RESEARCH MODEL & HYPOTHESES
3.3 Research questions and hypotheses
125 NICARAGUA. Estatuto Fundamental (20 de julho de 1979). Publicado em La Gaceta n. 1 de 22 de agosto
As Forças Armadas pertencentes ao regime sandinista foram criadas com a decretação do já citado Estatuto Fundamental em 20 de julho de 1979. Denominadas como Exército Nacional, substituiria a dissolvida Guarda Nacional e seria composto por combatentes da FSLN, soldados e oficiais da Guarda Nacional comprovadamente honestos e que demonstraram uma atitude patriótica frente ao caráter submisso do regime somozista, por aqueles que desejassem se incorporar e pelos cidadãos aptos recrutados pelo serviço militar obrigatório126.
Ainda de acordo com o Estatuto Fundamental, artigo 26, o mando militar seria, provisoriamente, exercido pelos chefes e dirigentes do movimento armado que derrotou o regime somozista, ou seja, dirigentes da Frente Sandinista. Posteriormente, no mesmo dia do decreto de criação do EPS (22 de agosto de 1979), o primeiro comando do novo exército foi nomeado, integrado por Humberto Ortega com o cargo de comandante-em-chefe do EPS, Luis Carrión como segundo comandante-em-chefe, e Tomás Borge como comandante adjunto127. Além de Joaquín Cuadra Lacayo, nomeado chefe do Estado Maior Geral no fim do
mês de julho.
Por meio do Decreto n. 53 de 22 de julho de 1979 foi criado o Exército Popular Sandinista. Decretou-se o EPS como única força armada do país, estando subordinados ao mesmo todos os corpos armados de polícia e segurança, através do Comando Geral do EPS128. No marco jurídico estabelecido pela Junta de Governo, através do Estatuto Fundamental e do Programa de Governo129, o novo exército seria organizado sob os princípios de defesa da soberania e do processo democrático, respondendo as necessidades da população nicaraguense. Nesse sentido, para a direção sandinista, o Estado revolucionário estava criando um exército como um ato de soberania, concebendo-o como instituição nacional responsável pela defesa do país e do novo projeto que se instaurava.
A partir do triunfo insurrecional, com as colunas guerrilheiras e milícias, o EPS possuía entre os meses de agosto e setembro de 1979 cerca de 12.500 homens. Os equipamentos e armamentos eram basicamente os que foram deixados pela antiga Guarda
126 NICARAGUA. Estatuto Fundamental (20 de julho de 1979). Publicado em La Gaceta n. 1 de 22 de agosto
de 1979.
127 NICARAGUA. Conformación de la Primera Comandancia y Estado Mayor General del Ejército Popular
Sandinista. Decreto n. 54 (aprovado dia 22 de agosto de 1979). Publicado em La Gaceta n. 12 de 18 de setembro de 1979.
128 NICARAGUA. Creación del Ejército Popular Sandinista. Decreto n. 53 (aprovado dia 22 de julho de 1979).
Publicado em La Gaceta n. 12 de 18 de setembro de 1979.
129 JUNTA DE GOBIERNO DE RECONSTRUCCIÓN NACIONAL. Programa de gobierno. Managua: s.n.,
1979. Consultado em: <http://bibliotecageneral.enriquebolanos.org/leyes_sandinistas/Programa%20de%20Gobierno.pdf>. Acessado
Nacional, além dos limitados recursos provenientes da ofensiva insurrecional. A mobilização massiva de jovens foi recorrente a partir de 1978, com a criação de inúmeras colunas e unidades de combate em todo o território nicaraguense. Para muitos destes jovens, a vida militar começava a se converter em profissão, ainda que o exército em si não fosse profissional. A ajuda econômica concedida pela Junta de Governo a partir de agosto de 1979 era considerada um “primeiro salário” para vários membros do EPS, e esse ponto pode ser indicado como um dos fatores de mobilização popular junto às novas Forças Armadas, frente a uma sociedade pobre e enfrentando enormes dificuldades econômicas.
A fundação do EPS respondia ao princípio de defesa integral do processo revolucionário, posteriormente organizado na Doutrina da Defesa da Revolução Popular Sandinista (1984-85); no qual se declarava a defesa total como única maneira de resistência à denominada “agressão armada imperialista”. Em torno dessa ideia, o EPS era o vetor principal da organização defensiva da Nicarágua, presumindo a participação conjunta do governo e das massas populares130.
Desse modo, nota-se que um dos objetivos de criação do EPS foi a organização e condução da defesa armada do projeto sandinista. Declarado por dirigentes da FSLN como “luta militar do povo nicaraguense”, e imbuído da imagem de agressão externa (canalizada pelo governo estadunidense), o EPS era a tentativa de institucionalização dos meios de defesa armada provenientes do movimento insurrecional, bem como da participação popular em tais meios.
Assim, parecia coerente que a Frente Sandinista fizesse não apenas uma preparação profissional das estruturas humanas do EPS (formação de oficiais, cursos e preparação de tropas, etc.), mas também, e principalmente, um trabalho ideológico, intimamente relacionado ao partidarismo sandinista. As diretrizes dessas atividades partidárias visavam colocar em coesão todo o pessoal ligado ao EPS em torno da linha traçada pela Direção Nacional da FSLN, além de consequentemente convencer grande parte da população de sua estratégia governamental. Como já indicado anteriormente, o afã popular após a vitória insurrecional era mais que suficiente para agregar a maioria da população a favor da Frente Sandinista, e o trabalho ideológico reforçou tal sentimento.
A militarização da sociedade era justificada pelo recorrente argumento da agressão externa estadunidense, de modo a converter todo o território militar em um cenário de
130 Ver: FRENTE SANDINISTA DE LIBERACIÓN NACIONAL. El EPS y la participación de las masas en
la defensa de la soberanía. Managua: Sección de Educación Política, Departamento de Propaganda y Educación Política del FSLN, 1983. p. 23.
combate (“todas as armas ao povo131”). O que a FSLN efetivou foi uma retomada de princípios pregados por Augusto C. Sandino: segundo famosas declarações deste último, a soberania de um povo não se discutia, se defendia com armas. Essa estratégia de “reviver” Sandino se inseria em um contexto de (re)construção de uma identidade nacional nicaraguense após o período autoritário que dominou o país por mais de quatro décadas. Evocar símbolos pátrios e representantes da luta anti-intervencionista de décadas e séculos passados ajudava a estabelecer uma coesão entre a FSLN (autodeclarada legítima representante e continuadora desse projeto nacional de Sandino) e a população. Com tal programa ideológico e partidário, a estrutura orgânica das Forças Armadas seria organizada e estabelecida com base no projeto revolucionário da FSLN, visando a consolidação e permanência política do mesmo.