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Imediatamente após comunicar que não jogaria mais pelo time profissional, Celso é convidado para ser treinador do time juvenil do mesmo Ferroviário e, assim, ele inicia uma curta carreira de treinador. Ao mesmo tempo, a padaria CG já existia e o investimento para fazê-la dar certo é tomado por ele como uma válvula de escape para ―não sentir saudades do futebol‖. Destaque-se que o investimento aqui não é só de ordem financeira, mas também um ―investimento de sentido‖, de tempo, de forma que aquele empreendimento passa a tomar-lhe a atenção e as suas demandas inerentes preenchem o seu cotidiano.

Quando lhe perguntei sobre como foi para ele o encerramento da carreira num contexto em que conversávamos sobre o fato de que se trata de um momento muito difícil para a maioria e muito por conta da falta de preparação, ele respondeu-me que para ele não havia sido difícil porque, contrariamente a esta maioria, se preparou e esta preparação passa pela padaria:

surgiu uma oportunidade de eu fazer meu negocio orientado pela minha esposa, eu tinha uma coisa mais segura, porque treinador também não é uma profissão segura, então eu precisava dar criação pro meu filho, tava com dinheiro pra investir e tal, e fiz um investimento, então acabei montando uma panificadora (sic).

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Ele procurava algo mais ―seguro‖, tinha a noção de que, não tendo mais os rendimentos de jogador, precisava continuar a prover sua casa, cuidar do filho, e a panificadora foi a solução encontrada para os ―investimentos‖, mas o futebol continuava a ser, mais do que uma presença, um desejo, uma ―saudade‖:

Eu terminei a carreira no Ferroviário, aí passei e fiquei na panificadora, eu achava que não era aquilo que eu queria, saudade do futebol e aquela coisa, aí fui convidado pro Ferroviário pra treinar a equipe de base (sic).

A ambiguidade está na relação de Celso com o futebol em sua pós- carreira. Ele planeja deixar o futebol devido às inseguranças que uma carreira de treinador oferecia, mas, ao mesmo tempo, desejava continuar dentro do futebol, convivendo com jogadores, torcedores, vivendo novos jogos, novas emoções, daí ter aceito o cargo de professor das categorias de base do Ferroviário e ter continuado a carreira treinando outros times do interior do Estado do Ceará na primeira e segunda divisões do campeonato cearense.

Numa reportagem do jornal Diário do Nordeste do ano de sua aposentadoria, 1992, sobre o fim da carreira de diversos jogadores em que se destacavam as dificuldades daqueles que não conseguiram construir um patrimônio a partir dos ganhos da carreira, Celso aparece sublinhado

exatamente pela condição contrária, de ter garantido um ―futuro tranquilo‖ a

partir de uma carreira recheada de ―bons contratos e investimentos seguros‖: ―‗Pensei no futuro‘, diz ele que hoje é empresário, com bom patrimônio e investimento em imóveis, carro, telefone, panificadora e no mercado

financeiro‖. A partir daí surge o sentido de seu investimento na carreira de

treinador: ―Quero ser treinador. A minha situação equilibrada no momento me permite isso. O técnico brasileiro se preocupa muito em manter o emprego e

trabalha pressionado. No meu caso, não tenho esse problema162‖.

O Celso Gavião de hoje, no exame de suas memórias, na análise de sua trajetória, vê que a carreira de treinador de futebol foi uma tentativa frustrada e por isso a descarta com uma convicção que o Celso da época não

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Reportagem ―A outra face do jogador – final‖. Jornal Diário do Nordeste, 28 novembro de 1992, caderno de Esporte.

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comungava, pois não queria se desprender do futebol, desejava continuar participando dele e apostava que poderia dar certo, até porque, conforme indica a citação acima, ele possuía um diferencial para fazer a carreira dar certo: a tranquilidade de sua condição financeira. O Celso Gavião que entrevistei tem convicção que a carreira de futebol é muito insegura e não oferece condições de sustentar uma família, daí que era racional ter buscado uma alternativa a ela, para não ser tragado pelo futebol e depender dele como outrora, mas ainda sim se contradiz quando afirma que se existe alguma coisa do qual ele se arrependeu foi de não ter ―terminado os estudos‖, pois considera ter sido esse o fator decisivo para não ter dado certo a carreira de treinador.

Embora Celso tivesse acumulado um grande capital simbólico em sua carreira de jogador, não houve conversão eficiente para a carreira de treinador, não pelo menos que fizesse com que a carreira se efetivasse de forma que ele circulou por pequenos times em condições financeiras bem precárias. A conversão de capital ainda ocorre de maneira mais direta nas duas primeiras experiências como treinador, já que vinculou-se a clubes pelos quais se vinculou. Iniciando na base do Ferroviário, ele chegou a treinar o time principal,

mas foi dispensado devido a ―divergências com a diretoria‖ do clube. Depois foi

convidado para treinar a base do Fortaleza, chegando a ser auxiliar técnico do treinador do time principal, mas não passou disso neste grande da capital cearense. A partir dessas experiências, recebeu o convite para treinar um dos times do interior debutante da primeira divisão à época, o Uruburetama, time de uma pequena cidade de mesmo nome distante cento e vinte quilômetros de Fortaleza. Tendo feito uma boa campanha no campeonato cearense neste pequeno clube do interior, recebeu o convite para treinar outra equipe do interior, agora uma mais tradicional, o Guarany da cidade de Sobral. Em ambas as experiências com equipes do interior do Estado, se depara com uma realidade financeira nada atrativa, pois, conforme relata, o seu ganho financeiro era ―pouquíssimo‖, pois ―como treinador do interior é difícil, porque você passa a ser da prefeitura e a prefeitura é problema, e atrasa, não pode ser muito, aquelas coisas...‖. As distâncias também atrapalhavam, pois tinha que ir e voltar para estar com a sua família. No caso de Uruburetama, a distância não era tão grande e a conciliação era possível, mas quando passou a treinar o time sobralense as coisas ficaram mais difíceis, pois esta cidade dista mais do

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que o dobro daquela, no caso duzentos e trinta e três quilômetros. O desejo de estar no meio do futebol era muito grande, ―mas eu queria estar no meio do futebol, gosto, até hoje gosto‖, mas a insegurança do cargo aliado ao pouco ganho financeiro, não lhe permitia uma condição em que pudesse, por exemplo, levar a família para a cidade do interior e resolver o problema da distância em relação aos seus filhos e esposa, embora não se resolvesse ainda a necessidade de cuidar do seu empreendimento comercial, o que também lhe

causava mal-estar: ―às vezes eu me chateava por tá no meio do futebol e não

tá na panificadora, que é uma coisa mais segura, que é uma coisa mais completa‖.

Celso era um homem a procura de ―completude‖ que ora estava no futebol e ora estava na padaria, ora estava na satisfação do desejo, da paixão pelo futebol, ora era propiciada pela segurança do bom negócio que encontrara e montara graças a indicação do amigo e a consultoria de sua esposa, Celso viveu esses momentos de sua vida, esse momento inicial da pós-carreira entre a paixão e a segurança, entre o futebol e a panificadora.

―No fim‖, pelo menos desse momento inicial, a realidade precária do futebol local e a dificuldade em converter tanto o capital simbólico acumulado ao longo da carreira de jogador, quanto o capital cultural, especificamente de origem escolar, inexistente, segundo sua própria avaliação, em sua trajetória pessoal foram mais fortes do que a grande paixão:

Eu queria desistir, porque é difícil receber, é difícil, é duro. Às vezes paga o jogador, não te paga, aí tu vai e recebe metade, só dá o vale, é complicado. Na realidade, não compensa. (...) O problema do Guarany também foi isso, aí tu começa a ver, poxa, todo clube é assim? (sic)

Sem oportunidade nos grandes clubes do Ceará ou de outros Estados, a exceção das categorias de base de Ferroviário e Fortaleza ou o trabalho de auxiliar técnico, Celso circulou dentre os pequenos clubes do interior do estado ou da região metropolitana de Fortaleza vivenciando esta realidade que, ao final de alguns anos de experiências malfadadas lhe fizeram desistir do futebol, pelo menos como treinador.

Isso não impediu ou impedi, entretanto, que Celso Gavião ainda hoje seja um homem do futebol, pois além de ser lembrado como opção para

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auxiliar técnico ou até como treinador do Fortaleza em algumas ocasiões em que o time demita o seu treinador, como ocorreu em 2013 quando treinou o time alguns jogos entre a saída de um treinador e chegada de outro, ele ―deu um jeito‖ de continuar atrelado diretamente à sua grande paixão ao assumir a liderança da chapa que concorreria à direção da Associação Garantia do Atleta

Profissional – AGAP do Ceará. Sendo eleito, a AGAP tornou-se uma forma de

continuar participando do dia a dia do futebol, num contato direto com jogadores e ex-jogadores, uma possível conciliação entre a paixão pelo futebol e a razão do mundo dos negócios, de forma que em praticamente todas as tardes podemos encontrar Celso Gavião dando seu expediente de presidente desta instituição ou cumprindo os compromissos que tal cargo exige, cotidianamente pronto para, generosamente, abrir o baú de suas memórias e compartilhar curiosas, engraçadas, dramáticas e interessantes estórias que ajudam a compreender não só a profissão de jogador de futebol, a condição de ex-atleta, como também o próprio futebol.

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CAPÍTULO 3: FRANCISCO ERNANDIR CICERONEIA O PASSEIO PELAS