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1. Introduction

1.2 Research Questions

As políticas de ação afirmativa no Brasil tomaram fôlego recentemente, em

1995, quando Benedita da Silva e Abdias do Nascimento apresentaram projetos decisivos

para o desenvolvimento do debate no Brasil

131

. Com isso, o tema ‘raça’ ganhou espaço na

mídia, em congressos e academias, tornando-se um assunto de debate amplo, carregando

sua carga de polêmica e controvérsias. Mas o mais importante aconteceu: o assunto

passou a ser pensado e refletido por diversos âmbitos da sociedade, deixando de ser

assunto exclusivo de grupos militantes.

As críticas dirigidas às ações afirmativas no Brasil questionam as políticas que

de fato reconhecem as identidades raciais, isto é, políticas públicas que demonstram

reconhecer a existência de práticas racistas e prevêem solucionar as desigualdades fruto

dessas práticas. As críticas, como vimos, são pautadas na ameaça à identidade racial, ou

seja, questionam se essas políticas, ao invés de diminuir a desigualdade, criariam uma

desintegração da identidade nacional, um conflito entre raças, coisa que não existe no

Brasil. Nesse mesmo sentido se posiciona o antropólogo Peter Fry, sobre as políticas de

ações afirmativas no Brasil. Para ele, as ações afirmativas vieram para romper com a

130 TELLES, EDWARD. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume

dumará, 2003, p. 183.

131 As ações afirmativas surgiram nos Estados Unidos na década de 1960, após a declaração dos direitos

civis em 1964. Ações afirmativas são entendidas como políticas públicas que pretendem corrigir desigualdades socioeconômicas que resultaram em tratamento discriminatório, atual ou histórico, sofrido por um grupo de pessoas. As ações afirmativas podem atuar como políticas de cotas, que reserva uma porcentagem de vagas para minorias políticas e culturais, e a descendência racial passa a ser o critério de classificação. A discussão de políticas de cotas no Brasil teve origem em 1995, em um projeto de leis apresentados pela Senadora Benedita da Silva. Na Lei nº 14, que propõe cotas mínimas de 10% para os setores etno-raciais, socialmente discriminados, em instituições de ensino superior.

mistura racial existente no país, que era positiva, criando duas raças distintas, agora de

forma negativa. “As políticas de ação afirmativa racial terão a conseqüência de estimular

os pertencimentos ‘raciais’, assim fortalecendo a crença em raças

132

.”

Para Kabengele Munanga, não há como políticas afirmativas segregarem a nação

brasileira. Primeiramente, porque, se nos Estados Unidos e na África do Sul, as barreiras

raciais contra relações sexuais inter-raciais não conseguiram desfazer a mistura racial que

existe nestes países, no Brasil não seria diferente. “Isso seria atribuir à ação afirmativa um

poder mágico que na realidade não possui

133

.” Em segundo lugar, já foi comprovado que

raças não existem, e que todo seu conteúdo é social e político, e, portanto, faz parte da

construção do nosso imaginário. Prova disso é a existência do racismo e da discriminação

racial, que ainda hoje persiste em nossas sociedades. Justifica-se, assim, a tentativa de

afirmação dos Movimentos Negros, em torno da conscientização dos pretos e pardos na

união por uma mesma identidade através do conceito de negro

134

. Trata-se de uma ação

eminentemente política.

Joaze Bernardino, quando discute as ações afirmativas no Brasil, nos lembra que

a aprovação da lei de políticas afirmativas nos Estados Unidos foi diferente, pois, lá a

definição de negro e branco é muito clara: uma gota de sangue negro é suficiente para se

dizer negro. No Brasil, a realidade é bem diferente. Com a difusão do mito da democracia

racial e conjuntamente com o ideal de branqueamento, criamos o que o autor chama de

saída de emergência: o mestiço. Com essa noção de um ser híbrido, a autoclassificação e

a alterclassificação ficou mais complexa: “em termos concretos, são encontradas duas

variáveis que interferem significativamente tanto na auto quanto na alterclassificação dos

indivíduos: a escolaridade e o rendimento familiar

135

.” Desse modo, o lugar do indivíduo

na hierarquia social pode determinar sua cor, o fazendo embranquecer ou escurecer.

132 FRY, Peter. A persistência da raça. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

133 MUNANGA , Kabengele. Algumas considerações sobre raça, ação afirmativa e identidade negra no

Brasil: fundamentos antropológicos. Revista USP. São Paulo V.68, n.1, dez, jan, fev. 2005-2006. p.46-57. INSS 0103-9989.

134 O termo negro que, de acordo com a significação dada pelos dicionários, significa da cor escura, muito

escura; que pertence à raça negra. De acordo com a realidade brasileira, o termo negro é um conceito político. Ser negro é identificar-se e reconhecer-se como tal.

135 BERNARDINO, Joaze. Ação afirmativa e a rediscussão do mito da democracia racial no Brasil.

Estudos afro-asiáticos. Rio de janeiro, v. 24, n. 2, 2002. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 12 agosto 2006. p.247-273.

Brandão fala sobre um racismo de assimilação, ou seja, o afro-descendente pode

se auto afirmar menos negro de acordo com seu capital econômico ou cultural. Trata-se

de um racismo representacional, pois, quando ele é assimilado na sociedade branca, pode

ser visto como quase branco, sendo ele mestiço, ou se auto representar menos negro pelos

símbolos econômicos e culturais que pode portar. Por exemplo, um mestiço que no

passado fora pobre, mas que hoje se tornou um médico por seu próprio mérito, pode se

autoclassificar menos negro e, portanto, se sentir mais branco, uma vez que sua condição

socioeconômica é superior àquela que viveu no passado. Por esse ângulo, na ideologia

racial brasileira, a noção de cor, que é afirmada como a negação da marca de raça, é na

verdade, uma transmutação desta, pois a cor da pele somente tem sentido como elemento

classificatório nos quadros de uma avaliação fenotípica e naturalizante anterior, o que

remete a uma dicotomia branco/ não-branco

136

.

Mesmo com a apresentação da problemática de auto e alterclassificação do ser

negro no Brasil, as políticas de ação afirmativa se tornam um instrumento eficaz na luta

pela amenização dos problemas criados historicamente, como a discriminação e racismo,

e na compensação às injustiças sociais sofridas por este grupo. Além disso, também

contribuiu para criação de uma justiça simbólica, como um meio de repensar o

preconceito e a força do simbolismo que estigmatizam um grupo de pessoas. Bernardino

ainda acrescenta que as ações afirmativas no Brasil atribuem um valor positivo à

classificação social do negro. Se, até então, ser negro brasileiro não era vantagem

nenhuma, ou seja, era sinônimo de tudo que não é bom (favelado, pobre, bandido,

safado...), agora, se autoclassificar negro se torna positivo. As políticas afirmativas são

capazes de converter a conotação negativa da cor preta e parda em algo positivo. Isso

porque elas podem associar vantagens claramente perceptíveis à identificação racial, e,

além disso, pelo fato de possibilitarem ganhos em termos de representatividade dos

negros em posições influentes e lucrativas. Foi exatamente o que apontou as pesquisas

realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE)

137

, referente ao ano

de 2006: mais de 1,34 milhão de pessoas se autodefiniram de cor preta no ano de 2006,

em relação ao ano anterior. Isto é, na prática, a população de cor preta passou de 11,5

milhões de pessoas para 12,9 milhões. O instituto afirma que uma das explicações

136 BRANDÃO, André Augusto. Miséria da periferia: desigualdades raciais e pobrezas na metrópole do

rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Pallas ed; Niterói: PENESB, 2004, p. 94.

137 Esses são alguns dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto

possíveis é que mais pessoas estejam assumindo a própria cor. Com isso, a participação

da população de cor preta no país aumentou de 6,3% em 2005, para 6,9% no ano de 2006.

A participação das pessoas de cor parda na população caiu de 43,2% para 42,6%, o que

confirma a tese de que houve uma migração de pessoas que se declaravam pardas para o

grupo dos que se declaram pretos. A população negra começa a ganhar mais visibilidade

nas estatísticas oficiais em um período em que se ampliaram as políticas públicas de ação

afirmativa, destinadas a promover maior eqüidade racial. A população de cor branca

perdeu participação e passou de 49,9% em 2005 para 49,7% em 2006. No Sul, a

população branca chega a 79,6%, e no Norte, a parcela é de 23,9%. Em termos

percentuais, a população de cor preta da região Norte foi a que mais cresceu em 2006:

passou de 3,8% para 6,2%, seguida pelo Nordeste, onde o percentual passou de 7,0% para

7,8%. No Sudeste, a participação passou de 7,2% para 7,7% da população. Veja essa

distribuição no mapa

138

a seguir:

138 Mapa referente ao percentual de pessoas pretas, pardas ou indígenas, na população residente, segundo as

Unidades da Federação em 2005. Extraído do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 2005.

Valorizar a identidade negra é criar condições para alguém se autoclassificar

negro e ser reconhecido de forma positiva por isso. Quando isso acontece, temos a

valorização da auto-estima da pessoa negra e uma modificação simbólica do ser negro.

Para Luiz Cardoso de Oliveira, a política de cotas em Universidades pode ser

mais do que uma política voltada para diminuir a desigualdade social. As ações

afirmativas podem provocar mudança de atitude dos brasileiros, tornando-os mais críticos

à discriminação, podendo refletir sobre suas ações enquanto sujeitos sociais. As cotas

podem ser um estímulo à preocupação com o respeito aos direitos de cidadania dos

negros, ampliando conseqüentemente as oportunidades de participação do negro na renda

e vida pública do país. Com isso, todos os anos, quando realizada a prova de vestibular, a

sociedade seria levada a refletir sobre a questão da negritude, visibilizando e

internalizando suas questões, contribuindo para mobilizações e rearticulação entre a

esfera do espaço público e privado brasileiro, criando políticas públicas e repensando as

práticas cotidianas.

Se as “cotas” assim concebidas vierem a ter o mesmo sucesso das faixas

de pedestre em Brasília, onde, ao produzir o gesto convencionado, os

transeuntes não apenas param o trânsito para atravessar as ruas com

segurança, mas tem a cidadania renovada neste “rito” de afirmação e

reconhecimento de direitos, a distribuição periódica das “cotas” poderá

vir a ser concebida, num futuro próximo, como um rito de celebração

da cidadania

139

. (destaque da autora)