Hoje em dia, a facilidade de acesso à informação tem conduzido a um aumento crescente da literacia da população mundial ao nível da ciência, investigação e inovação. Conhecer a perceção pública acerca de determinado assunto constitui um método de analisar o modo como a informação está a ser transmitida e compreendida, e permite identificar possíveis justificações para determinadas atitudes sociais face a esse assunto.
Através do programa europeu de Investigação e Inovação Horizonte 2020, a UE comprometeu- se a investir quase 80 biliões de euros em investigação e inovação durante o próximo período de 7 anos, um aumento de 30% em relação ao montante gasto em pesquisa científica no último período de 7 anos apesar da ligeira redução no orçamento geral da UE. Um dos objetivos chave deste programa passa por ajudar a identificar importantes desafios sociais (European Union, 2014). O inquérito realizado em 2014 pelo Setor de Análise da Opinião Pública da UE visou analisar a perceção pública e reportar ao programa Horizonte 2020 as áreas de investigação que os cidadãos acreditam serem prioritárias na investigação científica. Os
44 principais resultados indicam que uma grande parcela da população acredita que a ciência e a inovação tecnológica terão um impacto positivo no tratamento da maioria dos assuntos que a sociedade enfrentará nos próximos 15 anos.
Estudos revelam que, apesar de as expectativas direcionadas para os impactos negativos em conjunto com o descontentamento presente na fase de construção poderem levar ao aumento da oposição a projetos de energia eólica onshore, após o início da fase de operação, a aceitação pública aumenta (Devine-Wright, 2005a; Wüstenhagen et al., 2007). De facto, o comportamento do público pode ser dinâmico ao longo do desenvolvimento de um projeto de energia eólica. Patrick Devine-Wright (2005) e outros autores sugerem um desenvolvimento em forma de U (U shape) para o comportamento das atitudes em relação aos projetos (Figura 2.8): inicialmente a aceitação é elevada, diminui durante a fase de planeamento e construção, e regressa a um nível perto do inicial pouco tempo após o início da fase de operação (Wüstenhagen et al., 2007).
Figura 2.8 – Nível de aceitação da energia eólica ao nível local, antes, durante e após a construção de uma instalação de energia eólica (Devine-Wright, 2005a)
Contudo a curva é generalista, não representando as atitudes analisadas na totalidade dos estudos de perceção sobre energia eólica. Outros estudos afirmam que, quanto maior é a familiaridade com turbinas eólicas, maior é a aceitação de projetos neste setor. No seguimento desta ideia, outros estudos identificaram um apoio local crescente aos projetos de energia eólica aquando da sua construção e posterior operação (Krohn e Damborg, 1999; Walker, 1995), contrapondo a ideia anterior da forma em U do comportamento da aceitação pública.
Já Bailey et al. (2011) propõe uma linha de comportamento para a aceitação pública em relação à energia das ondas: num cenário em que a comunidade se encontra previamente menos informada acerca dos impactos das novas tecnologias, como pode ser o caso de projetos de energia das ondas, e a informação surge de forma fragmentada durante um período longo, podendo antecipar-se um padrão mais variado nas respetivas opiniões. Este pode ser representado na forma de curva em W (Figura 2.9). Aqui, o apoio inicial no tipo de energia é elevado por ser encarado como uma solução eficaz na geração de energia limpa, por estar mais longe da costa e por ser menos controverso que a energia eólica. Segue-se um declínio no apoio quando as propostas são apresentadas e são dados a conhecer os impactos nas indústrias locais e na qualidade da paisagem durante a fase de construção. A terceira fase
45 do comportamento pode envolver alguma recuperação do apoio do público se a investigação realizada pela entidade promotora previr que os impactos negativos são reduzidos quando comparados aos benefícios económicos que começam a ser sentidos. Posteriormente, o aumento ou declínio do apoio dependerá, por exemplo, se as previsões acerca dos benefícios económicos estiverem corretas ou se os efeitos prejudiciais na vida marinha, turismo ou qualidade da água persistirem. As últimas fases dependem também da forma como a comunidade encara e avalia o nível de gravidade dos efeitos e qual a sua capacidade de adaptação aos mesmos (Bailey et al., 2011).
Figura 2.9 - Comportamento potencial da aceitação pública para a energia das ondas (Bailey et al., 2011)
Como se pode verificar, é improvável que exista uma relação tão simples e linear entre experiência e perceção devido ao elevado número influências que moldam as opiniões das pessoas (Devine-Wright, 2005a). Segundo Devine-Wright (2007), uma grande variedade de potenciais explicações pode ser identificada na literatura acerca da variação de níveis de aceitação pública de diferentes tecnologias de energias renováveis; no entanto, nenhuma terá feito uma análise detalhada e completa. Assim, o investigador propõe uma classificação mais abrangente constituída por três níveis de análise (Devine-Wright, 2007; Devine-Wright, 2007;Devine-Wright, 2007): i) pessoal (idade, género, educação e rendimento); ii) sociopsicológico (conhecimento e experiência direta, opiniões no contexto ambiental e político e ligação ao local); iii) contextual (escala e tipo de tecnologia, estrutura constitucional e contexto espacial).
O indicador de apego ao local patente em diversos estudos de atitude e aceitação públicas enfatiza duas importantes distinções que merecem destaque: a diferença entre aceitação pública e aceitação social e a diferença entre opiniões acerca da energia renovável em geral e um projeto específico de energia renovável (p.e. energia eólica). A aceitação social é um termo amplo que abrange a aceitação do mercado, a aceitação da comunidade local e a aceitação
46 sociopolítica; a última inclui a aceitação do público, dos stakeholders chave e dos decisores políticos (Firestone et al., 2009). Em segundo lugar, deveria já ser largamente conhecida a existência de um ‘fosso’ bem pronunciado entre a aceitação geral da energia eólica, que tende a ser elevada, e a aceitação de um projeto particular. Devine-Wright (2007)salienta que existe uma lacuna entre o elevado apoio em relação à energia eólica em geral e o apoio em relação a um projeto em particular e esta lacuna surge porque as atitudes em relação a um determinado projeto de energia eólica diferem fundamentalmente daquelas em relação à energia eólica em geral. Esta lacuna é ignorada por muitos promotores de projetos de energia eólica, que se baseiam em estudos de opinião acerca de energia eólica para justificar o apoio em relação a um projeto em específico.