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Considerando que o contato de línguas se dá no seio de uma comunidade de fala, há que se definir tal conceito, mais complexo do que o mero “grupo social que compartilha uma língua”, dadas as variações internas naturais a qualquer sistema lingüístico e a existência de comunidades bi- ou multilingüísticas, como aquelas em que usualmente se verificam os fenômenos de bilingüismo, diglossia e interferência lingüística (WARDHAUGH, 1992, p. 117-123).

Segundo Wardhaugh (1992, p. 118, tradução nossa), “É fácil demonstrar que uma comunidade de fala não equivale à de língua [...]”17 e, ainda, “Além disso, se comunidades de fala são definidas apenas pelas suas características lingüísticas, devemos reconhecer a inerente circularidade de uma tal definição, dado que a própria língua é compartilhada.”18 (WARDHAUGH, 1992, p. 118, tradução nossa).

A par de características propriamente lingüísticas, os falantes se valem de outras – sociais, culturais, políticas e étnicas, por exemplo – para garantir a identidade do grupo e diferenciá-lo de outros, características estas que constituem os marcadores de fala (WARDHAUGH, 1992, p. 118).

[...] através de marcadores de fala, categorizações sociais funcionalmente importantes são discriminadas e estas têm implicações importantes para a organização social. Marcadores de fala têm paralelos claros [...] é evidente que categorias sociais de idade, sexo, etnia, classe social e situação podem ser claramente marcadas com base na fala, e que tal categorização é fundamental para a organização social, apesar de muitas destas categorias também serem facilmente discriminadas de outras maneiras.19 (GILES, SCHERER, TAYLOR apud

WARDHAUGH, 1992, p. 118, tradução nossa).

Com efeito, Weinreich (1967, p. 90-97) faz corresponder às divisões grupais por língua materna uma ou mais divisões de natureza não-lingüística, no que ele denomina “congruências lingüísticas e sócio-culturais” e para as quais apresenta a seguinte tipologia:

17 It’s quite easy to demonstrate that a speech community is not co-terminous with a language [...].

18 Furthermore, if speech communities are defined solely by their linguistic characteristics, we must

acknowledge the inherent circularity of any such definition in that language itself is a communal possession.

19 [...] through speech markers functionally important social categorizations are discriminated, and […] these

have important implications for social organization. For humans, speech markers have clear parallels […] it is evident that social categories of age, sex, ethinicity, social class, and situation can be clearly marked on the basis of speech, and that such categorization is fundamental to social organization even though many of the categories are also easily discriminated on other bases.

1. áreas geográficas – com divisão geográfica clara em zonas rurais e em enclaves lingüísticos (a exemplo das zonas de imigração no novo mundo), em oposição às comunidades urbanas bilíngües, núcleos de contatos mais duradouros e íntimos (WEINREICH, 1967, p. 89-90).

2. indigenidade – cancelamento das fronteiras intergrupais em decorrência da migração, com maior exposição da língua transplantada à interferência, pela necessidade de adequação vocabular ao novo habitat, pela “desorientação sócio-cultural” do imigrante, que mina a resistência aos empréstimos excessivos na sua língua materna, e pelo rompimento da tradição lingüística mediante casamento entre imigrantes e nativos (WEINREICH, 1967, p. 90-91).

3. grupos culturais ou étnicos – constituição de grupos étnico-culturais distintos nas situações de contato de línguas, levando ao biculturalismo, ou participação em duas culturas, e ao bilingüismo, isto é, à difusão de traços culturais e de elementos lingüísticos, de que resultam interferências léxico-culturais (WEINREICH, 1967, p. 91-92).

4. religião – fronteiras religiosas constituem importante barreira à integração das comunidades, mais até do que o uso de línguas distintas, de modo que nas comunidades bilíngües não-religiosas o contato entre os dois grupos é mais íntimo. No Brasil, por exemplo, famílias de imigrantes alemães protestantes são emocionalmente mais ligadas à língua alemã do que aquelas que professam a fé católica (WEINREICH, 1967, p. 92-93).

5. raça – a correlação entre fronteira lingüística e racial se verifica quando uma das comunidades rechaça casamentos intergrupais, dificultando o bilingüismo doméstico precoce. No Brasil, ocorreu mais claramente entre imigrantes japoneses e nativos do que entre estes e os imigrantes alemães (WEINREICH, 1967, p. 93).

6. sexo – a congruência de fronteiras lingüísticas e de sexo é mais rara, devido a extensivo contato entre ambos os grupos de gênero, mas se expressa em diferenças de estilos lingüísticos ou na caracterização de traços de fala como masculinos ou femininos, dificultando-lhes a transferência da fala de um grupo para a do outro. Pode ocorrer, ainda, de um dos sexos ser mais exposto ao contato com uma língua estrangeira (WEINREICH, 1967, p. 93-94).

7. idade – a correlação entre grupos de língua materna e grupos de idade constitui a manifestação sincrônica do que, diacronicamente, corresponde a uma mudança de língua. Nos EUA, crianças de famílias imigrantes aprendem rapidamente o inglês e elas mesmas empregam a língua do país de origem na comunicação com os mais velhos. A geração seguinte, dos netos dos imigrantes, tende a ser monolíngüe (inglês) e são seus pais e avós que

têm de mudar de língua para se fazerem entender. A língua do imigrante tende a se tornar, portanto, obsoleta, sendo expressões idiomáticas de difícil tradução particularmente aptas à transferência. Pode, ainda, adquirir especialização estilística, cômica, por exemplo. Entre os mais velhos, pode se dar a aquisição de empréstimos da “nova língua” para “atualizar” a sua própria língua, tornando-a mais moderna ou elegante (WEINREICH, 1967, p. 94-95).

8. status social – em geral, a diferença no status social se correlaciona a outras divisões de grupo, como a cultural, religiosa ou indígena/imigrante, mas pode haver diferença de língua coocorrendo com diferença de status social de dois grupos autóctones. No Brasil, imigrantes alemães das classes média e alta adotaram a língua portuguesa mais rapidamente do que imigrantes das classes sócio-econômicas menos favorecidas, seja por conservadorismo cultural ou por objetivos sociais mais limitados (WEINREICH, 1967, p. 95-96).

9. ocupação – falantes de línguas de especialidade tendem a resistir a emprestar termos à língua comum, aceitando, entretanto, tomar vocábulos emprestados (WEINREICH, 1967, p. 96).

10. natureza urbana ou rural da população – a distinção urbana-rural é uma combinação única de diferenças sociais, ocupacionais e topográficas. Da difusão lingüística a partir de centros urbanos resultam atitudes ambivalentes, com conseqüências antagônicas na aquisição de empréstimos: atitude hostil, com resistência às inovações, ou receptiva, com aceitação destas. Esta direção da difusão de “novidades lingüísticas” de centros urbanos para o interior é válida seja nos casos de inovações esporádicas, que se espalham por dialetos similares, seja nos de mudança para uma nova língua (WEINREICH, 1967, p. 96-97).

De acordo com Weinreich (1967, p. 05, tradução nossa):

Estudos puramente lingüísticos do contato de línguas devem ser coordenados com estudos extralingüísticos do bilingüismo e de fenômenos a este relacionados. (...) o lingüista que teoriza sobre a influência de língua mas negligencia o contexto sócio- cultural do contato de línguas deixa o seu estudo suspenso, com se estivesse no ar.20

Weinreich condena, portanto, estudos puramente lingüísticos sobre contato de línguas, afirmando ser necessário enveredar pelo bilingüismo e por outros fenômenos a este relacionados, além de enfatizar a importância da investigação prática pautada no falante e em usos concretos de língua, em detrimento de meras teorizações.

20 Purely linguistic studies of language in contact must be coordinated with extra-linguistic studies on

bilingualism and related phenomena. […] the linguist who makes theories about language influence but neglects to account for the socio-cultural seeting of the language contact leaves his study suspended, as if it were, in mid- air […].