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Segundo Weinreich, a interferência se caracteriza pela reorganização de padrões de um sistema lingüístico em decorrência da introdução, neste, de elementos de outro sistema, quando do uso alternado de ambos por um mesmo indivíduo, locus do contato. Assim:

Estes exemplos de desvios da norma de qualquer uma das línguas que ocorrem na fala de bilíngües como resultado da sua familiaridade com mais de uma língua, isto é, como resultado do contato de línguas, serão chamados fenômenos de

interferência.23 (WEINREICH, 1967, p. 01, tradução nossa, grifo do

autor).

Os fenômenos de interferência se verificam nos domínios lingüísticos mais estruturados, como o fonológico, grande parte dos sistemas morfológico e sintático e algumas áreas do vocabulário (designação de parentesco, das cores, do tempo, etc.), embora Weinreich (1967, p. 01) não descarte a possibilidade de reorganização do sistema nos domínios cujo padrão seja mais “frouxo”, a exemplo do vocabulário de natureza incidental, em que a adoção de empréstimo também pode acarretar interferência. Do contrário, o próprio conceito de sistema ficaria comprometido. Fala-se de empréstimo quando se quer enfatizar o caráter de transferido de um elemento.

O termo interferência implica na reorganização dos padrões que resulta da introdução de elementos estrangeiros nos domínios mais estruturados da língua. […] Seria simplificar demasiadamente falar aqui de empréstimo ou de meras adições ao inventário [...].24 (WEINREICH, 1967, p. 01, tradução nossa).

E, citando Vogt:

Todo enriquecimento ou empobrecimento de um sistema envolve necessariamente a reorganização das suas antigas oposições distintivas. Admitir que um dado elemento é simplesmente adicionado ao sistema que o recebe sem conseqüências para este seria arruinar o próprio conceito de sistema.25 (VOGT apud WEINREICH, 1967,

p. 01, tradução nossa).

O contato de línguas é visto, por alguns antropólogos, como um aspecto do contato de culturas e a interferência lingüística, como uma faceta da difusão cultural e da aculturação (WEINREICH, 1967, p. 05). Já se mencionou, aqui, com efeito, a importância de se contextualizar, com base em critérios extralingüísticos (sócio-históricos, políticos, econômicos, educacionais), a constituição de uma comunidade lingüística e a ocorrência do contato de línguas e do bilingüismo. Entretanto, as formas da interferência entre línguas são colocadas em termos da Lingüística Descritiva. O empréstimo lexical, por exemplo, pode ser explicado a partir da investigação dos pontos em que determinado vocabulário é inadequado no ambiente cultural em que o contato ocorre (WEINREICH, 1967, p. 03).

23 Those instances of deviation from the norm of either language which occur in the speech of bilinguals as a

result of their familiarity with more than one language, i.e., as a result of language contact, will be refreed to as interference phenomena.

24 The term interference implies the rearrangement of patterns that results from the introduction of foreign

elements into the more highly structured domains of language. […] It would be an oversimplification to speak here of borrowing, or mere additions to an inventory […].

25 […] every enrichment or impoverishment of a system involves necessarily the reorganization of the old

distinctive oppositions of the system. To admit that a given element is simply added to the system which receives it without consequences for this system would ruin the very concept of system.

Ainda segundo Weinreich, quanto maior for a diferença entre os sistemas, isto é, quanto mais numerosos as formas e padrões mutuamente exclusivos em cada um deles, maior é a dificuldade de sua aprendizagem e a área potencial de interferência, de modo que as diferenças e similaridades entre línguas em contato devem ser exaustivamente descritas para cada domínio como pré-requisito para a análise da interferência (WEINREICH, 1967, p. 01, 02).

Podem-se distinguir diferentes processos de interferência comuns em situações de contato, como 1. a transferência de elementos, que passam de um sistema lingüístico para outro, em que são identificados como emprestados ou transferidos, e 2. identificações interlinguais, e que não há transferência de elementos, mas a extensão de oposições de uma língua à outra (WEINREICH, 1967, p. 07-08).

Exemplifica este segundo tipo de interferência o ocasional equacionamento de formas fonológicas, idênticas ou similares nas duas línguas envolvidas; pode se verificar também na sintaxe, com a identificação entre relações gramaticais e ordenação sintática, e na semântica, com a similaridade material propiciando a identificação de vocábulos de línguas distintas.

Em inglês opõem-se foot (‘pé’) e leg (‘perna’). Em russo, há nóžka (‘perna de móvel’), nogá (‘perna animal inteira’) e fut (‘medida de comprimento’). A similaridade material entre foot e nogá pode levar o bilíngüe à identificação de ambos, afirmando, por exemplo ter “long feet” quando quer dizer ter “long legs”. Ou, ainda, dizer “I him see”, em lugar de “I see him”, caso em que se verifica a identificação de padrões sintáticos (WEINREICH, 1967, p. 08).

Distinguem-se interferências na fala e na linguagem, cuja investigação tem seus próprios métodos (WEINREICH, 1967, p. 11-12).

Na fala, a interferência ocorre como novidade em enunciados de falantes bilíngües, em conseqüência de seus conhecimentos pessoais sobre a língua estrangeira. Interessam, neste caso, particularmente fatores de percepção desta e da motivação do empréstimo. O seu estudo se pauta na observação da conversação entre dois informantes, residindo a sua dificuldade nas necessárias interrupções do pesquisador para obter informações sobre o uso da língua e a sua motivação, ao mesmo tempo em que é preciso deixar os informantes falarem o mais à vontade possível.

Na língua, ocorrem fenômenos de interferência que, depois de repetidamente se verificarem na fala de bilíngües, tornam-se hábito e se estabelecem na língua. O seu uso deixa de ser restrito aos bilíngües e as inovações já não se consideram empréstimos, constituindo

antes parte da língua. Interessa à pesquisa lingüística, portanto, a integração dos elementos estrangeiros. O seu estudo é mais simples, dado que o pesquisador de campo pode obter os empréstimos por questionamento repetido do informante, além de poder buscá-los em textos escritos.