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Os ritos e rituais são rotinas cotidianas que guiam o comportamento de indivíduos em espaços sociais, como o de corporações. Os ritos produzem uma dinâmica que se caracteriza por formas de regular comportamentos e a perda de certas formas de atenção, memória e consciência proporcionados pelos rituais “privam os homens de recursos sem os quais conferir sentido à sua existência social ou individual torna-se um empreendimento inseguro e improvável” (SEGALEN, 2002, p. 11).

Mas, não é possível esquecer que os rituais são parte integrante da vida pública e privada dos indivíduos, pois eles surgem desde o princípio da vida de um ser humano. A ausência dos mesmos torna improváveis, senão impossíveis, novos dispositivos capazes de dirigir a atenção, despertar a consciência e criar a memória em face das novas situações e dos novos desafios em busca de sentido, desafio que o ser humano persegue em todas as fases da vida.

A propósito, nos tempos atuais há “uma espécie de déficit ritual [...] que priva o indivíduo de um apoio coletivo, seja dos pais, seja dos vizinhos, e o deixa com

frequência em uma solidão interior, em face das passagens do tempo” (SEGALEN, 2002, p. 8).

Esse “fantasma do desaparecimento dos ritos” (Idem), no meio social familiar, mas também em outros âmbitos da sociedade contemporânea, não só aflige o desenvolvimento do ser humano, como atinge o terreno da reflexão sócio-histórica. De certa forma, “O rito seria vitima do próprio sucesso, pois o enrijecimento de sua forma teria feito com que perdesse todo o significado” (idem, p. 18).

Os ritos e rituais mantêm a cultura viva e são a expressão concreta dos valores, substituindo constantemente a cultura e seus valores no primeiro escalão das preocupações de uma empresa. Ou seja, os ritos de empresa se inscrevem muito bem no campo que se cruza determinada cultura e estilo de vida com o campo da função cognitiva (SEGALEN, 2002).

As formas de como muitos empregados absorvem a cultura da corporação é subjetiva. Cada qual tem uma forma pessoal de análise, levando em conta a capacidade de cada um de aprendizado pela cognição. Justifica-se, dessa forma, que os rituais são necessários para manutenção da cultura pois, sem eles, qualquer cultura morrerá. Na ausência de rituais, valores importantes não são absorvidos.

À luz de recentes etnografias contemporâneas é possível verificar que o progresso científico-tecnológico tem fracassado quanto à tentativa de reduzir o intercurso social e pessoal à pura racionalidade dos dispositivos e à funcionalidade integrada dos processos organizacionais.

Ao contrário do que se possa imaginar, ritos e rituais fazem parte da sociedade moderna, aquela voltada para a técnica, a racionalidade, a eficácia. Segalen (2002, p. 13) ao prefaciar sua obra denominada de Ritos e Rituais

Contemporâneos indaga: “Não restaria hoje ao ritual apenas um espaço reduzido, na medida em que comportamentos religiosos só dizem respeito a uma minoria da população?” Ao se colocar que rituais são associados ao campo religioso fica clara a estreiteza da definição, uma vez que ela impede a demarcação de práticas sociais bem vivas. Compreende-se, assim, a necessidade de quebrar o constrangimento da definição.

Paradoxalmente, observamos um uso muito difundido dos termos ‘ritos’ e ‘rituais’. Abuso que arrisca fazê-los perder toda a sua eficácia semântica. Na verdade, a mídia, assim como a antropologia, a sociologia e a história gostariam de nos fazer acreditar que todo o comportamento repetitivo é um ritual (SEGALEN, 2002, p. 13).

Logo, a simples repetição de um comportamento não é suficiente para que determinado ato possa ser chamado de ritual. Caso contrário, “poderíamos afirmar que os animais têm comportamentos rituais”. (idem). A repetitividade de uma ação é condição necessária para que exista um ritual, porém isso só não é suficiente. Os rituais são determinados pela manutenção de costumes, carregados de uma simbologia, de significado e de importância para aqueles que os praticam. São um conjunto de práticas, com diferentes códigos de comunicação, consagradas por tradições, costumes ou normas; são um processo continuado de atividades organizadas cuja prática está relacionada às esferas culturais. Importante considerar-se ainda que uma das principais características do ritual esteja relacionada a “sua plasticidade, a sua capacidade de ser polissêmico, de acomodar- se à mudança social” (SEGALEN, 2002, p. 15).

As pessoas aprendem em uma cultura que os marca, com efeito, na verdade, os treina, em um modo específico de comportamento. E, talvez seja este o sentido de os ritos e rituais serem fruto de estudos e do retorno às salas de aula por alguns professores como Segalen, Mello e Vogel8.

Por outro lado, as perspectivas desenvolvidas pelos autores Deal & Kennedy9 (1982) reafirmam e consolidam que os rituais existem nas corporações e a vida diária das mesmas gira em torno de inúmeras repetições ritualísticas, algumas descritas e legitimadas em manuais e, outras não, mas em todas as formas adotadas, a compreensão existe.

Para esses autores (Idem), os rituais:

 Comunicam claramente como as pessoas devem se comportar nas organizações e quais os padrões de decoro são aceitáveis;

 Chamam a atenção para a maneira como os procedimentos são executados;  Exercem uma influência visível e penetrante;

 Estabelecem a maneira como os empregados devem se divertir;

8 Martine Segalen é pesquisadora e professora da Universidade de Paris X

– Nanterre; Mello é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Vogel da Universidade Estadual Norte Fluminense (Uenf).

9 Deal & Kennedy (1982) são professores pesquisadores de Middlesex, Massachusetts, Estados

Unidos. Seus estudos focam a cultura organizacional e dizem que empresas que possuem uma cultura forte adotam padrões aceitáveis de convivência, criando ritos e rituais de comportamentos, para exercitar maior influência visível e persuasiva sobre o ambiente interno e social.

 Apresentam o lado criativo da cultura, que libera tensões e encoraja inovações, aproximando as pessoas, reduzindo conflitos, criando novas visões e valores.

Os rituais, quando adotados como regras internas, guiam o comportamento na vida corporativa e são, na verdade, dramatizações dos valores culturais básicos da organização. Por trás de cada ritual existe um mito que simboliza a crença principal para a cultura. Sem esta conexão, os rituais são apenas hábitos e não produzem nenhum efeito, apenas passam a falsa sensação de segurança e certeza. Os rituais fornecem o lugar e o roteiro, com os quais os empregados podem dar sentido às suas experiências. Eles trazem ordem ao caos (DEAL & KENNEDY, 1982).

De acordo com os autores, a importância dos rituais de trabalho é facilmente comprovada, mesmo que muitos praticantes não tenham noção do que significa procedimentos ritualizados. De acordo com os autores, eles se destacam por sinalizar, ao mundo exterior, o quão eficaz é a cultura e, especialmente, se o produto é imaterial, pois o que se destaca são os relacionamentos que ganham espaço e os empregados aumentam seu próprio senso de autoestima.

Uma corporação que reconhece esta importância pode usar rituais de trabalho para ajudar a construir uma cultura forte, com melhores resultados.