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A Research and Service-lnstitution

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Nesta parte do trabalho, apresento minhas reflexões finais sobre esta pesquisa, indicando a mudança ocorrida ao longo do percurso de elaboração do trabalho. Além disso, procuro retomar alguns conceitos teóricos que balizaram este estudo e discutir as respostas encontradas às perguntas de pesquisa. Espero que as reflexões aqui deixadas possam contribuir para pesquisas futuras sobre o ensino- aprendizagem de inglês na escola pública.

Inicialmente, meu foco era o planejamento de aula do professor de inglês da escola pública. No entanto, em virtude das respostas dadas pelos professores- participantes e das observações de aula, percebi que deveria examinar questões que iam além do planejamento de aula.

O caminho que resultou na mudança do foco da pesquisa foi longo. Foram muitas discussões com professores e colegas de curso que propiciaram essa mudança. Os dizeres dos professores-participantes apontaram para o novo caminho. Afinal, aquilo que foi ficando evidente, pouco a pouco, na medida em que a coleta de dados estava sendo feita eram as ideologias. As visões de mundo, os valores que permeavam o discurso dos participantes.

Passei a me questionar sobre o papel do professor de inglês não só como alguém com conhecimento técnico para ensinar uma língua estrangeira, mas principalmente, um educador. Alguém que contribuiria para a formação de meninos e meninas que nasceram no mundo global, no mundo que fala inglês. Ocorre que esse professor de inglês está inserido em uma determinada realidade socioeconômica e se fazia necessário ter uma visão mais ampla do contexto sócio- histórico no qual o professor de inglês da escola pública está “encapsulado”. Afinal,

[...] o processo educativo não se exerce no abstrato, mas dentro de uma sociedade com características culturais próprias. Portanto, é um processo que não visa apenas ao indivíduo, mas ao grupo, à comunidade, estabelecendo os padrões de comportamento para o próprio indivíduo (WERNECK, 1982, p.67).

professor nesse contexto sócio-histórico e explicassem as “forças” que condicionavam suas formas de pensamento e faziam com que ensinassem da maneira como ensinavam. Essas “forças” ou ideologias permeavam não só o discurso, mas também a prática dos participantes desta pesquisa. É interessante observar que aspectos muito semelhantes aos encontrados nesta pesquisa foram descritos em inúmeros outros estudos com professores de inglês da escola pública. Procurei trazer para este trabalho, contribuições de pesquisadores de diferentes partes do Brasil, que relatam a situação do ensino de inglês na escola pública.

Com relação ao encaminhamento teórico, baseei-me nas concepções bakhtinianas de ideologia, signo ideológico e ato ideológico e nos estudos de Michael Apple sobre ideologia e educação. Acredito que esse aporte teórico possibilitou a compreensão das ideologias e atos dos participantes, assim como um entendimento da escola como uma instituição inserida em um determinado contexto sócio-econômico.

A articulação dos conceitos bakhtinianos fundamentou teoricamente este estudo, que analisou o discurso e as aulas dos professores de inglês da escola pública. A ideologia é considerada de natureza social e designa um ponto de vista constituído em um determinado lugar. A linguagem, enquanto objeto da práxis concreta, está sempre carregada de valores, que permitem compreender sua função ideológica. Já o ato ideológico considera que as ações também se encontram impregnadas de valores e não podem ser vistas isoladamente, ou seja, separadas do discurso.

Além dos conceitos bakhtinianos expostos acima, foram de suma importância para este trabalho os estudos de Michael Apple sobre ideologia e educação. Ao adotar essa concepção, deixei de lado a visão reprodutivista e mecanicista proposta por Althusser. Para Althusser, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante e a escola teria a função de reproduzir essa ideologia.

Apple esclarece que a desigualdade não é só reproduzida, ela é produzida na escola por meio das práticas adotadas pelos professores em sala de aula e ao longo de seus escritos, deixa claro que os professores estão “encapsulados” em uma determinada realidade sócio-econômica que legitima suas visões e a postura que adotam em sala de aula.

Sendo assim, procurei neste estudo ir além das ações individuais dos professores de inglês da escola pública para compreender como suas visões de mundo ou ideologias (irrefletidas ou não) legitimam um posicionamento ideológico presente na nossa sociedade. Os dois professores-participantes desta pesquisa não falam inglês com os alunos e também não acreditam que a escola pública seja o lugar onde se aprende inglês. Também demonstram uma insatisfação com a profissão docente, profissão que não foi escolhida por nenhum dos dois participantes. Fatores como a baixa remuneração e a indisciplina dos alunos da escola pública também aparecem como causadores de descontentamento para os participantes.

Este estudo vem confirmar uma das proposições de Apple, a de que o capital cultural veiculado nas escolas é distribuído de maneira desigual. Aquilo que os alunos da escola pública recebem é menos do que poderiam, tendo em vista a formação acadêmica dos dois professores-participantes deste estudo. Levando-se em consideração que ambos são fluentes em inglês e possuem cursos de aperfeiçoamento na área de ensino-aprendizagem, os participantes poderiam propiciar maiores oportunidades de aprendizagem e utilização da língua. No entanto, não é isso que ocorre.

A análise dos dados desta pesquisa revelou que as aulas dos participantes se baseiam em atividades de leitura e escrita dissociadas de seu contexto linguistico e situacional e atividades de pouca complexidade, que reforçam a tradução de palavras e frases isoladas. As oportunidades de utilização do inglês oral são praticamente inexistentes.

Nesse sentido, a escola pública torna-se um local onde a desigualdade não é apenas reproduzida, mas produzida.

É fato conhecido e retratado em pesquisas recentes e também presente no discurso midiático, que tanto as escolas públicas, como o ensino de inglês nas escolas públicas encontra-se desvalorizado. Considero esse dado desanimador para nós educadores e principalmente para os meninos e meninas que estudam na escola pública. No mundo global, no mundo que fala inglês, este estudo vem demonstrar que a escola pública não se configura como um espaço de aprendizagem dessa língua.

O objetivo deste trabalho era revelar as ideologias que permeiam o discurso e a prática dos docentes participantes desta pesquisa. Acredito que a compreensão dessas ideologias pode trazer uma importante reflexão sobre o ensino- aprendizagem de inglês na escola pública e que essa é a contribuição que espero ter deixado com este estudo.

De acordo com Oliveira (2010, p. 54): “a capacidade de avaliação ideológica constitui o primeiro passo para a conquista da justiça social – pressuposto da construção de um mundo melhor, objetivo maior de toda educação”.

Werneck (1982) postula que o papel da ideologia pode ser altamente positivo ao servir para situar o indivíduo na sua realidade social. A autora acrescenta que a ideologia, ao tornar-se consciente, pode promover a consciência crítica direcionando e dando força às ações. No entanto, a ideologia como sistema de pensamento que regula o relacionamento social, constituindo-se de modo inconsciente, é de difícil reestruturação (WERNECK, 1982).

Acredito que, mesmo diante do quadro desalentador do ensino-aprendizagem de inglês na escola pública, a transformação é algo possível. No entanto, é necessário que, conforme assevera Moita Lopes (1996), haja uma revitalização da profissão docente para que seja assegurada ao aluno a aprendizagem do inglês como língua estrangeira. Essa revitalização significaria mudanças na política salarial que sustenta o magistério e investimentos na formação inicial e na formação continuada dos docentes que atuam nas escolas públicas.

Na medida em que haja uma maior valorização do trabalho docente por meio de uma política salarial adequada e de investimentos na formação desses profissionais, essas ideologias ou visões sobre o ensino-aprendizagem de inglês na escola pública poderiam vir à tona e se tornarem objeto de discussão e questionamento pelos próprios docentes. Penso que esse caminho de enfrentamento e questionamento pelos docentes das ideologias poderá vir a ser precursor de mudanças.

Por fim, deixo ao leitor a seguinte pergunta: o ensino ofertado aos alunos da escola pública, da maneira como foi descrito neste estudo, não revelaria um profundo desprezo pelos meninos e meninas que frequentam esse espaço? Que futuro esses meninos e meninas terão no mundo global, no mundo que fala inglês?

O que lhes é negado, em última análise, é, no dizer de Mario Quintana, um ponto de partida, a possibilidade de um conhecimento mínimo da língua inglesa que os prepare para ser, existir no mundo global. Afinal, aprender línguas estrangeiras nos dias de hoje não é uma opção, é um pré-requisito para sobrevivência (CELANI, 1995).

Assim, espero ter deixado a minha contribuição, ainda que pequena, para a reflexão sobre o ensino-aprendizagem de inglês nas escolas públicas brasileiras.

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