista é, hoje, uma concepção teórico-metodológica ultrapassada para o processo de ensino nas aulas de Educação Física Escolar, segundo o participante, se ao menos os docentes ainda atuassem realmente embasados nela, os alunos aprenderiam algo planejado, com direcionamento/mediação profissional e que, assim, haveria finalidades a serem alcançadas e os docentes teriam parâmetros para avaliar e replanejar o processo de ensino e de aprendizagem de seus alunos nas aulas.
Vale destacar que esta perspectiva educativa, que contempla metas e objetivos através de um processo de ensino pedagogicamente qualificado, é aquela que concebemos ser necessária para toda e qualquer ação educativa no contexto escolar. Neste sentido, os relatos de Luis Fernando vão ao encontro, por exemplo, com o que afirma Imbernón (2001):
El docente deberá apoyar sus acciones en una fundamentación válida para evitar caer en la paradoja de enseñar a no enseñar, o en una falta de responsabilidad social y política que conlleva todo acto educativo, y en una visión funcionalista, mecánica, rutinaria y no reflexiva de la profesión que ocasiona un bajo nivel de abstracción, de actitud reflexiva y un escaso potencial de aplicación innovadora (p. 35).
No entanto, Luis Fernando indica que o problema não está apenas na falta de compromisso dos docentes, de modo a responsabilizá-los individualmente por um problema
que, construído social e historicamente, é bem mais amplo e abrange vários outros segmentos, como, por exemplo, as políticas públicas em Educação e os próprios cursos de Formação de Professores, tal qual afirma Imbernón (2001, p. 35): “La estructura de la formación inicial debe posibilitar un análisis global de las situaciones educativas que, a causa de la carencia o la insuficiencia de la práctica real, se limitan predominantemente a simulaciones e esas situaciones”
Nesse sentido, o participante diz que nos cursos de licenciatura, no campo da Educação Física, poderia haver maiores contribuições com a formação dos futuros professores se houvesse um melhor desenvolvimento dos conteúdos esportivos no que tange aos seus aspectos didático-metodológicos, isto é, elementos que se relacionem com o como ensinar:
[...] eu fiz a licenciatura plena. Então subentende-se que nesse meu curso deveria, ao se trabalhar os esportes - porque tem lá na grade o voleibol, o basquete 1, o basquete 2, natação 1 e aí vai... - dar uma ênfase no ponto de vista didático-metodológico, né, voltado para o escolar. Então isso não é visto na faculdade, pelo menos não na minha experiência. Então o que foi visto? Foi visto a questão técnico, tática, [...] na verdade isso aí vai de cada aluno, mas ali não deu ênfase de que maneira abordar esses conteúdos na escola. Isso não foi trabalhado. Então é isso que eu acho que a faculdade está pecando. Então, por exemplo, vai trabalhar o voleibol: como nós poderíamos trabalhar o voleibol de primeira a quinta/quarta série? (...) né?! E destrinchar todas as possibilidades claro que fundamentado em algumas teorias, mas eu acredito que de que maneira prática nós poderíamos estar abordando esta questão? (Luis Fernando - Entrevista 1)
Observamos que as respostas do professor Luis Fernando se referem frequentemente aos conhecimentos que os docentes devem possuir, mobilizar e operacionalizar para ensinar e exercer a profissão na escola, ou seja, a Base de Conhecimento docente (SHULMAN, 1987, 1989, 2005). Ao apontar que o professor de Educação Física deve saber aspectos didático-metodológicos acerca do conteúdo a ser ensinado, por exemplo, podemos visualizar a necessidade do Conhecimento Pedagógico do Conteúdo.
Ao analisarmos as respostas do Quadro 4 também conseguimos observar vários outros domínios que constituem a Base de Conhecimento para a docência. Quando o professor Luis Fernando diz: "Ter clareza dos objetivos"
[...] então ele tem que ter conhecimento de estratégia metodológica, de didática, tem que ter isso bem solidificado, isso da um suporte, uma segurança no trabalho. Por exemplo, como é que eu vou trabalhar com leitura na aula de educação física, então antes dele se propor esse trabalho e olha não é conteúdo, é didática, estratégia, quais recursos eu vou utilizar? [...] trabalhei o conteúdo “Exercício físico e atividade física”, os conceitos de atividade física e exercício físico pra mostrar. Então antes até para esse tema eu tive que elencar vários conteúdos e um amarrado com o outro, então isso não é tão simples assim... (Luis Fernando – Entrevista 3).
Assim, de acordo com Benassuly (2000), o desenvolvimento profissional qualificado passa a ser fundamental para docentes que buscam construir uma atuação consciente, pedagógica, reflexiva e politizada. Neste sentido, Imbernón (2005) assinala que “A consolidação do conhecimento profissional educativo apoia-se [...] na análise, na reflexão e na intervenção sobre situações de ensino e aprendizagem concretas e, é claro, em um contexto educativo determinado e específico” (p. 67).
Conhecimentos de aspectos metodológicos e didáticos são apontados pelo professor como saberes importantes para o ensino da Educação Física, abrangendo diferentes recursos e estratégias para que facilitem o aprendizado do aluno, tais como vídeos sobre o tema abordado, slides, datashow, recortes da internet, filmagens das próprias aulas. Também cita a adaptação de conceitos e conteúdos, de modo a utilizar uma linguagem acessível aos alunos.
Para o professor Luis Fernando, é extremamente necessária a verificação das aprendizagens dos alunos. Para tanto, o docente realiza: avaliações conceituais, comparando o que os alunos sabiam inicialmente e o que sabem após o desenvolvimento dos conteúdos; observação das atitudes de seus alunos nas aulas; e, ainda, observa sistematicamente a evolução no desenvolvimento do repertório motor dos alunos, utilizando atividades lúdicas que também possibilitem reflexão dos alunos sobre suas aprendizagens.
Do mesmo modo, o planejamento sistemático das aulas se configura como um importante recurso para o bom andamento das suas aulas porque o auxilia na organização dos conteúdos em começo, meio e fim. No entanto, ressalta que o planejamento é um guia e que, por isso, mesmo ocorrendo imprevistos, fica mais fácil alterar e reorganizar o planejamento, os conteúdos e as aulas caso haja necessidade.
Por sempre tentar perceber, refletir e avaliar sua prática pedagógica, o professor Luis Fernando tem maiores possibilidades de compreender a dinâmica das aulas,
seus alcances e dificuldades e, neste sentido, buscar estratégias para superá-las quando preciso.
[...] eu dei a aula eu senti no momento que eu não tive sucesso [...] eu percebi que havia uma barreira e não foi legal, mas eu fui infeliz na escolha, no encaminhamento que dei e só fui descobrir depois. E depois na outra aula eu tirei de letra [...]. Pode surgir questionamento de aluno sobre o tema que o professor não tenha resposta e, eu acredito que isso é natural, eu acredito que ele tem que depois procurar e tentar mostrar... a resposta do questionamento (Luis Fernando – Entrevista 3).
Essa reflexão se estende às necessidades dos alunos, suas dúvidas e dificuldades:
[...] o tema do projeto era Atividade pré-esportiva: novos horizontes para a convivência harmoniosa nos esportes, [...] [surgiu] porque eu percebi que nas três quartas séries, eu percebi em uma um índice bem mais baixo, na outra um mais elevado e na outra mais ainda um índice médio de discussão ou índice elevado de conflito na prática (Luis Fernando – Entrevista 3).
Segundo Luis Fernando, as formas de organizar, mobilizar e operacionalizar os conteúdos foram construídas a partir sua experiência profissional, de suas pesquisas, das leituras e conhecimentos adquiridos nas vivências com seus alunos. De um modo geral, busca entrelaçar os conteúdos de acordo com os objetivos almejados e em função dos conhecimentos de suas turmas, possibilitando reflexões, debates e conhecimentos para além do que os alunos têm em suas vidas cotidianas:
[...] pelo menos eu tenho essa visão [...] e o que que acontece, essa criança ela convive ali comigo quanto tempo? 50 minutos, duas aulas 100 minutos por semana. Ai ele tem uma convivência muito maior com outras pessoas, com outra comunidade, com a rua, [...] Então a intensão inicial, eu já tinha consciência: não é transformar, mas... fazer com que ele, refletisse sobre aquilo, que ele tivesse uma oportunidade porque se não fosse eu tenho certeza que ele não vai ter essa oportunidade [...]. Eu mencionei a questão do professor, o profissional ele tem que ter uma regularidade, agora me veio a palavra, a regularidade no trabalho [...] não basta você fazer um projeto, apresenta e depois volta pra rotina bola de futebol para os meninos, entendeu? (Luis Fernando - Entrevista 3)
Vale frisar que, tal como nos apontam Reali e Reyes (2009),
[...] a atuação docente não se limita às atividades realizadas dentro de uma sala de aula, pois engloba as responsabilidades sociais e políticas que o seu papel profissional implica e a participação do mesmo em uma escola, na comunidade e em outros espaços. Dessa forma, abrange as características do ensinar, mas vai além, pois envolve ainda sua participação na instituição escolar, numa comunidade profissional com características, normas e culturas próprias (p. 13).
Para Luis Fernando, o professor de Educação Física deve atuar de maneira consistente, mantendo a regularidade no trabalho compromissado com seus alunos. A atuação profissional deve estar qualificada não apenas na fala, no discurso, nos projetos, mas sim, no dia a dia das aulas junto aos alunos. Para tanto, o professor participante declara ser necessário o apoio da equipe técnica, pedagógica e de toda a comunidade escolar.