Esses resultados iniciais dizem respeito aos dados relativos ao perfil sócio- profissional da força de trabalho do estudo, a forma de organização do trabalho, a ocorrência e locais de acidentes de trabalho no hospital universitário.
Quanto ao sexo, 68,4 % da força de trabalho entrevistada foi constituída por mulheres enquanto apenas 31,6% dos sujeitos eram homens, o que reforça a feminização da prestação dos serviços de saúde em Natal-RN, também identificada em estudos anteriores7-60. Constatou-se nesse trabalho que 10,3 %, 55,6% e 34,1% têm o ensino fundamental, médio e superior completo, respectivamente.
Em relação ao local de trabalho, 31,7% da força de trabalho desempenhava suas atividades, no momento das entrevistas ao nível ambulatorial, 28,6% nos setores de internamento, 14,7 % no apoio diagnóstico e terapêutico e 25,0% no apoio logístico e operacional. Quanto ao vínculo empregatício, 73,3% são estatutários, 21,6% terceirizados e 5,1% bolsistas e voluntários. “No mercado global e na área da saúde tem sido cada vez mais freqüentes a fragilização desses vínculos no contexto de trabalho atual, somando-se a isso o enfraquecimento das entidades sindicais, pelo esvaziamento e falta de poder na garantia de seus direitos trabalhistas”7.Convém lembrar que a maioria dos servidores do grupo de apoio do hospital é terceirizada.
No tocante ao turno de trabalho, 25,9%, 21,4%, 2,6% e 50,1% deles exercem suas atividades profissionais respectivamente, nos turnos matutino, vespertino,
noturno e em turnos alternados, cumprindo escalas de plantão. Desses, 79% trabalham apenas no hospital, enquanto 21% possuem outro emprego e a massa de trabalhadores que nunca sofreu acidentes de trabalho corresponde a 67,3% do total, enquanto 32,7% deles sofreram algum tipo de acidente de trabalho no hospital.
Em relação aos locais onde ocorreram esses acidentes e tipos de acidentes mais freqüentes, destacamos que os maiores percentuais, ou seja, 18,2% dos acidentes de trabalho ocorreram nas enfermarias, 10,6% nos centros cirúrgicos, 6,8% nos laboratórios, 6,8% na UTI e 6,1% nos ambulatórios, dentre outros, provavelmente indicando que nesses locais, os trabalhadores encontram-se mais expostos a esses problemas. Os tipos de acidentes de trabalho com instrumentos pérfuro-cortantes foram os mais freqüentes, totalizando 61,8%, seguidos das quedas com 15,1%. Destacamos ainda que 56,5% desses acidentes ocorreram no período de tempo correspondente há menos de cinco anos.
Os membros superiores, entre os quais se destacam as mãos, foram os mais afetados pelos acidentes de trabalho em 78,0% das ocorrências, seguidos dos membros inferiores em 13,5%, cabeça em 5,7% , tórax em 2,8% e, 71,9% dos trabalhadores acidentados continuaram trabalhando logo após o acidente, 15,0% afastaram-se do trabalho por um período menor que três dias e apenas 13,1% por um período superior a três dias, mostrando que grande parte desses acidentes, trouxe pequenas conseqüências para a saúde dessas pessoas.
Quanto ao uso de EPIs durante o trabalho, 47,2% dos sujeitos relatam que costumam usá-los quando estão trabalhando, 26,9% afirmam que às vezes usam e 25,9% deles não costumam usar proteção individual rotineiramente no exercício profissional. Para os trabalhadores que sofreram acidentes de trabalho no hospital, quando perguntados se estavam usando EPI no momento do acidente, 61,2% deles
afirmaram que não, e apenas 38,8 % deles disseram que estavam usando esses equipamentos, mostrando a necessidade de reforço na motivação para o uso individual e da garantia de disponibilidade desses equipamentos, nos diferentes locais de trabalho.
No tocante a satisfação com o trabalho 61,7%, 30,2% e 8,1% são satisfeitos com o trabalho, muito satisfeitos e demonstram insatisfação, respectivamente. Partindo desse dado, pode-se afirmar que a insatisfação com o trabalho é baixa na força de trabalho estudada.
A tabela 1 ilustra a dinâmica das tendências entre as variáveis independentes e a ocorrência de acidentes de trabalho, além de mostrar onde ocorreu associação significativa entre elas.
Tabela 1. Distribuição absoluta e percentual entre as variáveis independentes e a ocorrência do acidente de trabalho em um hospital universitário. Natal-RN. 2005
Variável dependente Variáveis independentes Acidente
Não n (%) n (%) Sim p SEXO Masculino 97 (65,5%) 51 (34,5%) Feminino 218 (68,1%) 102(31,9%) 0,654 FORÇA DE TRABALHO Apoio 59 (62,1%) 36 (37,9%) Médio 173 (70,0%) 74 (30,0%) Superior 83 (65,9%) 43 (34,1%) 0,346 GRAU DE INSTRUÇÃO Fundamental 27 (56,3%) 21 (43,8%) Médio 186 (71,8%) 73 (28,2%) Superior 102 (64,2%) 57 (35,9%) 0,055 SETOR DE TRABALHO Ambulatorial 99 (66,9%) 49 (33,1%) Internamento 85 (63,4%) 49 (36,6%) Apoio diagnóstico e terapêutico 41 (59,4%) 28 (40,6%) Apoio Logístico e operacional 90 (76,9%) 27(23,1%)
0,050 VÍNCULO EMPREGATÍCIO Estatutário 222 (65,9%) 115 (34,1%) Terceirizado 71 (71,7%) 28 (28,3%) Bolsista /Voluntário 18 (75%) 06 (25%) 0,402 TURNO DE TRABALHO Matutino 76 (62,8%) 45 (37,2%) Vespertino 72 (72,0%) 28 (28,2%) Noturno 7 (58,3%) 5 (41,7%) Alternado (Plantão) 160 (68,1%) 75 (31,9%) 0,455 OUTRO EMPREGO Não 259 (70,2%) 110 (29,8%) Sim 55 (56,1%) 43 (43,9%) *0,012 COSTUMA USAR EPI QUANDO TRABALHA.
Não 99 (81,8%) 22 (18,2%)
As vezes 83( 65,9%) 43 (34,1%)
Sim 133( 60,2%) 88 (39,5%)
*0,001
SATISFAÇÃO COM O TRABALHO
Insatisfeito 22 (57,9%) 16 (42,1%)
Satisfeito 207 (71,9%) 81(28,1%)
Muito satisfeito 86(61,01%) 55 (39,0%)
*0,033 * Estatisticamente significante (95% de Intervalo de Confiança)
De acordo com a tabela 1, não houve associação significativa entre a ocorrência de acidentes de trabalho e sexo, força de trabalho, vínculo empregatício e turno de trabalho. A associação entre o setor de trabalho que os indivíduos pertencem, o seu grau de instrução e a ocorrência de acidentes de trabalho, esteve
no limite de significância estatística e provavelmente com uma amostra maior, se encontraria associação significativa. O que se pode observar é uma tendência que os indivíduos cujo grau de instrução é do nível médio e superior, sofram menos acidentes de trabalho do que aqueles de nível fundamental. No setor de trabalho ambulatorial a proporção para sofrer acidentes é de (2 vezes), no internamento (1,8 vezes), no apoio diagnóstico e terapêutico (1,5 vezes), enquanto quem trabalha no apoio logístico e operacional, a proporção para não sofrer acidentes é de 3,3 vezes.
Houve associação significativa entre a existência de outro emprego, uso de EPI quando durante o trabalho, satisfação com o trabalho e a ocorrência de acidentes de trabalho. O fato de o trabalhador possuir múltiplos empregos, visto que, cerca de 19% da força de trabalho possui mais de um vínculo empregatício para compensar as perdas salariais, parece colocar em cena a discussão sobre a qualidade do seu trabalho e, encontra-se associado à ocorrência de acidentes de trabalho no hospital universitário, provavelmente em virtude da sobrecarga de trabalho, da fadiga decorrente da organização temporal do trabalho em locais diferentes, da longa exposição às condições de trabalho e do pouco tempo necessário à sua recuperação, ao estresse e preocupações surgidas da vida pessoal, tornando-os mais propensos a sofrerem acidentes.
Para Medeiros e Rocha7, tecendo considerações sobre a força de trabalho em saúde em Natal-RN, algumas vezes o tempo livre ou folga remunerada desse trabalhador é utilizado, obrigatoriamente, em outra ocupação rentável ou investido na sua qualificação profissional, sendo esta financiada, muitas vezes, com os seus próprios recursos, em busca de uma colocação melhor ou prevenindo-se contra futuras demissões. Por outro lado, como 81% da força de trabalho estudada têm apenas um vínculo empregatício, esse resultado sugere a viabilidade para
programas de educação permanente direcionados para a saúde dos trabalhadores, no complexo de saúde do qual o hospital estudado faz parte.
A associação significativa em relação ao uso do EPI durante o trabalho, se deu em virtude daquelas pessoas que não fazem uso desse equipamento sofrerem menos acidentes que aqueles que costumam usá-los às vezes e rotineiramente. Isso não deve ser compreendido como uma relação de causa-efeito e sim que os trabalhadores que mais usam EPI, encontram-se mais expostos aos acidentes, conforme explicitado anteriormente em relação aos trabalhadores do apoio diagnóstico e terapêutico, que sofrem menos acidentes que os demais, isto é, os resultados mostram que os trabalhadores quando exercem atividades burocráticas e trabalham no setor de apoio logístico e operacional usam menos EPI, portanto, encontram-se provavelmente menos expostos aos riscos ambientais inerentes à área da saúde e também se acidentam menos.
Constatou-se ainda, que os trabalhadores satisfeitos com o trabalho proporcionalmente sofreram 2,55 vezes menos acidentes. Buscando-se aprofundar o conhecimento acerca dessa associação significativa, julga-se oportuno nesse momento, ilustrar com a tabela 2, alguns elementos subjetivos apreendidos do discurso de cada grupo estudado e do conjunto dos trabalhadores sobre essa temática, obtidos a partir da análise de conteúdo categorial temática, proposta por Bardin67.
4.2 A satisfação no trabalho
Tabela 2. Distribuição percentual das categorias e subcategorias do corpus “Satisfação no trabalho” em um hospital universitário. Natal-RN. 2005
Categorias Sub-categorias Grupo Apoio Grupo Médio Grupo Superior Total n % n % n % % Crescimento profissional 1 0,7 101 40,4 9 7,2 48,3 a. Trabalho, crescimento profissional e amor à profissão Convivência e amor à profissão 14 14,7 35 14,0 29 23,2 51.9 Adequadas 9 9,8 56 22,4 10 8,0 40,2 b. Condições de trabalho Inadequadas 13 13,7 27 10,8 37 29,6 54,1 Necessidade de sobrevivência e sofrimento 30 31,6 20 8,0 19 15,2 55,1 c. Trabalho, sofrimento e prazer Prazer 28 29,5 11 4,4 21 16,8 50,7 Total 95 100 250 100 125 100
De acordo com a tabela 2, percebe-se que a satisfação com o trabalho do grupo de apoio, advém principalmente de considerar o trabalho importante para a sua sobrevivência e da sua família, em um contexto de dificuldades para conseguir empregos melhores (31,6%), do prazer de trabalhar com algo que gosta, de poder sustentar a família (29,5%) e da chance proporcionada pelo trabalho de fazer amizades, tanto com funcionários como com pacientes (14,7%). Aparecem como aspectos negativos nessa representação, as mínimas chances para ascensão funcional, condições inadequadas de trabalho e a baixa remuneração.
No grupo médio, destaca-se como aspecto importante dessa representação o fato do grupo encarar o trabalho como possibilidade de crescimento profissional, através do aperfeiçoamento da formação e da constante atualização profissional, adquirida no hospital, provavelmente, por se tratar de um espaço reconhecidamente importante de formação profissional (40,4%). Essas pessoas consideram as
condições de trabalho adequadas (22,4%) e encaram o trabalho como um espaço de convivência e de amor à profissão (14,0%). Aparecem como subcategorias pouco enfatizadas nesse grupo, o trabalho no hospital como necessidade de sobrevivência, sofrimento e como fonte de prazer, apesar de alguns trabalhadores, se queixarem dos baixos salários, talvez porque consideram a remuneração e a função atuais como algo provisório. É bastante forte nesse grupo a vontade de ascender profissionalmente, não apenas no hospital, mas em outros possíveis campos de trabalho.
No grupo superior, aparecem às críticas as condições inadequadas de trabalho no hospital (29,6%), mostrando que os trabalhadores visualizam pouca chance de crescimento profissional (7,2%) e também reconhecem o trabalho como necessidade de sobrevivência, sofrimento e salários defasados (15,2%). As categorias positivas destacadas nesse grupo, referem-se ao espaço do trabalho como possibilidade de convivência com colegas e pacientes, trabalho em equipe e amor à profissão (23,2%), apesar das precárias condições de trabalho. Além disso, enfatizam o trabalho como fonte de prazer (16,8%).
Na observação das representações dessa totalidade social sobre a satisfação com o trabalho no hospital, o trabalho, sofrimento e prazer se destaca como categoria quantitativamente mais importante, na qual o conjunto dos trabalhadores evidencia a sua importância para a sobrevivência da família e, simultaneamente, também possibilita sofrimento e prazer.
A análise quali-quantitativa efetuada a partir do material discursivo extenso, possibilitou ampla exploração dos conteúdos enunciados, onde foi possível captar as distintas facetas sobre o trabalho no complexo de saúde, reveladas pelos grupos de apoio, médio e superior. Alguns aspectos subjetivos importantes que, na maioria das
vezes, passam desapecerbidos diante da abordagem estatística clássica afloraram, revelando com intensidade as relações complexas típicas do mundo do trabalho, a partir das opiniões, crenças, valores e idéias de cada grupo. Foi possível apreender alguns traços do cotidiano e das especificidades de um processo de trabalho, permeado por vivências ligadas à dor, sofrimento, angústia, impotência, desesperança e diferentes tipos de perdas pessoais e profissionais.
É interessante observar, como essa produção simbólica é sempre o resultado de uma inter-relação dialética entre um contexto, atores e relações sociais que transcendem o espaço organizacional e continuamente referem-se à sociedade e ao mundo. No ambiente hospitalar é extremamente desgastante conviver com limitações técnicas, pessoais e materiais em contraponto ao alto grau de expectativas e cobranças lançadas sobre este profissional pelos pacientes e familiares. Da mesma forma que, também é desgastante, conviver cotidianamente com a morte, torná-la indolor, adiá-la, conviver com pessoas gravemente doentes, refratárias a ajuda, hostis, dependentes e inseguras.
Por outro lado, o trabalhador da saúde sente satisfação no trabalho porque ama a profissão, sente-se realizado profissionalmente, sente orgulho do seu papel na sociedade, gosta do que faz, gosta da convivência e do relacionamento com colegas e pacientes, gosta da possibilidade de ajudar a salvar vidas, ajudar pessoas carentes, além da capacidade de aprender trabalhando e crescer profissionalmente.
Desse modo, as políticas de educação permanente acerca da prevenção dos acidentes de trabalho voltadas para esses sujeitos, deverão contemplar as especificidades de cada grupo em relação à dinâmica do trabalho, suas aspirações, desejos, limitações e, sobretudo, abranger ações direcionadas à melhoria da vida do trabalhador e à organização do trabalho no complexo de saúde estudado.
As tabelas 3 e 4 ilustram as médias, desvios padrões e significância estatística entre a jornada de trabalho diária informada em horas e mediana , quartis 25 e 75 e significância estatística da idade dos indivíduos, segundo a ocorrência de acidentes de trabalho, respectivamente.