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CHAPTER 5 RESEARCH FINDINGS

5.4 P APER IV

B

RUNELLI

(1722-1804)

Quem era Giovanni Brunelli, personalidade ilustrada que tanta influência vem a ter na carreira de José da Costa e Silva?

Este italiano originário de Bolonha, veio contratado por D. João V no propósito de integrar a equipa de astrónomos e cartógrafos, com destino ao Brasil, para realizarem trabalhos de levantamentos fronteiriços, que as complexas negociações entre Espanha e Portugal, haviam de conduzir ao Tratado de Madrid. “Este foi o lucidíssimo golpe de vista de D. João V, preparando desde 1722 a missão dos Padres matemáticos ao Brasil para estabelecer com a intervenção de Alexandre de Gusmão, que era indispensável fazer tábua rasa do Tratado de Tordesilhas, concebesse a nova estratégia do uti possidetis e dos limites naturais”1. Por outro lado temos os comentários atentos de Cyrillo, sobre tal figura começando por referir a contratação dos matemáticos em Itália, por iniciativa do rei, datável de 1750, pelo que foram chamados “a esta Côrte os Doutores Angelo Brunelli, e Miguel Ciera (veio a ser Prefeito do Real Colégio dos Nobres, em 1766), e outros Astronomos, Engenheiros, Lani [sic] Architecto Bolonhez [António José Landi] para irem todos fazer as demarcações na Colonia do Sacramento”2.

Vieram a partir para a América apenas no ano de 1753: “Alguns foram para o Pará (caso do arquiteto António José Landi), Ponzoni ficou na Bahia, Brunelli navegou 600 léguas pelo rio Amazonas quasi até ao Peru”3.

Mas a missão cartográfica estivera retida em Lisboa devido a preparativos inerentes à complexa e ambiciosa operação de reconhecimento que obrigava a um entendimento de operacionalização com a vizinha Espanha. Conhecem-se dois episódios conflituantes, ocorridos na altura, induzidos por Brunelli, o primeiro derivou da contestação que levantou sobre a direção da expedição que recaiu em Miguel Angelo Blasco (1710-1772) engenheiro militar, mais tarde enquadrado nas equipas da reconstrução de Lisboa, onde servia junto de Manuel da Maia e Eugénio dos Santos.

A denúncia de Brunelli foi muito violenta não reconhecendo capacidade de direção a Blasco da “Carta de Demarcação do Brasil”, pondo em relevo, uma vez mais o demérito dos

engenheiros militares, para além de se insurgir com o incumprimento de acordos estabelecidos no recrutamento, onde a capacidade científica dos astrónomos fora considerado fator determinante.

O protesto enumera, frontalmente, as seguintes questões: “Em primeiro lugar, não pretendo de maneira alguma ser anexado a uma expedição, quando, posto que deva haver um director-geral, não seja ele um dos matemáticos, que por acertos, e não um simples engenheiro, tal como o senhor coronel Miguel de Blasco, o qual de sua própria boca, fez-me saber que seria ele o director-geral da Carta, que se deve fazer do Brasil. Porque, em tal caso, cada um dos matemáticos, fica grandemente prejudicado e perde a sua honra, sendo coisa

totalmente vergonhosa que um simples engenheiro, vale dizer no nosso caso, um simples medidor prático ou agrimensor, dirija os matemáticos, pelos quais tem extrema necessidade

de ser dirigido e apoiado, junto com todos que a ele estão subordinados actualmente, assim como seria coisa vergonhosa, que um simples cirurgião-barbeiro superintendesse um grupo de medicos e dirigisse as suas operações”4.

Um outro ponto de discórdia, relacionado com o anterior, decorria da necessidade de serem adquiridos os instrumentos científicos, já descriminados, sem os quais os objetivos impostos pelo rei, não poderiam ser alcançados. A missão precisaria desse equipamento, que era um dos requisitos para o seu desempenho credível, numa perspetiva de atualização dos conhecimentos astronómicos e de superação do empirismo, no levantamento arcaico da cartografia da zona.

O contingente haveria de partir então, em 1753, sob a direção conjunta de Miguel Angelo Blasco e de D. Juan Echevarria, ao serviço de Espanha.

Nas publicações científicas, de Brunelli, sobre a Amazónia encontram-se as seguintes:

De Pororoca, 1767, sobre a Mandioca datado do mesmo ano, e uma descrição sobre as

violentas correntes das águas do rio Amazonas (1791), em forma de epístola em latim, saídas na Revista da Academia das Ciências do Instituto de Bolonha5.

Brunelli terá passado então cerca de oito anos no Brasil, e quando regressou “quiz tomar à sua conta a educação de José da Costa, pelo que o fez começar os estudos que dissemos, de engenharia e desenho”6.

No ano de 1765 está registado entre os professores do Colégio dos Nobres e vemo-lo integrado, no ano da inauguração, no corpo docente, (juntamente com Miguel Franzini) com o vencimento assinalável de 2000 cruzados (enquanto no mesmo ano o professor de Desenho, também italiano, Carlos Francisco Ponzoni recebia apenas 700$000 réis e Joaquim Carneiro da Silva, auferia, enquanto professor de Desenho, uns escassos 579$000 réis, referidos ao ano de 1772). De assinalar que enquanto esteve em financiamento nunca terá havido professor de Arquitetura Civil e Militar, assim como de Física Experimental.

Já em Lisboa, que razões terão levado Brunelli a patrocinar José da Costa e Silva e a conseguir que “frequentasse” o Colégio dos Nobres – não existe explicação plausível para que tal acontecesse. Por outro lado, não detetámos, também, qualquer circunstância que promovesse o conhecimento de ambos.

Na verdade o seu nome não se encontra entre o Registo, bem escrutinado, dos alunos, que no estabelecimento passaram7. Estatutariamente não lhe assistia legitimidade, posto que não se lhe conhece qualquer linhagem, e o Colégio, pelo título VI dos Estatutos, destinava-se

rapazes, que “se devem qualificar como o Foro de Moço Fidalgo”. A idade constituiria outro óbice, porque era normativo, que os colegiais tivessem, nem menos de sete anos, nem mais de treze.

Nesta altura, em 1766, ano do começo das aulas, embora os estatutos tivessem sido publicados, em 1760, Costa e Silva, tinha já 19 anos. Portanto devemos concluir por uma hipotética assistência informal às suas aulas, que, aliás, de grande proveito lhe foram, quando ingressa na Academia de Bolonha. Se é que podemos conjeturar que já nesta altura mantinham algum relacionamento, posto que, nos princípios de março de 1769, partirá para Itália, na companhia do seu protetor.

Pela sua pena declara numa Pro-memoria que este tinha sido seu professor no Colégio dos Nobres, nas disciplinas de Aritmética e nos “elementos de Euclides”8. Será ainda de conjeturar que a sua aproximação a Brunelli, pudesse ser mais longínqua, e que no contacto com este, com acesso a bibliografia escolar e orientação pedagógica, pudesse ter alicerçado, uma formação com considerável consistência científica.

Acresce que, além deste plano de estudos, terá estudado engenharia com Filipe Rodrigues, de quem não encontrámos referências, e o desenho com Carlos Maria Ponzoni, que se identifica como “mestre de debuxo” no Colégio dos Nobres, como vimos.

NOTAS:

1

CORTESÃO, Jaime (1984), Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, vol. II. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, p. 371.

2

MACHADO, Cyrillo Volkmar (1922), Collecção de Memorias relativas aos Pintores,

Esculptores, Architetos, Gravadores Portuguezes e dos Estrangeiros, que estiverão em Portugal, (1.ª edição 1823). Coimbra: Imprensa da Universidade, 1922, p. 187.

3

MACHADO, Cyrillo Volkmar (1922), ibidem.

4

AHU, Brasil, Pará, Caixa 14.

5

AA.VV., (2010), “Os escritos de Giovanni Angelo Brunelli, astrónomo da Comissão Demarcadora de limites portuguesa (1753-1761)”, in Revista do Museu do Pará Emílio

Goeldi, Belém, v. 5, n.º 2, maio-agosto, 2010, pp. 493-533

6

MACHADO, Cyrillo Volkmar (1922), ibidem.

7

AGUILAR, M. Busquets (1935), op. cit., e GALVÃO-TELLES, João B. (2006),

Relação dos alunos do Colégio dos Nobres de Lisboa (1766-1837), separata da Revista Lusófona de Genealogia e Heráldica, n.º 1, Ano 1, novembro, Porto: 2006, com os

documentos remetidos do Ministério do Reino para a Torre do Tombo, o levantamento dos matriculados é consideravelmente fiável.

8

ANRJ, Negócios de Portugal, antiga Caixa 694; MACHADO, Cyrillo Volkmar, (1922), id. ibidem; ALVES, Artur Motta (1936), “José da Costa e Silva, Engenheiro-Arquitecto – Subsídios para a sua biografia” in Anais das Bibliotecas, Museus e