• No results found

A história da localidade tratada é demasiadamente importante e fascinante para apenas nos situarmos no tempo descrito, vale reconstruirmos todas as iniciativas de se fazer um engenho de produzir ferro nesta região de formas mais detalhada.

59 A formulação de uma história da siderurgia no Brasil não pode ignorar a peculiar localidade escolhida para afixação da fábrica de Ipanema. Atualmente localizada no município de Iperó-SP, a 23° 25’ Sul e 47, 35’ Oeste61 na Floresta Nacional de Ipanema (FLONA), unidade de conservação de uso sustentável administrada pelo IBAMA - (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) a localização dos edifícios e ruínas testemunhas remanescentes de uma página importantíssima da História do Brasil. As edificações da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema ficam atualmente em uma FLONA, a Floresta Nacional de Ipanema, formada em 20 de Maio de 1992 por meio do decreto nº 530.

Durante o século XIX o referido território pertencia ao município de Sorocaba, cuja área era consideravelmente maior do que é atualmente, abrangendo vasta região que em 1810 chegava aos limites do atual estado de São Paulo. A área é aberta a visitação pública, sendo importante atração turística, aberta todos os dias, das 8h às 18h, com acesso pela Raposo Tavares, no km 112,5.

Fig. 17.Localização de Ipanema em relação à Sorocaba atual.62

61

Dados aferidos por meio do Global Positioning System (GPS)

60 O cenário é dominado pelo Morro de Araçoiaba visível de todos os ângulos com aproximadamente 6 quilômetros de extensão por 2 de quilômetros de largura e aproximadamente 970 metros acima do nível do mar, destacando- se em muito na paisagem relativamente mais baixa variando entre 500 e 750 metros de altitude. Cabe uma descrição em detalhes da área por um geógrafo de grande conceituação:

fig.18. Imagem de Ipanema por meio de fotografia de satélite63

"O morro de Araçoiaba/Ipanema, situado na região de Iperó, entre Sorocaba e Boituva, no centro-sul da depressão periférica paulista, reserva um grande conjunto de conhecimentos de interesse para a educação.

Geomorfologicamente, é um acidente de grande exceção, emergente no meio de terras baixas colinosas que se estendem por mais de 12 mil km2.

Geologicamente, é a consequência de um vulcanismo hipoabissal tardio, anterior aos processos denudacionais que criaram a Depressão Periférica Paulista. Filogeograficamente, é um componente de um mosaico de

61 ecossistemas sub-regionais que comporta cerrados e matas-galerias (vegetação ciliar), matinhas diferenciadas e descontínuas nas paredes sub-rochosas do morro. Existem também eventuais, porém altamente significativos, relictos de cactos mandacarus nas vertentes rochosas do morro. Esse fato, associado ao que já se conhece da região de Itu e Salto, permite reconstituir a história vegetacional da região. No passado ela abrigou caatingas, hoje relegadas a pequenos redutos de cactáceas, na forma de rupestres-biomas, logo seguidos por cerradões e cerrados recortados por florestas-galerias biodiversas. E, por fim, grandes matas tropicais nos morros de solos vermelhos argilo-arenosos das serranias de São Roque e Jundiaí. As florestas eliminaram importantes trechos de cerrado, mas não foram capazes de expulsar os minirredutos de cactáceas na serra do Jardim em Vinhedo e Valinhos, nos altos do Japi, na serra de São Francisco em Votorantim, em Salto e Itu, e no front rochoso das cuestas de Botucatu, e agora nos recém-identificados mandacarus dos morros de Araçoiaba e Ipanema.(...)"64

A vegetação e a geologia da região são extensivamente estudadas em várias pesquisas feitas nos últimos anos. A maciça presença do morro do Araçoiaba impera sobre a região, podendo ser visto a dezena de quilômetros em todas as direções, já que é maior elevação de toda a área. Esta presença é referente ao vulcanismo existente na região durante o período Mesozóico, que garantiu a peculiar riqueza mineral da região ao redor do morro Araçoiaba e a subsequente existência da fábrica de Ipanema, construída para explorar e manufaturar os ricos depósitos de ferro da área.

"Para entender essa época caracterizada por intrusões hipoabissais desfeitas em sills - massas tabulares de rocha ígnea que penetraram entre camadas de rocha mais antiga - nas soerguidas camadas de arenitos da

64

62 formação de Itararé (originada no Carbonífero Superior), há que visualizar o fato de que o atual morro da Depressão Periférica comportava centenas de metros de espessura, que se estendiam até o embasamento de rochas cristalinas. As intrusões que perfuraram localmente o pacote de rochas da borda da Bacia Sedimentar do Paraná foram provavelmente as mais tardias em relação ao vulcanismo que precedeu os mega processos de separação da África e Brasil. Ao que tudo indica, primeiramente aconteceram os derrames basálticos e as intrusões hipoabissais de diabásios (rochas magmáticas cristalinas). A seguir, nos milhões de anos decorridos entre o Triássico Superior, o Jurássico e o Cretáceo Superior - através de bolsões magmáticos descontínuos e residuais - aconteceram as penetrações de sienitos em forma de ring dykes (diques anelares) de Itatiaia, da atual ilha de São Sebastião, Caxambu e alhures. Tudo acontecendo antes que a tectônica quebrável aparecesse no embasamento cristalino do Brasil de Sudeste. Ou seja, antes dos falhamentos que criaram a serra do Mar, a ilha de São Sebastião e a Mantiqueira(...)"65

O geógrafo, por fim, explica os motivos que levaram à excepcional quantidade de minério de ferro e outro minerais em Araçoiaba, pois há uma grande distinção geológica em relação aos seus arredores.

"Por fim, um resíduo magmático, de grande exceção, teria interpenetrado a borda antiga da Bacia do Paraná, gerando a pequena área core, que mais tarde viria a ser o morro de Araçoiaba/Ipanema, com seus ankaratritos impregnados de magnetita. Um fato que, de resto, respondeu pelo histórico episódio da experiência industrial da Fazenda Ipanema(...)"66

65

Idem

63 Como o próprio geógrafo Aziz Ab´Sáber cita, a região de Ipanema é bastante distinta de seus arredores, sua peculiar geologia criou este manancial único de minérios dos mais diversos tipos, concentrados nos arredores de poucos quilômetros ao redor do morro de Araçoiaba.

"Atendendo ao fato de que para muitos consulentes fica um tanto difícil entender questões geológicas de um sítio de exceção, como é o caso de Araçoiaba da Serra, julgamos algumas questões relacionadas com o desenvolvimento de Iperó, de intensificação da estrutura regional. Convém lembrar sempre que essa pequena cidade se localiza entre Sorocaba e a Fazenda Ipanema, que hoje é um verdadeiro patrimônio histórico no interior da Depressão Periférica Paulista." 67

A estrutura geológica privilegiada de Ipanema deu margens não apenas à Fábrica de Ferro, mas também a outras formas de exploração mineral como cal que já era conhecida e empregada na fábrica, além de fosfatos que seriam utilizados no decorrer do século XX para produção de fertilizantes agrícolas. vale salientar que não são os únicos minérios encontrados. Vale destacar que o próprio minério de ferro possui em sua composição o titânio, atualmente utilizado em aplicações especializadas na indústria e medicina, mas que na época da fábrica de ferro foi um grande empecilho.

Após a desativação da fábrica em 1895 por decreto então presidente da República Prudente de Morais, Ipanema passou por uma era de abandonos e reativações.

Poucos anos depois em 1911 pequenas experiências com siderurgia e pretensões de reativação foram colocadas em debate, mas sem maiores sucessos e o governo de Hermes da Fonseca resolve instalar um quartel do exército na área da fábrica, que pouco tempo depois foi desativado e a área da

64 antiga fábrica entrou em rápido processo de arruinamento e saques sistemáticos por parte de locais.

Em 1929, tiveram início experiências para o aproveitamento da apatita, jazida descoberta, em 1890, por D´Orville Derby. Esse minério foi explorado até 1944 por uma firma particular para a produção do superfosfato. Mas, já em 1937, o acervo e área ocupada pela antiga Fábrica de Ferro passaram ao Ministério da Agricultura que, em 1947, instalou ali a Estação Experimental do Trigo.

Uma quarta fase da história de Ipanema começou logo no início dos anos 50, quando foi estabelecido o Plano Nacional da Indústria de Tratores e instituída a obrigatoriedade de ensaios para tratores, máquinas e ferramentas agrícolas importados ou fabricadas no Brasil. Ao mesmo tempo seguiram as atividades de produção de sementes. O estabelecimento passou a denominar-se CENTRI - Centro Nacional de Ensaios e Treinamento Rural de Ipanema.

A partir de 1975, foi criado o CENEA – (Centro Nacional de Engenharia Agrícola), junto ao qual foi realizado, em 1983, o convênio com o Museu Paulista - Universidade de São Paulo para a realização da pesquisa arqueológica. Em 1992, passou a integrar uma das áreas de conservação e proteção ambiental do IBAMA com a denominação de FLONA – Floresta Nacional de Ipanema. O Sítio Afonso Sardinha foi registrado no IPHAN pela Professora Doutora Margarida Davina Andreatta, em 1997.68