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4. Negotiating the relationship between truth and fiction

4.4. Love, truth and Trachimbrod

A cartografia de um processo em construção

Diante de todo o trajeto desenvolvido até o momento, a tessitura das últimas reflexões se produz sobre os acontecimentos da pesquisa: a análise de informações mediante a construção dos dispositivos e de seus desdobramentos em analisadores. Assim, as considerações finais também funcionam como um dispositivo para a emergência de novas problematizações, por isso não são entendidas como um desfecho ou um produto final. A escrita da tese faz operar deslocamentos, uma vez que foi necessário manter a processualidade e os campos de força da pesquisa em todas as etapas do percurso. O que implicou em avaliar a própria prática como um ato de criação e um disparador de efeitos e de implicações para que as/os leitoras/res pudessem acessar e validar à experiência da investigação.

Nesse sentido, essas considerações pautaram-se pelo desenvolvimento de uma cartografia como um processo que ainda pode acompanhar outros caminhos ou propostas. Considera-se importante ter como ponto de partida a construção de análises que possam permitir a transgressão do status quo, que está relacionado a como os regimes hegemônicos de governamentalidade afetam os modos de subjetivação ou ainda as práticas de si. A ideia principal é para não nos basearmos em conhecimentos que visam a manutenção de privilégios, retroalimentam às relações de poder entre grupos sociais e autorizam a sujeição de vidas. Portanto, o conceito de dispositivo da transexualidade utilizado, nesta tese, permitiu que o próprio trabalho pudesse ressoar novos sentidos por meio de linhas propositivas.

Em geral, a conclusão pode ser entendida como um fechamento, um término, para sugerir, de algum modo, uma verdade que se pretende definitiva. Neste contexto, não se trata de substituir uma verdade, sobre o modo de constituição de experiências, por outra, o que significaria apenas trocar as questões de lugar. Ao contrário, por meio de um diagnóstico provisório, este texto se propôs a colaborar com a construção de possibilidades de resistências por meio de novas teorizações. Nesse sentido, compreendeu-se que há uma dimensão da realidade que se apresenta como processo de criação. Por isso, torna-se importante sugerir caminhos em que os resultados e os efeitos gerados pelo trabalho não se esgotem por si mesmos, sendo possível que, até mesmo, os comentários conclusivos possam lançar indicadores.

Durante o percurso, o desenvolvimento de um modo de narrar trouxe profundidade e rigor à investigação, mas também esteve implicado com um processo inventivo. Portanto, rigor e inventividade foram utilizados como parâmetros e envolveu fazer ciência psicológica com a criação de conceitos e também a intervenção sobre a realidade. Entendeu-se que para promover afetos e processualidade durante a leitura da tese, a poiesis foi utilizada como uma política narrativa e se pautou pela arte com a escrita, no intuito de agenciar vida e pesquisa. Ou seja, para trazer fundamento às reflexões, a pesquisadora não quis cumprir receitas ou protocolos prévios baseados pelo simples

acúmulo de argumentos; de outro modo, se propôs tecer um saber encarnado por meio da escrita como invenção de si, do outro e do mundo.

Stryker (2008) pontua sobre a necessidade de a pesquisa no âmbito dos Estudos Transgêneros estar ligada às inovações tanto teóricas quanto metodológicas, devido às metamorfoses das condições pós-modernas, por isso a proposta metodológica da cartografia para a análise de processos de subjetivação se mostrou significativa. Nesta investigação, foi possível observar as implicações da pesquisadora e das/os participantes no processo de construção do conhecimento com o participar, o conhecer e o intervir, sendo necessário um engajamento do pesquisar com o campo. As resistências das pessoas trans para participarem de pesquisas realizadas por pessoas cis evidencia um rico potencial de discussão, uma vez que historicamente as ciências humanas foram construídas para manter relações de poder e de privilégios. No traçado do plano comum e heterogêneo da pesquisa, as políticas de amizade foram avaliadas com uma possibilidadade da pesquisadora e das/os participantes poderem transgredir juntas/os.

Entendeu-se que o pesquisar pode se tornar mais potente a partir da abertura para uma diferença que perturbe e resista aos modos de ser hegemônicos no intuito de desnaturalizar a norma em prol da busca por caminhos singulares. Por sua vez, o exame da cisgeneridade retira do lugar de “normal” aquele que não é trans e também opera como efeito do dispositivo da transexualidade e, por isso, se efetua nos processos de subjetivação em todos nós. Por isso, foi necessário colocar em análise os campos de força por meio de práticas de resistência, na tentativa de incomodar os centros: às hegemonias cisheteronormativas e ao binarismo de gênero que vem sendo historicamente construídas como naturais e, portanto, se tornam invisibilizados.

A pesquisa trouxe novas considerações sobre as relações entre desenvolvimento psicológico, gênero e processos de produção de subjetividade, em que tomou como parâmetro a luta pela despatologização e a luta pelo direito à saúde. As práticas de resistência enunciam a flexibilidade do gênero e o seu potencial de transformação. As pessoas trans são seres humanos psicologicamente saudáveis, suas articulações políticas e as práticas de si como transgressão são provas disso.

É importante considerar que há um amplo campo a ser explorado entre os Estudos Transgêneros e a Psicologia. Além disso, é importante refletir sobre como promover orientações às/aos estudantes no âmbito formação em psicologia e às/aos respectivas/os profissionais da área, pois há a possibilidade do perigo à precarização da atuação de psicólogas/os, se não alçarmos com profundidade essa discussão. Uma proposta de trabalho sobre a ética do corpo e dos afetos em pessoas trans seria possível e é imprescindível que o debate sobre a hegemonia cisnormativa nos discursos e nas práticas psicológicas se amplie. Traçar novas cartografias sobre as experiências trans pode ser um assunto inesgotável e é importante que seja.

Além disso, tornou-se necessário o questionamento da temporalidade pressuposta em psicologia do desenvolvimento, em suas tentativas de captura da experiência por meio de um tempo linear, estático, único. Um tempo que ainda fecha possibilidades, que exclui diferenças, que cataloga,

marca, reduz, essencializa. Um tempo concebido como linear se torna insuficiente para o reconhecimento das singularidades e só tende a reafirmar o mesmo, a partir da anulação da alteridade.

Esse é o problema dos relatórios psicológicos que colocam uma perspectiva de desenvolvimento dentro de uma perspectiva temporal estática e linear. Em suas narrativas, as pessoas entrevistadas evocaram o passado como uma forma de atualizar e explicar o presente. Eis a importância de pensar o tempo como não-linear em psicologia do desenvolvimento, mas a partir de planos heterogêneos, passado e futuro são vistos como dimensões do presente para as pessoas que se autoexplicam e tecem interpretações de si e do outro.

A estilística da existência compreende práticas alternativas e modos de compartilhamento e já não mais aquelas formas que representam a captura de modos de vida. As experiências da transgeneridade e da transexualidade abrem o potencial de outras narrativas de vida e relações alternativas em relação ao tempo e ao espaço. Além disso, a cultura de si em práticas de subjetivação em experiências trans produz formas alternativas de temporalidades, permitindo acreditar que futuros podem ser imaginados e vividos como potências de vida. Por meio do tempo e do espaço queer pode ser possível avaliar mudanças culturais e políticas presentes no século XXI.