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O grupo pesquisador se entregou com muita suavidade ao tatear os objetos. Como veremos a diante, diversas e inusitadas sensações e correlações foram fetias com o tem participação.

Destaco apenas algo que surgiu tanto na oficina das crianças e adolescentes, como nessa dos/as adultos/as: a empatia. Em linhas gerais, empatia seria essa identificação com o outro, mas também um colocar-se no lugar do outro.

Faço uma correlação com a noção de compreensão empática ou empatia formulada por Rogers apud Meireles (1994): “Sentir o mundo particular do cliente como se fosse o seu próprio, mas sem nunca deixar de levar em conta a qualidade de “como se” – isto é, a empatia e isto parece essencial na terapia.”

Para ele, o processo terapêutico seria atravessado e facilitado por algumas condições, entre as quais, a empatia. Sobre a compreensão empática enquanto condição terapêutica em Rogers, Meireles (2006) conclui que, “compreendida desta forma, a empatia seria, então, deixar-se impactar pela diferença trazida pelo outro, deslocando-se de um lugar fixo.”

Essa abertura à diferença constitui o campo fértil para o diálogo mediatizado pelo estranhamento experienciado no tocar os objetos. Abaixo, segue a categoria formulada por meio da análise classificatória das falas dos/as co-pesquisadores/as e os confetos que brotaram dessa experimentação perceptiva.

CATEGORIA – SENTIDOS E RELAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO COM O TOCAR

113 1- eu entendo que, fazendo um paralelo, as pessoas são como os objetos. Você ao chegar num local onde tem várias pessoas, normalmente você não conhece, você tem que ir devagar, do mesmo jeito aqui, com cuidado, procurando conhecer, ai na medida que você vai conhecendo, você vai sabendo até onde pode ir aquela relação com a pessoa, pelo fato de já conhecer pelo menos um pouco a pessoa;

2- eu acho que foi muito sábia as palavras de “Ed” (nome fictício para o participante acima), né? Mas eu quero dizer assim tem gente que trabalha com a gente né e que não enxerga e a gente não tem esse cuidado, eu vejo assim até hoje eu mesmo não tinha muito cuidado com as pessoas que não enxergavam como eu acho que hoje eu vou ter mais cuidado, é uma coisa assim mais delicada, porque ela não ta vendo nada, como aquela pessoa vai andar sem saber, pegar as coisas, então nós que estamos ao redor dela, temos que ajudar ela a caminhar também, apesar dela já saber muito por que ela tem muito tempo de não enxergar nada e ai é isso, né? Nós temos que nos ajudar e ajudar ela. Muito delicado.

3- A relação que eu vejo dessa experiência com a participação é a questão de você chegar no desconhecido, no escuro, varias pessoas que você não conhece, trabalhando num projeto que você também nem conhece muito o que que é, mas estão todos ali com o mesmo intuito, essa é a relação que eu vejo com a participação;

4- e a relação que faço desse exercício com a participação, que é uma descoberta. Que quando você participa você tá descobrindo. Ao tocar nesses determinados objetos , é você recebe informações que vão para o seu cérebro, né, que você visualiza de fato aquilo. Então é uma descoberta. É um aprendizado. É participação

5- Então realmente é, ao tocar nos objetos, é a relação que tem com a participação é a descoberta, é a aprendizado como já foi falado. Por que como a gente, as pessoas são, são, todas as gentes precisa, ao longo do tempo, a gente conhecendo, como a gente vai conhecendo também é a, os movimentos, as pessoas, o trabalho, tudo isso é uma descoberta,

6- eu acho que isso aqui valeu também pra gente poder fazer uma reflexão, é com relação a, o tocante, na parte de educação, a parte de tudo, eu acho que isso é um, eu acho que a gente tem que pensar na participação num todo, né? Na educação, na saúde, tudo quanto é relacionado ao trabalho de participação, eu acho que a gente aqui, com isso, a gente, a gente dá pra gente ter uma noção do que a gente, do que é ser uma participação.

7 - ... a sensação que eu tive foi de ter cuidado por não saber onde está pegando. A primeira sensação foi essa, tá me entendendo? E depois, de ir procurando conhecer o que estava tocando, para que pudesse imaginar e a partir daí, já avançar um pouco mais no que diz respeito a tocar, porque já deu pra perceber o que é, a partir do momento que já percebeu o quê que é você já pode avançar um pouco mais, você já sabe o que é, como é, e assim por diante.

8 - nessa pesquisa eu me senti como o cego, como? Por que? o cego quando ele não enxerga, ele procura, mesmo não enxergando, enxergar, enquanto a gente enxerga, não enxerga o que tem na frente pra gente poder, como o objeto tocar ...e a gente mesmo enxergando, não quer tocar, enquanto um cego ele, quer tocar, quer sentir...o que a gente tem, tem que sentir(menção ao tocar) realmente sobre a participação, que é todos participarem juntos. É isso que eu tava querendo falar.

CRUZAMENTOS

Convergências, divergências, oposição, ambigüidades e paradoxos

- 6 também se distingue entre todos ao indicar que a noção do que é participação se tem ao pensar num todo, na educação, na saúde;

- 4 e 5 se referem às descobertas e aprendizagens; 5 destaca que elas se dão no tocar os objetos e a visualização daquilo no cérebro; enquanto que 6 enfoca que, assim como eles/as, todas as pessoas precisam também ao longo do tempo conhecer os movimentos, as pessoas e o trabalho;

- 1, 2 e 7 citam o cuidado, 1 e 7 trazem o cuidado antes de procurar conhecer, 1 relaciona as pessoas aos objetos e traz o chegar com cuidado, devagar, nas pessoas enquanto que 7, mostra o ter cuidado no tocar e imaginar os objetos; já 2 em contraste com 1 e 7 se refere à falta de cuidado com as pessoas cegas, pois é algo muito delicado não estar vendo nada, assim, expressa o cuidado como uma ajuda a quem não enxerga, e traz o paradoxo de ajudar a pessoa cega pois ela não sabe onde está pegando e, ao mesmo tempo, que ela sabe muito por não enxergar há muito tempo;

- 1 e 3 referem-se ambos a um encontro com pessoas desconhecidas, mas 3 ressalta também o deparar-se com o escuro, com o projeto desconhecido; já 1 traz um procurar conhecer um pouco a pessoa primeiro para saber até onde pode ir na relação com ela;

- 8 e 2 fazem divegentes menções às pessoas cegas. 8 mostra a postura ativa do cego que busca enxergar o que não vê, enquanto 2, destaca a necessidade de ajudar o cego a enxergar;

114 juntos.

Confetos encontrados:

• Participação descoberta Polissêmico com dois sentidos: 1. a informação para o cérebro;

2. o aprendizado sobre os movimentos, as pessoas e o trabalho. • Participação cuidado

Polissêmico com três sentidos:

1. o paradoxo do ajudar a pessoa cega que já sabe,

2. o cuidado por não saber onde está pegando, para poder avançar mais 3. o cuidado de ver até onde pode ir com as pessoas

• Participação chegar no escuro – o escuro com pessoas desconhecidas e um projeto também desconhecido.

• Participação não tocar – quando se enxerga mas não enxerga o que está na frente porque não quer tocar e sentir.

• Participação sentir – o tocar e o sentir realmente. • Participação enxergar – a procura e o querer do cego.

ESTUDO TRANSVERSAL:

Cordel com toque de participação

peço licença a vocês

pra história que`eu vou contar são as idas e vindas

de quem vai participar Quando chegar no escuro já num conhece ninguém. Nem o projeto se sabe mas o intuito se tem. Pegando bem devagar avança um pouco meu bem,

115 com um pouco de cuidado

melhora tudo neném! Nessa peleja não nego tem que saber enxergar, veja o exemplo do cego que num deixa de tocar! Tem dessa gente olhuda que acha melhor não tocar, mas até o que tá na frente não consegue enxergar! Tem uns bem preocupados com os cegos também querem guiar com cuidado pra protegê-lo do trem, um cego desconfiado disse que num precisa não de có e salteado

já sei bem a direção! Tem que sentir se tocar Pra coisa sair mais certa É tanta aprendizagem São essas descobertas: Os movimentos, as pessoas, Trabalho não falta não até no cérebro ecoa aquela informação mas se você não tocar, não aprende nada não, mas se quiser enxergar basta sentir meu irmão! tem gente com cuidado sempre tentando sentir pra ver até onde a prosa com o outro pode ir

chegar no escuro, amigo

num é problema não, pois em toda descoberta há um toque na escuridão

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8.2. Análise da Técnica “Montagens da participação”

Iniciamos o segundo momento da oficina com um outro tipo de interação com os objetos. Com o mesmo roteiro da proposta da montagem feito com as crianças e adolescentes, formaram-se três duplas. Cada par escolheu, um de cada vez, um objeto, até compor um conjunto com o qual se criou uma montagem ou cenário sobre a participação. Tais construções se deram pelo manuseio dos objetos, evitando-se o uso da voz para que aflorassem outros órgãos do sentido e, assim, novos sentidos.

A intenção foi de possibilitar uma interação criativa entre os/as co- pesquisadores/as, com os objetos e a produção de um arranjo significativo expressivo dos saberes e conceitos do tema gerador “participação” no OP. As duas fotos abaixo representam a montagem denominada de “Participa Ação”. Nela, os objetos que levamos para se juntar aos dos/as co-pesquisadores/as foram as luvas (da minha orientadora), os lápis de cera e os de madeira (meus) e a moldura que eu havia achado no lixo de uma loja de quadros artísticos.