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3. Representing the Holocaust in Everything Is Illuminated

3.4. Representations of history in the realist narrative

• Análise do diário de campo da pesquisadora:

As observações na pesquisa de campo foram realizadas mediante uma pista essencial da cartografia: o funcionamento da atenção do cartógrafo, em que atenção não se dá pela simples seleção das informações, mas é flutuante, concentrada e aberta. Durante o procedimento de pesquisa foi feita uma observação participante em contextos de socialização, mais especificamente, em encontros vinculados ao movimento social de homens trans e ao movimento social de jovens LGBT, como mencionado anteriormente. As observações serviram como meio de contextualização e inserção da cartógrafa em campo e fundamentaram as análises das entrevistas e a teorização do trabalho.

A fase exploratória para esta cartografia consistiu em um processo de habitação de um território ao mesmo tempo investigativo e existencial. Além disso, envolveu a consciência da pesquisadora acerca das tecnológicas metodológicas que precisavam ser desenvolvidas. O campo problemático foi se formando na fase exploratória, sendo possível traçar os procedimentos (os dispositivos operacionais) utilizados. Tratou-se de um processo de sondagem, com vistas a elaborar as ideias e construir, posteriormente, as hipóteses da pesquisa. As estratégias usadas atuam como implicação que diz respeito a descrever as relações da/o pesquisadora/or e de seu pesquisar. Por isso, foram feitas análises de implicações (Barros & Barros, 2014) do meu processo como pesquisadora baseadas no meu diário de campo, com a identificação dos analisadores que se processaram durante a pesquisa.

• Análise das entrevistas narrativas e episódicas:

No contexto dessa cartografia, a entrevista é considerada um contexto essencial de negociação e produção de sentido, por isso exige do entrevistador, sobretudo, uma postura de escuta ao que é inédito: “uma entrevista poderia ser o traçado de um devir” (Deleuze & Parnet, 2013). Por

isso, em geral, mantinha-me em silêncio a fim de ouvir as suas narrativas e, em momentos específicos, introduzia questões do roteiro previamente elaborado ou a partir de perguntas que surgiam no próprio contexto da interação46 (Tedesco, Sade & Caliman, 2014), tendo em vista o

andamento da conversa.

A entrevista instaura uma questão capaz de atravessar a subjetividade do/a entrevistador/a e daquele que é entrevistado/a. “Ao fazer uso das entrevistas, interessa à cartografia promover o acesso ao plano coletivo de forças e de sua indeterminação, a pluralidade de vozes na experiência compartilhada de dizer” (Tedesco, Sade & Caliman, 2014, p. 123).

Diante disso, para atender aos objetivos específicos do presente estudo, realizou-se um método de entrevistas em profundidade mediante vários encontros. Foram realizadas entrevistas narrativas individuais com seis pessoas trans jovens ou adultos/as, com duração entre 40 a 70 minutos cada (em local público, tranquilo e confortável ao/à entrevistado/a, previamente combinado), totalizando treze horas de material em áudio. É importante considerar que a quantidade de entrevistas não foi padronizada, pois teve situações em que o/a participante se disponibilizou aos três encontros, outros a dois, e teve um entrevistado que só quis participar de uma sessão. Em cartografia, não se trabalha com descarte de participantes que não conformam o padrão da pesquisa, todo material é analisado e os desencontros do próprio campo são vistos como acontecimentos inesperados ou analisadores.

Assim, as entrevistas foram divididas em dois momentos principais (foi o que aconteceu com quatro dos/as participantes): no primeiro, foi realizada uma entrevista aberta individual em que se privilegiou a narrativa livre do/a participante; no segundo, realizou-se a entrevista episódica em que a pesquisadora retomou alguns eventos narrados na primeira sessão a partir de conversas; e, por fim, o que aconteceu em apenas um caso, o terceiro encontro foi marcado por uma conversa em que o/a participante levou fotografias de sua infância, adolescência e idade adulta.

A entrevista narrativa foi escolhida, pois se aproxima da autobiografia, consistindo no ato de narrar o próprio desenvolvimento. As entrevistas episódicas foram utilizadas para investigar os processos de identificação construídos em suas históricas. Enquanto a entrevista narrativa aprofunda a narrativa biográfica, as detalhadas estão relacionadas às situações da entrevista episódica. Segundo (Flick, 2000), “o conhecimento episódico se organiza acerca das experiências e se associa a situações e a circunstâncias concretas” (p. 114), é o momento segundo o qual a/o entrevistada/o dedica atenção especial às situações ou aos episódios que tem vivenciado.

As análises foram feitas com base nos dispositivos construídos ao longo da cartografia.

46 Para Tedesco, Sade e Caliman (2014), “na cartografia, a escuta acompanha a processualidade do relato, a

experiência em cuja base não há um eu, mas, sobretudo, linhas intensivas, fragmentos de sensações, sempre em vias de constituir novas formações subjetivas. Neste sentido, a entrevista se aproxima de uma conversa. Usando a distinção sugerida por Deleuze e Parnet (2013), não como uma conversação entre sujeitos preestabelecidos, mas como uma conversa que procede por intersecções, cruzamentos de linhas, agenciamentos coletivos de enunciação” (p. 109-110).

Como já mencionado, os dispositivos estão relacionados com a atividade de produção da pesquisa e, por isso, possibilitaram observar as relações dos processos de subjetivação inseridos as narrativas dos participantes. Nesse sentido, das narrativas dos/as participantes, extraiu-se a sutileza de argumentações singulares, posicionando-as de modo destacado para produzir vários eixos de análise. A ideia que aparece na cartografia é a da não universalização do caso pesquisado, visto que se dá no âmbito da experiência de cada sujeito. Trata-se do cerne das elaborações teóricas desenvolvidos anteriormente.

Para a análise do diário de bordo e das entrevistas, foram citados trechos de fala, por entender que se trata de analisadores situados como acontecimentos (Lourau, 1993), além disso, eles podem ser “auto-enunciativos, na medida em que ocorrem, chegando até dispensar interpretações posteriores” (Hur, 2009, p. 199).

A fim de proceder uma perspectiva não-representacional de análise, recorreu-se a concepção de linguagem de Deleuze/Guattari (2011) e Bakhtin (2010; 2011; Brait, 2014). Segundo a pragmática desenvolvida pelos autores, foi possível conceber análises processuais, levando-se em conta três dimensões importantes: a produção de sentidos, que são mais dinâmicas, ambivalentes e depende do contexto da interação social; de outro modo, o significado tem uma dimensão estrutural e estática, que tem a ver com os regimes de enunciação, ou seja, com regimes de verdade culturalmente negociados (neste contexto, entende-se que existem estratégias usadas para manter um regime de enunciação linguístico como verdadeiro); por fim, o papel da autora-pesquisadora nas suas análises é ativo, pois tende a imprimir a sua leitura e sua voz nos “dados”. Segundo tal parâmetro, é possível dizer que não existe neutralidade durante a produção e análise das informações.