4. Results
4.7 Changes in tree and fish species
Jean Michel Emmanuel de la Barge de Certeau, pensador francês, nascido em
Chanbéry, no ano de 1925, e vindo a falecer em nove de janeiro de 1986, em Paris, foi um
intelectual que pertenceu ao movimento reconhecido como Nova História, e um dos
componentes da chamada terceira geração dos Annales
177. Um pesquisador de destaque
175 HALBWACKS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Edições Vértice, 1990, p. 58. 176 LE GOFF, Jacques. História e memória. 3 ed. Campinas, Editora da UNICAMP, 1994.
177 A revista dos Annales fundada na década de 1929 pelos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre da
Universidade Estrasburgo. Pioneira por abordar a história de longa duração. A segunda geração formada por Fernand Braudel e a terceira geração, também conhecida de Nova Historia foi formada por Michel Foucaut e Jacques Lê Goff e Georges Duby. Uma das características iniciais dos Annales está na reflexão dos historiadores tanto em relação a sua área de estudos, como sobre suas formas de trabalho. Preocupa-se em tirar a história de seu isolamento disciplinar, e por isso pensar em História de forma abertas e suas problemáticas e a metodologias de forma interdisciplinar.
por possuir facilidade em transitar nas diversas áreas do saber, tendo uma sólida formação
em Filosofia, Letras Clássicas, História, Teologia e doutorando-se em Ciências da
Religião na Sorbone. Destacou-se como um questionador da historiografia, propondo uma
nova maneira de se perceber a história em sua construção
178.
Roger Chartier aclara que a questão essencial de Certeau foi a preocupação em
dar conta de uma religiosidade que ultrapassava a instituição, que conseguisse apreender a
experiência religiosa do vivido
179. Em sua obra A invenção do cotidiano, Certeau cria
uma teoria sobre práticas cotidianas, para delas extrair sua dinâmica e tornar visível
táticas e astúcias de consumidores, que normalmente são silenciadas pelo
desenvolvimento da produção sociocultural. Em seu desenvolvimento sobre a ‘arte do
fazer cotidiano’, mostra que, em uma análise minuciosa e detalhada do cotidiano, é
possível perceber táticas desenvolvidas por ‘consumidores’ que aparentemente se
mostram conformados com a estratégia da estrutura dominante, mas que, no seu fazer
cotidiano, usam processos mudos e se reapropriam do espaço organizado, de forma não
conformada, alterando a organização imposta.
O autor vem desenvolvendo sua teoria e mostrando que, embora as autoridades
institucionais criem e imponham suas leis e regras, constituindo um lugar próprio e
autorizado na sociedade, não se pode desconsiderar a produção, isto é, a arte de fazer, dos
consumidores. Estes, no ato de consumir, ocupam de maneira não autorizada o espaço do
outro, revelando uma infinidade de micro ações na forma de trampolinagem e
oportunismos, que evidenciam táticas através das quais sujeitos anônimos tornam a
produção de estratégias dominantes a seu favor. Para o teórico, é a partir da arte de fazer
(cozinhar, andar, falar, etc.) que se constituem as mil maneiras praticadas e manifestadas
no cotidiano, mesmo que de forma não autorizada. Há, portanto, uma reapropriação de
um espaço já organizado, do lugar dominante, normatizado, controlador pelo sujeito
ordinário. Dessa maneira, sujeitos anônimos, mesmo que de forma silenciosa, mostram
suas astúcias em criar táticas que se apresentam resistentes, modificando ou desviando a
verdade imposta. Certeau chama essas táticas de microbianas, posto que se manifestam e
proliferam em meios às estruturas tecnocráticas operando nas brechas do sistema e
178 BOGNER, Daniel. Presente rompido: mística e política em Michel de Certeau. Mainz: Matthias-
Grünewald-Verlag, 2002.
179 CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Ed.
alterando seu funcionamento. Isso de forma quase imperceptível. Operações entendidas
como “(...) quase microbianas que proliferam no seio das estruturas tecnocráticas e
alteram o seu funcionamento por uma multiplicidade de ‘táticas’ articuladas sobre os
‘detalhes’ do cotidiano (...)
180.”
O pensador francês diferencia a tática da estratégia. Enquanto a estratégia é
capaz de se produzir e se impor, “Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um
próprio e portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma
exterioridade distinta”
181. Foi esse modelo estratégico que serviu de base para construção
da nacionalidade política, econômica e científica. O sujeito de querer e poder – aquele
que exerce a estratégia – pode ser representado por uma empresa, um exército, uma
cidade, uma instituição científica, e, no nosso caso, uma igreja.
Por outro lado, a tática opera manipulando, fazendo uso e adulterando a
imposição do sistema. Utilizando o ‘não lugar’ que lhe confere mobilidade, atua vigilante
nas falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário.
Faz uso da produção de um modo que ninguém espera. Sua astúcia! “Em suma, a tática é
a arte do fraco”. Nas palavras do autor:
A tática só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua,
fragmentariamente, sem apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à
distancia. Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos,
preparar suas expansões e assegurar uma independência em face das
circunstancias
182.
Portanto, a dialética se dá pelo fato da tática ser determinada pela ausência do
poder, e a estratégia, ao contrário, se dá pelo postulado do poder.
Certeau trabalha um exemplo, que achamos positivo ressaltá-lo, por ser um
modelo que se encaixa perfeitamente na realidade da comunidade que pesquisamos.
Trata-se de suas considerações sobre a arte brasileira, precisamente sobre a língua falada
pelos lavradores de Pernambuco, quando se refere a sua situação em 1974, bem como
sobre as gestas de Frei Damião, herói carismático da região. O autor explica que o espaço
estava dividido entre dois blocos socioeconômicos. Por um lado, os ricos e a polícia, que
180 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 41. 181 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 46. 182 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 46.