4. Methodology
4.1 Research design
Podemos definir faits-divers como “pequenas notícias de temática muito diversificada que relatam aspectos curiosos do quotidiano. Incluem-se nesta categoria os roubos, os acidentes, as coincidências, os casos de polícia, e, regra geral, todo o facto suficientemente curioso, ou pela sua originalidade ou pelas coincidências que envolve, susceptível de gerar uma notícia”77.
Um fait-diver não se trata de uma notícia com todas as características que a mesma deve ter, trata-se antes, como descreve Anabela Gradim, de uma “pequena notícia de interesse humano exemplar que apela ao lado voyeur e um pouco mórbido de todos os leitores. O faits- divers é assim o pequeno facto curioso que funciona como uma unidade fechada e praticamente se basta a si próprio. O interesse destas pequenas notícias encontra-se muito mais ligado ao seu aspecto exemplar e arquetípico, que propriamente ao facto de terem ocorrido ao Sr. B às tantas horas de determinado dia. O que caracteriza assim os faits-divers é a originalidade, enquanto a sua inserção no jornal serve fundamentalmente para distrair e desanuviar os leitores”78.
Este género é característica da preferência da classe popular especialmente por se tratar de dramas e histórias com personagens que não elas mesmas, mas que representam pessoas reais
75Peres, Ana; Juíza da Casa Pia avalia mediatismo, Correio da Manhã in
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/juiza-da-casa-pia-avalia-mediatismo consultado a 22/3/2011
76Ibidem
77Gradim, Anabela; Manual de Jornalismo, Universidade da Beira Interior, 2000,
in http://www.bocc.ubi.pt/pag/gradim-anabela-manual-jornalismo-3.html#b57, p.94 consultado a 23/3/2011
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e problemas sociais que podiam ser os seus. Os fait-divers realçam, na maioria das vezes desvios sociais, casos condenáveis, que não devem ser aceites pela sociedade. Acidentes, violações, raptos, maus tratos, pedofilia e catástrofes, dando também visibilidade à vida de celebridades, os seus casamentos, separações e escândalos são acontecimentos potencialmente exploráveis para um jornalista que pretende escrever um fait-diver podendo fazer desse acontecimento um “acontecimento espectáculo”. A imprensa sensacionalista explorou desde sempre o poder dos
faits-divers de forma a divertir as massas, emocionar ou causar sensações.
O sentido “popularucho” é, desde sempre, atribuído a estas notícias consideradas de pouca importância e datadas de antes do aparecimento da imprensa e como inspiração a diversos romances. Falar em fait-divers implica fazer a sua associação à imprensa sensacionalista, o seu objectivo é precisamente ser algo menos global e mais ao alcance das pessoas. As notícias de interesse humano apelam aos sentimentos, narram dramas e histórias de vida que comovem aqueles a quem a informação é destinada, prendem o leitor a assuntos que se tornam espectaculares pela forma como o jornalista os faz chegar ao público, as notícias de interesse humano concedem ao jornalista um grau de liberdade mais abrangente na selecção e tratamento do facto. “O fait divers, como informação auto-suficiente, traz em sua estrutura imanente uma carga suficiente de interesse humano, curiosidade, fantasia, impacto, raridade, humor, espetáculo, para causar uma ténue sensação de algo vivido no crime, no sexo e na morte. Consequentemente, provoca impressões, efeitos e imagens (que estão comprimidas nas formas de valorização gráfica, visual, espacial e discursiva do fato-sensação). A intenção de produzir o
efeito de sensacionalismo no fait divers visa atrair o leitor pelo olhar na manchete que anuncia
um acontecimento produzido, jornalística ou discursivamente, para ser consumido ou reconhecido como espetacular, perigoso, extravagante, insólito, por isso, atraente”79.
A espectacularização tem sido cada vez mais valorizada pelos meios de comunicação devido a valores-noticia como o inesperado, a personificação, negatividade, dramatização e conflito. João Canavilhas considera que a informação espectáculo “é consequência do domínio da observação sobre a explicação. A televisão procura prender o espectador, dando prioridade ao insólito, ao excepcional e ao chocante.”80 Mas não é apenas na televisão que a
espectacularização se faz sentir, todos os meios estão veiculados com o espectáculo, uma vez que o sensacionalismo é o que vende e o que caracteriza o mediatismo actual.
A sociedade de massas é caracterizada pela massificação de conteúdos de forma a atingir um público mais heterogéneo, diversificado e que, ao contrário do que se possa pensar, não atinge apenas as classes mais baixas, isto porque, fait-divers e sensacionalismo atingem todas as camadas e interessam a toda a gente. Actualmente, os meios de comunicação oferecem às audiências o que, além de mais barato, atinge um maior número de público. “Verifica-se, assim, nos media, um incremento substancial no volume de horas destinadas à função de
79Sobrinho, Danilo Agrimani; Espreme que sai sangue, São Paulo, Summus,1995, p. 26 apud Auclair, Georges; Le Mana Quolidien: Structures et Fonctions de la Chronique des Fait Divers, Paris, Anthoropos,
1970
80Canavilhas, João; O domínio da informação-espectáculo na televisão; Universidade da Beira Interior, s/d in http://www.bocc.ubi.pt/pag/canavilhas-joao-televisao-espectaculo.html, s/p, consultado a 26/5/2011
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entretenimento; aumenta o espaço ocupado pelo desporto; escasseia a atenção dada a novos programas de informação sobretudo quando impliquem pesquisa e investigação; constata-se uma presença mais substancial de reality shows e telenovelas; dilui-se, de modo acentuado, a separação tradicional entre informação e espectáculo; privilegia-se o espectáculo do quotidiano; proliferam as histórias de vida da "gente vulgar". Há uma maior tendência para a escolha de formatos que exigem as convenções narrativas inerentes ao espectáculo, assim como para a escolha de temas que implicam uma certa personalização e jogam com a intensidade das emoções”81.
As emoções são a fonte mais primária do ser humano e o jornalismo sabe aproveitar esta característica humana de forma a prender o público, neste sentido, não existem tema mais emocional do que o crime. “As histórias do crime são excertos do pulsar diário do mundo em que vivemos, a que os media estão particularmente atentos, por exprimirem a ruptura, a descontinuidade, o desvio, emergentes da cadência previsível e rotineira do quotidiano”82.