5.2 Utfordringer i kvantitativ forskning
5.2.4 Representativitet
Introdução
Ao longo das mais de 170 páginas que precedem esta terceira parte, tentei percorrer um caminho lógico que me levou da formulação das minhas hipóteses intuitivas para a reconstrução e apresentação do objeto de estudo que essas proposições pretendem explicar. Fiz uma reconstrução cronológica. Localizei a origem da movimentação no Canadá na década de 80, de onde se estendeu para México e Estados Unidos, em seguida para Chile e Brasil, em busca de construir um movimento continental. Finalmente, espalha-se pelo restante do continente na luta contra os acordos da ALCA ou bilaterais. Cheguei até 2006 e percebi o final de um processo, ou seja, que o movimento estava mudando. Com essa imagem do movimento ainda em minha retina e com a ajuda - ou com o guia - das minhas hipóteses intuitivas, fiz a discussão com as elaborações teóricas sobre os movimentos sociais, sobre redes e, fundamentalmente, as recentes reflexões acerca dos movimentos sociais na arena transnacional. A segunda parte desta tese é, em definitiva, o produto desse encontro – entre minhas hipóteses iniciais, a reconstrução histórica do objeto e os corpus teóricos abordados.
Segundo as conclusões teóricas expostas nessa Parte II, esquematicamente, um movimento social se compõe fundamentalmente por duas questões: 1) uma identidade coletiva, a partir da qual, 2) o coletivo definido pela identidade age. Isto é,
movimento social = Id + estratégia/ação
De acordo então com esta idéia, que cumpriu a função de fornecer um esquema de elementos teóricos para analisar o movimento cuja história reconstruí no capítulo inicial, dei- me ao trabalho de ordenar analiticamente a experiência desse movimento. Assim, baseado no que defini no esquema da complexidade das identidades, procurei apresentar no Capítulo 5 os três níveis de identidade detectados no processo da ação dos movimentos sociais no campo transnacional. Nesse sentido, reconstruímos o mecanismo da identidade no nível primário, no
nível complexo doméstico e, finalmente, a identidade complexa transnacional.
Dizemos que, dentre os atributos da identidade, os que têm uma operatividade central são aqueles que descrevem o “nós”, o “outro” (inimigo), e os elementos do cenário que possibilitam a decisão e o desenvolvimento das estratégias. Acrescentamos que essa descrição é feita a partir da leitura de elementos duros da estrutura do real, que são fatos que ocorrem com autonomia dos atores; no nosso caso esses fatos não são outros do que as negociações comerciais. Por esse motivo o movimento anti livre comércio nasce e se articula a partir da sua leitura desses elementos duros, mas pode se dizer que há uma leitura primeira que, depois de feita, operará ela mesma como elemento duro da realidade de outros e que incide na leitura desse outro.
Vamos analisar as estratégias e ações do movimento em relação a cenários que contemplam a presença de: 1- a negociação do CUSFTA, 2- A negociação do NAFTA + a resistência ao CUSFTA, 3- a negociação da ALCA + 1 + 2 + a resistência tri-nacional, e 4) a negociação do CAFTA e o TLC-Andino + 3 + a resistência à ALCA. Por motivos de espaço e pela sua presença relativa na mobilização, embora marcante no caso de Seattle, não incluo aqui as negociações da OMC nem dos Acordos de Associação com a UE.
Agora, seguindo esta lógica e a definição de movimento social, nesta terceira parte, analisarei esmiuçadamente as estratégias/ações que fazem com que estejamos falando de um movimento social transnacional contra o livre comércio. Considerando que cada movimento social, segundo o cenário de ameaças e oportunidades que a sua identidade descreve, elabora uma estratégia determinada de ação, exporei aqui o repertório de estratégias específicas executadas pelos movimentos nos diversos momentos dessa mobilização em relação aos acordos de livre comércio. Vale lembrar a distinção sempre presente entre objetivos de
extensão e de eliminação, e o reconhecimento de que não há uma divisão estrita entre ambos e
sim que, sendo a “eliminação do outro” o objetivo final, a extensão é uma das estratégias prioritárias para alvejar esse fim. Dou destaque para as primeiras duas estratégias específicas porque considero que elas estão no bojo desse repertório único do movimento social contra o livre comércio nas Américas.
− Estratégias organizativas: visam ações orientadas à criação de coalizões mais amplas cujo resultado – quando bem sucedido - tem um efeito não só organizativo, mas também identitário;
descreve como mais eficientes para influir na negociação do acordo, coordenar a pressão sobre os governos além das fronteiras dos Estados de origem.
− Estratégias de divulgação dos conteúdos da identidade: essa mesma complexidade, somada ao desconhecimento geral de um tema novo como esse, fez com que estratégias concretas de divulgação fossem postas em prática para paliar a falta de informação e aumentar, dessa forma, a extensão da identidade. O monitoramento das negociações foi uma das ações específicas do movimento, e a educação popular apareceu também com freqüência como uma das principais formas de ação nesse quesito.
− Estratégias de adaptação ao tema: dada a complexidade técnica e dinâmica envolvida nas negociações de livre comércio, os movimentos implementaram ações para dar conta desse desafio.
− Estratégias de mobilização pública: a disputa pública pelos conteúdos dos acordos e a continuidade ou suspensão dos acordos implicou a implementação de estratégias duais e muitas vezes conflitantes desde o começo que oscilaram desde a incidência (lobby) aos governos, até a mobilização e confrontação direta passando pelas chamadas estratégias de pressão, um ponto médio entre ambas. Há uma ênfase particular para as chamadas “cúpulas paralelas” ou especificamente as “cúpulas dos povos”, e as consultas populares.
− Estratégias de relacionamento com os governos: critérios de relacionamento com as diversas instancias oficiais, que determinam um certo tipo de ações nesse âmbito.
1- Leituras situacionais do CUSFTA
Sustento nesta tese a idéia de que identidades primárias já organizadas e seus ativistas, em determinado momento, perceberam as ameaças que as negociações do livre comércio implicavam para eles. Nesta percepção, cujos eixos centrais já vimos em cada um deles, os atores decidem agir e para tanto desenham um conjuntos de estratégias. No debate sobre o CUSFTA, uma das primeiras estratégias ideadas foi a da criação de coalizões largas para enfrentar o governo na sua decisão de avançar para a assinatura do acordo.143
143 Lamentavelmente não posso reconstruir essa história a partir dos documentos produzidos pelos próprios atores, realizo aqui uma reconstrução secundaria na base de textos produzidos por acadêmicos e