Max Weber não opunha em seu pensamento o religioso e o secular como evolucionistas e iluministas. Para ele a conjunção de fatores que fez com que surgissem fenômenos culturais de primazia e valor universal na civilização ocidental não provém da oposição entre ciência e religião a partir do surgimento da ciência e dos métodos empíricos e do racionalismo científico. Pelo contrário, o nascimento da modernidade e a primazia cultural do ocidente estão ligados ao desenvolvimento das religiões mundiais. Assim Weber realizou estudos das éticas religiosas hindu, budista, cristã, confuciana e islâmica em aspectos gerais, contudo, especialmente no que toca a ética econômica de cada uma. Para ele, essas religiões chamadas por ele de universais pelo seu alcance na população do planeta, promoveram a racionalização da conduta dos fiéis através da sistematização de idéias e comportamentos no mundo (apud Avritzer, 1996: 57). “Os processos de racionalização partem, portanto, da necessidade das religiões mundiais de substituir a magia pelo domínio cognitivo da natureza e por uma explicação ética capaz de ser justificada (Weber, 1964a)” (Id, ibid).
Assim a tipologia elaborada por Weber sobre as religiões mundiais em Ensaios sobre Sociologia da Religião demonstra o interesse de captar como elas substituíram paulatinamente a magia por concepções éticas e cognitivas do mundo. Isto sinaliza que as explicações mágicas para o sofrimento e a desigualdade de fortunas entre as pessoas no mundo começaram a encontrar cada vez mais dificuldade de aceitação. As explicações para os sofrimentos afastadas das fortunas e ações individuais ou a teodicéia do sofrimento
separando o mundo natural e o mundo interior, e, conseqüentemente o destino dos indivíduos de suas fortunas individuais gerava um grande impasse: “era demasiado freqüente o sofrimento imerecido; não eram os homens bons mas os maus que venciam” (Weber apud Avritzer, 1996: 58).
Assim, “a introdução da idéia de um outro mundo e das técnicas de salvação [foi] a resposta racional dada pelas diferentes religiões mundiais para esse problema” (Idem). Dessa forma as religiões se distinguem entre dois tipos, aquelas que dão uma explicação ativa ou passiva para a presença do indivíduo no mundo de acordo com três técnicas de salvação: contemplativa, ascética ou mística. O espiritismo kardecista, junto ao protestantismo, pode ser considerado uma religião de explicação ativa da presença do indivíduo e ascética. Demonstraremos por quê.
O Espiritismo Kardecista intitulando-se cristão também se identifica como “cristianismo redivivo” (o cristianismo primitivo, antigo) e possui também algumas características em comum com o hinduísmo, classificado como “turning away from the world” ou extramundano e contemplativo.
Contudo, pelas citações de fontes primárias e por vários estudos que atestam a inserção das instituições espíritas no espaço público através da caridade e da assistência social, notamos que os espíritas não têm nada de contemplativos e aproximam-se mais, na realidade, de seus vizinhos protestantes na classificação weberiana (Schluchter, 1989: 145).
Apesar do processo de “catolização”, para Cavalcanti (2004) o espiritismo possui características próprias, e é nesse sentido que Giumbelli (1998), destaca o Espiritismo como uma religião que ultrapassa o âmbito individual e alcança a esfera pública através de suas obras sociais, com as quais pretende dar cumprimento ao dever da caridade. Isso
kardecista enfatiza a responsabilidade pessoal é uma ética intramundana, pois na vida presente, nesta encarnação, é que se deve construir através de pensamentos, palavras e ações as condições necessárias ao progresso e ao alívio das dores. Na ética de salvação espírita as únicas maneiras do espírito se libertar das provas e expiações reencarnatórias – saldando as dívidas presentes e passadas contraídas com as leis divinas, não reencarnar novamente ou garantir uma boa destinação na vida após a morte-, são a reforma íntima e a caridade, eixos interdependentes mobilizáveis somente através da vontade e da disciplina diárias.
De um lado, um considerável grau de legitimação social, o que se percebe quando suas instituições recebem recursos públicos sem precisarem abrir mão de seu estatuto religioso [...]. De outro, uma inserção consolidada em certos espaços públicos, desenvolvendo uma inadequação às feições peculiares às religiões modernas, voltadas basicamente para o cultivo da intimidade [...]. (Giumbelli, 1998: 133)
Na Doutrina Espírita existe potencial a ser mobilizado no sentido do desejo de transformação social, da cidadania. Conteúdo que a revela também contrária a escravidão, em argumento praticamente idêntico ao dos protestantes americanos dos séculos XIX e XX.
Além da crença na caridade o espiritismo é contrário ao isolamento do indivíduo da sociedade. Contudo, a busca da salvação pode levar a apropriação egoísta da caridade, assim como a reencarnação à justificação e aceitação passiva da ordem social. Isso se deve de certa maneira ao caráter ambivalente da caridade, que pode ter dois tipos de eficácia: o alívio das provas pelas quais o indivíduo deve passar e para a implantação de uma ordem social mais justa27. O espiritismo explica a ordem e a reprodução social, mas com isso não
27 A palavra Carma (ou Karma) provém do hinduísmo, não é mencionada n’O Livro dos Espíritos, embora
para os fiéis sintetize a idéia de dívidas contraídas perante as leis de Deus em reencarnações passadas e cujo resgate é previsto na reencarnação presente/atual. O significado e incorporação desta palavra ao vocabulário espírita sinaliza uma semelhança fundamental com o hinduísmo. Em ambas a crença na reencarnação como resgate pode levar ao conformismo com a ordem social. A crença na evolução, por sua vez, pode também implicar na naturalização das iniqüidades, ou ser apropriada de modo etnocêntrico. Isso aparece nas relações tensas entre espíritas kardecistas e profitentes das religiões afro-brasileiras, em que o kardecistas ao
diz que ela deve ser desigual –se o livre-arbítrio serve para mudar nossa própria vida e destino pessoal, pode servir também para mudar a sociedade.
Vários espíritas se dizem ou se acham democráticos por não tomarem nenhuma decisão sem se reportar ao grupo ou instância a que pertencem, o que eles entendem por democracia e como essa concepção interfere em seus padrões de interação? Por que muitos espíritas se julgam democráticos? Isso se deve a uma causa interna, proveniente da organização religiosa ou a causas externas, provenientes da cultura política brasileira? Ou atuam os dois tipos de causas (internas e externas)? Começamos aqui a responder a primeira parte da pergunta, pois sim, existem causas internas.
Portanto, o Espiritismo Kardecista têm elementos tanto para a ação individual quanto para a ação coletiva no mundo. Até onde descobrimos agora é possível formular a hipótese de que a influência de Kardec na organização do espiritismo não é baseada apenas em sua concepção sobre religião, mas também em uma concepção da política que, naquela época, não pertencia somente a ele. Constata-se assim a propensão do espiritismo ao civismo de corte liberal e à cultura democrática.